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Sara York

Sara Wagner York (também conhecida como Sara Wagner Pimenta Gonçalves Júnior) é bacharel em Jornalismo, doutora em Educação, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. É especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, autora do primeiro trabalho acadêmico sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido em seu mestrado. Pai e avó, é reconhecida como a primeira mulher trans a ancorar no jornalismo brasileiro, pela TV 247

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A fantasia é a masculinidade: o Carnaval só revela

"Talvez o verdadeiro disfarce seja aquele usado no restante do ano — o da masculinidade obrigatória"

Bloco de carnaval (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)

Há algo que sempre retorna no carnaval: homens que "se vestem de mulher" e a reação social que oscila entre o riso e o deboche. "É só fantasia", dizem. Mas talvez a fantasia seja outra.

A história nos ensina que o gênero nunca foi essência, sempre foi cena. No teatro grego antigo, mulheres eram proibidas de atuar; homens representavam personagens femininas, autorizados pelo sistema a construir o "feminino" no palco. Séculos depois, quando mulheres finalmente ocuparam a cena pública — como na Restauração Inglesa — pagaram com reputação e estigma. Atrizes eram associadas à prostituição, vistas como ameaça à moral. O gênero sempre foi policiado.

O carnaval herda essa tensão histórica. Ele permite a inversão, mas apenas por prazo determinado. Suspende a norma para, em seguida, reafirmá-la.

É aí que mora o incômodo.

Quando homens se vestem de mulher no carnaval, muitos acreditam estar brincando com algo externo a si. No entanto, o que se chama de "ser homem" durante o ano inteiro também é performance — repetida, vigiada, recompensada. A masculinidade normativa exige dureza, contenção emocional, heterossexualidade compulsória, domínio. É um figurino diário.

Inclusive, já vi — e não foi poucas vezes — homens que competem em sessões públicas de "reflexão" na Barra, cigarro na mão, como se a fumaça fosse prova de virilidade. Disputam quem é mais cético, mais impenetrável, mais imune ao afeto. Peito inflado, ironia como escudo. Uma coreografia da masculinidade que já sofre os próprios efeitos de sua toxicidade: corpos tensionados, emoções interditadas, prazer policiado. É a encenação cotidiana do homem que precisa convencer os outros — e a si mesmo — de que é inabalável.

No carnaval, curiosamente, essa rigidez vacila.

Talvez, nesses dias, alguns não estejam "fantasiando-se" de mulher, mas experimentando zonas interditadas de si: gestos mais livres, exageros permitidos, vulnerabilidades menos punidas. E talvez o verdadeiro disfarce seja aquele usado no restante do ano — o da masculinidade obrigatória.

Isso não significa ignorar as caricaturas ou os estereótipos que muitas vezes atravessam essas performances. Eles existem e precisam ser criticados. Mas mesmo a caricatura revela fissura: para zombar, é preciso tocar no que ameaça.

O problema não é o salto alto de fevereiro.

O problema é uma sociedade que só autoriza a liberdade masculina sob a condição de que seja "piada".

Se fosse apenas fantasia, não causaria tanto desconforto quando ultrapassa a quarta-feira de cinzas.

Talvez o carnaval não seja o dia da encenação. Talvez seja o dia da verdade. E o resto do ano, a grande peça.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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