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Urariano Mota

Autor de “Soledad no Recife”, recriação dos últimos dias de Soledad Barrett, mulher do Cabo Anselmo, entregue pelo traidor à ditadura. Escreveu ainda “O filho renegado de Deus”, Prêmio Guavira de Literatura 2014, e “A mais longa duração da juventude”, romance da geração rebelde do Brasil

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A memória da ditadura no romance “Decolagem proibida”

Publicado em maio deste ano, o romance “Decolagem proibida” de Paulo Carneiro ainda não recebeu a sua merecida crítica. É o que tento inaugurar a seguir.

A memória da ditadura no romance “Decolagem proibida”
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Com um texto em prosa, o autor faz uma nova versão de Morte e Vida Severina, pelo que lembra da trajetória do interior de Pernambuco ao centro urbano. Isto é, no caso de Paulo Carneiro, ele recria um caminho que vem da expulsão da Zona da Mata, passa pelo Recife e atinge São Paulo. Enquanto em João Cabral de Melo Neto, a poesia denunciava a miséria do homem nordestino, um retirante da seca, em Paulo Carneiro a prosa denuncia a trajetória da ditadura desde a cidade onde o seu retirante nasceu. E passa por cidades e profissões, até se tornar jornalista, muito bom jornalista. E bom escritor, se permitem a união entre a vida do autor e o livro.   

 

No romance aparecem muitos personagens, no entanto, mais que nomes, um é original, pleno: Mero, um ótimo personagem. Acredito que ele se nutre do próprio autor, se não abuso da imaginação.   

Com o personagem Mero entramos na recuperação do tempo de soldado na Aeronáutica em Pernambuco, que a maioria dos leitores fora dos quartéis desconhece. Aquilo que só víamos em romances norte-americanos, vemos agora no Recife:  

“No começo, tudo era descoberta, novidade e poder. Recebeu um saco de lona repleto de fardamentos: coturnos, botas e uma maratona — sapatilha de couro para corrida. Tudo com cheiro de novo. Precisava aprender a andar como um soldado. Deslumbrado - Estava ali para lutar por liberdade. Não sabia por onde começar...

A morte de Alfeu provocou tristeza e serviu de aviso aos que ousavam se opor à ditadura. Edvaldo dizia que o adesismo se tornara, aos poucos, um purgante necessário, produzindo uma onda de alcoolismo e suicídios nos quartéis. 

Casos de depressão se multiplicaram, visíveis na apatia que Mero observava com frequência nos soldados. Ficou perturbado com aquela narrativa cruel, embora verossímil. Quanto à embriaguez, parecia já institucionalizada”.

Na altura em que se torna jornalista em São Paulo, Mero nos brinda com uma reportagem na  revista Verbum (a revista Versus no Brasil da ditadura). É um episódio real da história do Brasil. São linhas bem escritas e narradas, e de tal maneira, que pensamos em um episódio autobiográfico. Mas o escritor Paulo Carneiro me avisou que não publicou na Versus. O fato é que, por pesquisa nos jornais, livros e criação, existe nos trechos da reportagem do romance a recuperação literária de um dos crimes contra o Brasil  Se não, olhem: 

“Mero e Freeman detalharam a pauta. O editor advertiu que a censura ainda rondava, mesmo com o fim do AI-5. Combinou-se que ele enviaria o material por telefone e Hemingway” (jornalista assim batizado por Paulo Carneiro, inspirado em Wagner Carelli, que mais adiante se mudaria para direita). Na época da Versus, “ ‘Hemingway’ em São Paulo, cuidaria da redação final. 

A fonte principal do repórter seria o deputado João Ferraz, presidente da CPI da Hanna Mining/MBR. Ferraz aceitou falar sob a condição de revisar os dados antes da publicação.

Era da Arena, partido do governo, mas enfrentou o governador Aureliano Chaves e o general Bandeira ao recusar a cassação de um parlamentar do MDB. Tinha fama de corajoso.

A CPI constatou que a Hanna causou danos econômicos e ambientais a Minas Gerais e ao país. A empresa prometera exploração, pelotização e siderurgia, mas cumpria apenas a primeira fase.

O relatório concluíra que o Brasil exportava minério bruto e importava aço a custo elevado. Ferraz destacou que o contrato com a mineradora resultou na extinção da linha de passageiros entre BH e o Rio – passou a transportar exclusivamente minério. 

Mero perguntou se o impacto ambiental não seria suficiente para romper o acordo. Ferraz fez sinal para que ele desligasse o gravador e conferiu se estava realmente desligado.

— Eles compraram o país, meu jovem. Sua reportagem não será publicada...

Isidoro da Matta (dono da pensão onde o repórter se hospedou) atuou como chefe de reportagem informal de Mero em Minas. Indicou fontes e explicou a CPI. No último dia, foram à Pampulha. Por sugestão dele, Mero realizou uma enquete com os moradores sobre a Hanna.

