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Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

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A guerra anunciada: o fim da conciliação e o Brasil que entra em sua eleição mais decisiva

Lula expõe a crise estrutural do sistema político e antecipa uma eleição de 2026 marcada pelo confronto entre projetos de país e a degradação institucional

Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

Ao declarar que a próxima disputa presidencial será uma “guerra” e que a política brasileira está “mercantilizada” e “apodrecida”, Lula não radicaliza — apenas reconhece a profundidade da crise do sistema. O verdadeiro problema não está na fala, mas na estrutura de poder que limita a própria democracia.

As frases pronunciadas por Luiz Inácio Lula da Silva durante a celebração dos 46 anos do Partido dos Trabalhadores não devem ser lidas como arroubos retóricos nem como uma guinada inesperada de estilo. Ao afirmar que a próxima eleição será uma guerra — e, mais ainda, que a política brasileira está mercantilizada e “apodreceu” —, o presidente fez algo politicamente raro: descreveu o país como ele de fato se apresenta hoje. O Brasil aproxima-se de 2026 menos como uma democracia pacificada e mais como um sistema tensionado, onde forças antagônicas disputam não apenas o governo, mas as próprias regras do jogo.

O fim de um personagem histórico

Durante décadas, a trajetória política de Lula esteve associada à ideia de conciliação. O chamado “Lulinha paz e amor”, consolidado sobretudo na campanha de 2002, não era apenas uma estratégia eleitoral — era uma leitura precisa de época. O Brasil buscava previsibilidade, o conflito distributivo podia ser amortecido pelo crescimento e ainda parecia possível compatibilizar inclusão social com acomodação dos interesses das elites econômicas.

A conciliação não era fraqueza; era método. Esse método funcionou enquanto havia algum grau de racionalidade nas elites políticas, enquanto a democracia liberal preservava legitimidade e enquanto os atores mais radicais permaneciam nas margens do sistema.

Nada disso permanece intacto.

O Brasil — como boa parte do mundo — atravessou uma mutação profunda na última década. A polarização deixou de ser episódica e tornou-se estrutural. O extremismo foi normalizado. A desinformação converteu-se em instrumento permanente de poder. E setores relevantes da vida pública passaram a operar não mais dentro do pacto democrático, mas nas suas bordas.

Nesse contexto, insistir na estética da conciliação seria menos virtude do que cegueira histórica.

Quando Lula fala em guerra, portanto, não rompe com sua trajetória — ele reconhece que o terreno mudou.

O atraso talvez não esteja na radicalização do discurso, mas no tempo que levamos para admitir que o conflito já estava em curso.

Não é metáfora — é diagnóstico

Parte da reação ao discurso buscou enquadrá-lo como exagero ou como gesto contraditório para alguém que governa por meio de amplas alianças. Essa leitura erra o alvo.

A palavra “guerra”, no caso brasileiro, não precisa ser entendida literalmente para ser politicamente precisa. Ela descreve um ambiente em que o Congresso exerce poder crescente sobre o orçamento, a sabotagem legislativa tornou-se rotina, a extrema direita mantém mobilização permanente e a esfera pública foi fragmentada por ecossistemas digitais impermeáveis ao debate racional.

Trata-se de um conflito difuso, institucional e contínuo. Não reconhecer essa realidade seria muito mais perigoso do que nomeá-la.

Há ainda um elemento adicional que torna o diagnóstico particularmente relevante: a eleição de 2026 tende a ocorrer em um ambiente internacional mais instável, marcado pela erosão da hegemonia americana, pelo avanço dos nacionalismos econômicos e pela crescente instrumentalização da política doméstica para fins geopolíticos. Democracias sob tensão raramente produzem eleições previsíveis.

O Brasil não será exceção.

O nó central: governar com quem não quer ser governado

Se a fala de Lula foi um diagnóstico correto, ela também ilumina a principal fragilidade do arranjo político atual: a dependência estrutural de um Congresso cada vez mais autônomo e menos comprometido com qualquer projeto nacional.

