A diplomacia brasileira e o terrorismo da CIA
A CIA é a agência dos Estados Unidos que lida com grupos “terroristas”, e não mais o FBI e a DEA
A designação de terroristas ao PCC e ao CV pelos Estados Unidos é um direito americano, a despeito de suas nítidas motivação política e inoportunidade, tendo em vista as ações concretas contra o crime organizado tomadas pelo governo brasileiro, inclusive com apelos à cooperação internacional. Está clara a natureza mafiosa, não terrorista das organizações, mas, agora, isso pouco importa.
Os prováveis efeitos comerciais da medida vêm sendo bem esmiuçados pela mídia, mas não estão claros os riscos reais de ações de força contra o crime, pelos americanos, em território brasileiro, o que seria um flagrante ataque à soberania nacional.
O professor de Direito Internacional da Faculdade de Direito da USP Wagner Menezes, membro do quadro de árbitros da ONU, não acredita nessa possibilidade: “Vejo essa hipótese muito mais como devaneio que será explorado por A ou B no campo político. O Brasil é um país soberano, com democracia, tem um papel importante na sociedade internacional e é um player importante regional. Abrir discussão para esse tipo de coisa é nos diminuir enquanto nação e menosprezar nossa capacidade diplomática de negociação”.
Menezes crê que o alto nível da nossa diplomacia e sua capacidade de negociação abrirão canais de diálogo para um trabalho conjunto - claro, descontando-se a imprevisibilidade de tudo que envolva Donald Trump. Em paralelo, entente o professor, o Congresso tem o dever fundamental de abrir uma discussão pública sobre mecanismos de combate ao crime organizado, com determinação, inclusive abordando a vinculação de políticos com as organizações criminosas. “Precisamos aproveitar este momento para, em um sistema transnacional, dar efetivo combate ao crime organizado, que tem dado sinais de avanço sobre as estruturas institucionais do Estado e da sociedade, conforme demonstrado por investigações as quais mostraram ação de grupos criminosos em investimentos e lavagem de dinheiro, para além de dominarem espaços onde o Estado perdeu sua jurisdição”, concita Menezes.
De sua parte, a coluna tem particular preocupação com as prováveis gestões da CIA em território brasileiro, já que é a agência que lida com grupos “terroristas”, e não mais o FBI e a DEA, instituições que vinham desenhando colaborações com a Polícia Federal brasileira. A história conhecida da CIA recomenda máxima atenção - o modus operandi do órgão de inteligência americano, na verdade um grupo de espionagem altamente qualificado para sabotar governos, inclui até assassinato de chefes de Estado e outras maldades.
Os lances da CIA são cinematográficos e não seria exagero classificá-los, sim, como terrorismo, termo perfeitamente conceituado: uso sistemático da violência (ou de fornecimento de meios para tanto) — ou da ameaça de violência — para fins políticos, com o objetivo de intimidar, coagir ou desestabilizar governos ou populações civis. É o que faz o órgão dito “de inteligência”, sem tirar nem por. Basta ver o que fez a agência no Brasil do golpe militar de 1964: deu apoio logístico e financeiro à conspiração que derrubou o presidente João Goulart. A Operação Brother Sam previa o fornecimento de combustível, armas e navios aos golpistas.
O apoio da CIA aos golpistas militares é indissociável da brutal ditadura que oprimiu o Brasil por 21 anos. É preciso, no mínimo, nutrir dúvidas quando os Estados Unidos de 2026 dizem não pretender interferir nas eleições brasileiras.
A seguir, um pouco mais de História à guisa de alerta.
A Operação Condor foi a cereja do bolo terrorista da CIA na América do Sul. Chile, Argentina, Uruguai, Brasil, Paraguai e Bolívia foram vítimas daquela a mega-operação coordenada pela central de inteligência americana, mediante apoio logístico, troca de informações e treinamento de agentes para perseguição transnacional de opositores de esquerda. O resultado foram centenas de assassinatos e desaparecimentos, algo que se tornou corriqueiro na Guerra Fria, por obra da dita-cuja.
Como já escrevemos neste espaço, a perseguição aos Tupamaros, em reforço à ditadura de Juan María Bordaberry no Uruguai, no começo dos anos 1970, deu-se com a decisiva ajuda da CIA, cujo modelo de treinamento de torturadores está perfeitamente descrito em “Estado de Sítio”, filmaço de Constantin Costa-Gavras.
Nem se fale das atividades preliminares que resultaram na morte do presidente chileno Salvador Allende em 1973 e no que tudo aquilo resultou, pelas mãos de um dos seres mais repugnantes da História da humanidade, Augusto Pinochet. No Chile, a CIA – ou os Estados Unidos, tanto faz – financiou a imprensa reacionária contra Allende, em especial o jornal “El Mercurio”, que sabotou a economia de várias formas, em especial incentivando uma greve de caminhoneiros.
A ditadura Pinochet, abençoada pela CIA e pelos Estados Unidos, durou 17 anos. De novo Costa-Gavras produziu um filme espetacular a respeito: “Missing”, ou “Desaparecido”, que retrata com fidelidade a contribuição decisiva dos Estados Unidos para aquela triste realidade.
Republicana Dominicana, Bolívia, Argentina (mediante completo apoio de inteligência à junta militar de Jorge Videla), Nicarágua, El Salvador, Honduras, Guatemala, Panamá e Cuba (quanto a esta, vale um artigo exclusivo: só atentados contra Fidel Castro foram mais de 600) também foram palco de atividades ilegais da CIA. Na atualidade, por enquanto, a Venezuela foi a bola da vez.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