A maioria via os norte-americanos como benfeitores. Falavam em progresso e empregos. A propaganda da empresa dominava jornais, rádios e cartazes. Os moradores chamavam as crateras da antiga Saint John d’El Rey Mining de ‘marcas do progresso’. A extração de ferro sem custo era vista como cordialidade, não como pilhagem”.

 Observo que entre as desgraças da vida, o escritor Paulo Carneiro possui um humor de gênio, raro e culto no Brasil. No livro, ele faz a criação de uma defesa de TCC do estudante Mero, no curso de jornalismo da USP. E defende, diante da banca, Marcel Proust e Hermilo Borba Filho em um só trabalho. O autor me esclareceu, em rápida entrevista, quando lhe perguntei: 

- O TCC Proust e Hermilo é só invenção?

Ele me respondeu: 

 

- Em termos. Discuti com um dos examinadores e ele desconfiava da minha capacidade de concluir uma tese sobre as origens da MPB. Então sugeri o confronto Proust x Hermilo. Ele não havia lido nenhum dos dois. Então eu fiz o TCC da MPB baseado em Tinhorão.   

No entanto, no romance ele superou a ignorância do mestre no curso.  Olhem e vejam o que foi criado: 

“Colegas assíduos apresentavam projetos baseados em autores clássicos, como Umberto Eco, McLuhan e Vygotsky — e Mero não ficou para trás. Propôs um estudo comparativo entre Um Cavalheiro da Segunda Decadência, do escritor pernambucano Hermilo Borba Filho, e Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Ambas as obras exploram as profundezas da interioridade e da memória.

— Certifique-se de que tem bagagem — reagiu o professor Luís Augusto — Você tem sido um aluno ausente. 

Mero argumentou que Proust estava lido e anotado, e que Hermilo era sua leitura recorrente. Socorro, desconfiada, perguntou se ele seria capaz de sustentar a argumentação oral.

— É só marcar a data — respondeu ele, firme.

Ela olhou para o alto, em silêncio. Os mestres pressentiam a aproximação de um desastre. 

Tempo e Ruína

Mero, estudante-operário, defendia uma tese que soava como uma anedota acadêmica, mas escondia profundezas inesperadas. Maria do Socorro dispensou preâmbulos e pediu que ele fosse direto a Hermilo. Mero explicou que, naquele autor, o regionalismo não era cenário, mas a própria cela do narrador.

Hermilo nascera em uma região onde os canaviais haviam forjado barões, açúcar e açoites. Embora filho de senhor de engenho, trazia uma urgência barroca na escrita; uma exuberância que doía na carne.

— Como podiam ser iguais, ele e Proust, sendo tão díspares? — questionou Socorro.

Mero prosseguiu o raciocínio, atendendo à mestra:

— Em Proust, a busca era pela essência perdida na transição de classes. Em Hermilo, a memória era uma ferida aberta pela ditadura. Os dois mundos colidiam em tempo e ruína. Enquanto a aristocracia dos Guermantes apodrecia com elegância e a burguesia de Swann avançava, a decadência atravessava o oceano e aportava em Pernambuco com cheiro de sangue e melaço.

Ele continuou, seguro:

— Proust narrava a morte de seu mundo pelo viés burguês. Hermilo exibia o fim dos engenhos e a violência estatal, de Vargas a Castelo. Eram retratos de transição: um marcava a agonia de uma aristocracia doentia; o outro, os esgotos da repressão. Ambos fixavam no papel o que restava antes do apagamento.

Mero argumentou que, para Proust, a arte era a transcendência da prisão temporal. Já em Hermilo, o título Um Cavalheiro da Segunda Decadência evocava o declínio absoluto. O narrador tentava manter protocolos em um mundo que ruía, marchando para o fracasso e a loucura.

Luís Augusto, visivelmente surpreso, rompeu o silêncio com uma provocação:

— Proust ativava a memória involuntária com o sabor da madeleine. O que usava Hermilo?

— O cheiro da morte lenta do Rio Una — respondeu Mero, seco.

Não houve aplausos, apenas silêncio e assombro. Ele foi aprovado. A tese era seu brevê para voar no meio acadêmico — mas tudo não passava de uma ficção frágil diante da realidade palpável. No dia seguinte, ele estaria de volta ao chão de fábrica da GM”.

Como diria o grande Liêdo Maranhão sobre as pessoas do Recife: “que beleza, não é?”. Assim é agora. O autor Paulo Carneiro me declarou que Mero, o nome escolhido para o personagem, teve esta razão: “Pensei em associar o narrador a um animal em extinção, escolhi esse peixe”. Mas que nada, todos vemos que o narrador do romance “Decolagem proibida” está vivo, ele não está em extinção. Para a felicidade dos leitores. 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.