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Carlos Castelo

Jornalista, sócio-fundador do grupo Língua de Trapo, um estilo sem escritor

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A máquina de reflexão

Um gesto repetido diante do espelho transforma um simples tufo de pelos em ritual criativo, metáfora do pensamento e da ilusão de controle sobre as ideias

A máquina de reflexão (Foto: Gerada por IA/Freepik)

Deixei a minha mosca crescer por acidente. Como quase todas as decisões importantes da minha vida, ela surgiu da preguiça. Um fim de semana sem lâminas de barbear, um espelho complacente e pronto: ali estava aquele pequeno tufo abaixo do lábio, insinuando profundidade intelectual.

Passei a apelidá-la primeiro de Dizzy (por causa da famosa “soul patch” de Dizzy Gillespie). Depois, chamei-a de “máquina de reflexão”.

Não por vaidade. Por método científico.

Descobri que, sempre que preciso pensar, fico puxando a mosca. É automático. A mão sobe sozinha. Fico ali, segurando o pequeno tufo com a gravidade de quem gira um globo terrestre. E funciona. Tanto quanto fumar um cigarro enquanto se digita um texto. Com a vantagem de que não prejudica os pulmões.

Minha mosca tem personalidade. Há dias em que ela colabora, meio filosófica, permitindo que eu puxe ideias, trazendo coelhos de alguma cartola. Em outros, mostra-se rebelde, espetada, emitindo uma espécie de protesto capilar contra a pressão excessiva. Já considerei a possibilidade de contratá-la como CLT.

Em reuniões, tornou-se meu recurso dramático. Quando alguém propõe algo absurdo, levo a mão à mosca, movimento-a com solenidade e digo: “Interessante". O gesto suspende a conversa. A mosca pensa por mim. Sou apenas o operador.

E há vantagens práticas. Diferentemente dos cigarros, que acabam, a mosca é renovável. Cresce sozinha, alimentada por proteínas e vaidade. E não exige isqueiro, apenas convicção. Minha namorada, entretanto, chama-a de “antena de bobagens”. Diz que, quanto mais eu a remexo, mais bobagens escrevo. Discordo. Algumas bobagens exigem grande concentração.

Certa vez, num café, enquanto elaborava mentalmente uma frase espirituosa sobre a condição humana, percebi que estava puxando a mosca com tanto afinco que o garçom me olhava. Talvez achasse que eu tentava arrancar um pensamento preso debaixo da boca. Ele não estava totalmente errado.

A mosca também serve como indicador emocional. Se a puxo devagar, estou reflexivo. Se a puxo rápido, estou ansioso.

Mas há riscos. Outro dia, diante de um prazo implacável, estoquei a mosca com energia demais. Senti um leve estalo. Corri ao espelho. Lá estava eu, sem minha máquina de reflexão. Ficou na minha mão como um ponto de exclamação descolado da frase.

Entrei em pânico. Como pensar sem ela? Como opinar? Como discordar de propostas sem sentido?

Sentei-me diante do teclado, órfão dos pelos estratégicos. A mão logo subiu ao lábio e encontrou o vazio. Mesmo assim, comecei a distender o nada. Um meneio no ar. E, para meu espanto, as ideias vieram. Fluíram.

Foi quando entendi: a máquina nunca esteve na mosca.

Estava no gesto.

Hoje continuo movendo algo que não está lá. As pessoas me olham estranho. A namorada sugere terapia. Mas meus textos continuam saindo. Talvez a verdadeira máquina de reflexão seja essa pequena ilusão que criamos para acreditar que pensamos melhor com um ritual.

Ou talvez eu só precise deixar a mosca crescer de novo.

Porque, vamos combinar, puxar o nada cansa.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.