O chamado Centrão já não pode ser descrito apenas como um bloco pragmático. Ele se tornou um polo de poder. Controla parcelas expressivas do orçamento, condiciona agendas e redefine, na prática, o equilíbrio entre Executivo e Legislativo.

O governo não negocia apenas governabilidade — negocia capacidade de agir.

O paradoxo é evidente: enquanto o presidente reconhece a existência de uma guerra política, o próprio sistema impõe ao Executivo alianças que frequentemente funcionam como forças de contenção.

Evitar essas alianças poderia produzir paralisia institucional. Mas aceitá-las impõe limites claros à transformação.

A contradição não é moral; é estrutural.

E é precisamente aqui que as outras duas frases de Lula — talvez ainda mais importantes — ganham densidade analítica.

A política mercantilizada — quando o poder vira ativo

Se, ao afirmar que a eleição será uma guerra, Lula descreve o ambiente, ao dizer que “a política está mercantilizada” ele toca em algo ainda mais perturbador: a transformação do próprio sistema político em um mercado.

Não se trata apenas de fisiologismo, prática antiga na República brasileira. O que emerge nas últimas décadas é um salto qualitativo: mandatos tornam-se ativos, apoio parlamentar converte-se em moeda e parcelas crescentes do orçamento passam a funcionar como instrumentos de negociação.

A política deixa de ser espaço de mediação de interesses sociais para operar segundo uma lógica quase contratual.

Maiorias não se constroem — precificam-se.

Coalizões não se formam — negociam-se como portfólios.

Quando Lula afirma que “a política apodreceu”, a frase pode soar dura. Na realidade, ela nomeia um processo de deterioração institucional que atravessa governos, partidos e legislaturas. O problema não é apenas moral. É sistêmico.

Um Congresso que controla volumes inéditos de recursos públicos sem a correspondente responsabilidade executiva altera silenciosamente o equilíbrio entre os Poderes. O presidencialismo de coalizão transforma-se, pouco a pouco, em um presidencialismo tutelado.

Governar passa a significar administrar um condomínio de interesses fragmentados — frequentemente incompatíveis com qualquer estratégia nacional de longo prazo.

Nesse contexto, a guerra eleitoral mencionada por Lula deixa de ser apenas um confronto entre projetos ideológicos. Torna-se também uma disputa contra a própria degradação da política como esfera pública.

E aqui reside o dilema mais difícil de resolver: para governar, é preciso negociar com o sistema tal como ele é; para transformá-lo, seria necessário enfrentá-lo.

Poucas lideranças escapam dessa armadilha. Nenhuma o faz sem custo.

O maior risco para uma democracia não é o conflito — é quando a política deixa de organizar conflitos e passa a ser organizada pelo dinheiro.

A reorganização silenciosa da direita

Enquanto parte do debate público se concentra na retórica presidencial, movimentos estratégicos ocorrem no campo conservador. A possível candidatura de Flávio Bolsonaro ilustra um processo mais amplo de reorganização da direita brasileira.

Após anos de radicalização, segmentos desse campo parecem compreender que projetos duradouros exigem maior previsibilidade institucional e menor volatilidade discursiva. A aposta em perfis percebidos como mais moderados — ainda que comprometidos com agendas semelhantes — pode ampliar pontes com o mercado e reduzir resistências no centro político.

Seria um erro interpretar esse movimento como moderação substantiva. Muitas vezes, trata-se apenas de mudança de forma, não de conteúdo.

Projetos políticos aprendem. Adaptam-se. Refinam sua linguagem.

A eleição de 2026 poderá revelar uma direita menos estridente — mas não necessariamente menos assertiva.

A falsa nostalgia da estabilidade

Há, em certos círculos, uma saudade implícita de um tempo em que a política brasileira parecia menos conflitiva. Essa memória é, em grande medida, seletiva.

O que existia era um sistema capaz de absorver tensões sem que elas se convertessem em rupturas abertas. Esse sistema foi sendo corroído pela crise de representação, pela desigualdade persistente e pela crescente distância entre instituições e sociedade.

A estabilidade não desapareceu por causa de um discurso mais duro. Ela já vinha se desfazendo.

Nesse sentido, a fala de Lula tem também uma dimensão pedagógica: prepara o eleitorado para uma disputa mais áspera e menos previsível. Lideranças políticas não apenas descrevem a realidade — ajudam a moldar as expectativas coletivas sobre ela.

Ignorar o conflito não o elimina. Apenas o torna mais perigoso.

Entre sobreviver e transformar

Todo governo reformista enfrenta uma tensão clássica: a diferença entre sobreviver politicamente e alterar estruturas de poder.

Sobreviver exige alianças amplas, moderação tática e capacidade de negociação. Transformar pressupõe conflito, definição de adversários e disposição para correr riscos. Equilibrar essas dimensões é uma das tarefas mais difíceis da liderança política.

O discurso da guerra sugere que o governo percebe a necessidade de deslocar gradualmente esse equilíbrio — de uma postura predominantemente defensiva para outra mais afirmativa. Mas discursos não reorganizam correlações de força.

Se a eleição será de fato uma guerra, ela não será vencida apenas no plano institucional. Dependerá da capacidade de reconstruir vínculos sociais, mobilizar expectativas e oferecer um horizonte de futuro que vá além da mera contenção do adversário.

Transformar uma coalizão eleitoral em base social ativa talvez seja o maior desafio do ciclo político que se aproxima.

O risco da guerra apenas retórica

Há, contudo, um perigo evidente. Se a linguagem do confronto não vier acompanhada de mudanças políticas consistentes, ela pode produzir apenas temperatura — não direção.

Guerras políticas são vencidas por estratégia, não por vocabulário.

Isso implica maior clareza programática, comunicação direta com a sociedade, redução de ambiguidades nas alianças e disposição para disputar narrativas econômicas e sociais.

Caso contrário, o país pode entrar em uma eleição marcada por alta intensidade discursiva e baixa definição de projetos — um cenário historicamente propício à instabilidade.

Uma eleição que decidirá mais do que um governo

O que está em jogo em 2026 provavelmente ultrapassa a alternância tradicional de poder. A disputa tende a envolver concepções distintas sobre o papel do Estado, o lugar do Brasil no mundo, os limites da democracia e a própria ideia de desenvolvimento.

Em momentos assim, a moderação excessiva pode ser tão arriscada quanto a radicalização irresponsável.

Ao declarar que a eleição será uma guerra e que a política se degradou, Lula parece abandonar a ilusão de que ainda seria possível conduzir o país apenas pela lógica da acomodação. O ciclo histórico que permitiu essa estratégia ficou para trás.

Isso não significa transformar a política em campo de batalha permanente. Significa reconhecer que democracias também exigem defesa — e que a neutralidade raramente protege aqueles que pretendem transformá-las.

O que essas frases realmente revelam

Mais do que um gesto de dureza, as declarações presidenciais revelam uma percepção crescente nas democracias contemporâneas: entramos em uma era de disputas prolongadas, nas quais consensos mínimos se tornam raros e vitórias eleitorais deixam de encerrar conflitos.

O Brasil chega a esse momento carregando suas desigualdades históricas, sua fragmentação partidária e um sistema institucional que combina resiliência com vulnerabilidades.

Talvez a maior contribuição dessas falas tenha sido retirar o debate do terreno confortável das ficções moderadoras.

O país não caminha para uma eleição rotineira. Caminha para uma disputa que testará a capacidade das instituições, a maturidade do eleitorado e a habilidade das lideranças de oferecer mais do que medo — oferecer direção.

Se haverá guerra, como disse o presidente, ela não começou agora. Apenas deixou de ser sussurrada para ser nomeada.

E, na política, dar nome aos conflitos costuma ser o primeiro passo para enfrentá-los.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.