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Paulo Henrique Arantes

Jornalista há quase quatro décadas, é autor do livro "Retratos da Destruição: Flashes dos Anos em que Jair Bolsonaro Tentou Acabar com o Brasil". Editor da newsletter "Noticiário Comentado" (paulohenriquearantes.substack.com)

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A crescente sombra da autocracia

Relatório aponta avanço global da erosão democrática e alerta para riscos persistentes no Brasil e nos Estados Unidos sob o governo de Donald Trump

Bandeiras do Brasil e dos Estados Unidos (Foto: Reuters/Evelyn Hockstein)

O título deste artigo remete ao último relatório da Freedom House, ONG americana que avalia a democracia no mundo, identificando e mensurando fatores que a reforçam ou destroem. “The Growing Shadow of Autocracy”, de 2026, mostra que a liberdade global decai pelo vigésimo ano consecutivo. Tem-se, portanto, uma tendência estrutural de queda das liberdades política e civil, não um movimento episódico, em que sobressaem as chamadas “autocracias eleitorais”, ou seja, países falsamente democráticos, em que os direitos são corroídos aos poucos em regimes de aparente legalidade.

Conforme o estudo, a democracia regrediu em 54 países e progrediu em 35. Nesse mapa, o Brasil aparece como um país democrático, porém sob risco – como se sabe, o bolsonarismo sobrevive, constituindo a “sombra da autocracia” que paira sobre a nação. A FH também é precisa quanto à qualidade da democracia americana sob Donald Trump.

O relatório da Freedom House ressalta que, no Brasil, a democracia vem sendo submetida a forte pressão política e institucional, especialmente nos últimos anos. Destacam-se, nesta quadra histórica, a retórica de deslegitimação do sistema eleitoral durante o governo de Jair Bolsonaro, a mobilização de apoiadores dele contra o Supremo Tribunal Federal e, sobretudo, os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023.

O estudo não menciona o caso Master, mas, a despeito de a atuação de uma máfia financeira estar sendo desvendada, o momento serve como um novo capítulo da guerra da extrema-direita contra o STF e uma espécie de Lava Jato 2, em que o alvo final é o presidente Lula.

A FH acerta ao identificar a principal estratégia com que se tenta destruir a democracia brasileira: a forte disseminação de desinformação política, mediante uso intensivo de redes sociais para mobilização radicalizada. Em síntese, a ONG enxerga o Brasil como uma democracia que resistiu a um teste severo recente, mas que pode estar vulnerável a retrocessos. Impossível não lembrar que essa vulnerabilidade agrava-se quando se detecta a velada – ou nem tão velada assim – colaboração da imprensa mainstream.

EUA - O estudo da Freedom House não classifica os Estados Unidos como uma autocracia, mas faz um alerta claro: há sinais persistentes de erosão institucional na terra do Tio Sam. A FH não personifica, mas a tal “erosão institucional” americana, claro está, atende pelo nome de Donald Trump.

O relatório menciona a persistência de narrativas de fraude eleitoral sem comprovação, especialmente após a eleição de 2020, o que fragiliza um pilar central da democracia: a legitimidade das eleições. Nos Estados Unidos de Trump, há preocupação constante com mudanças nas regras de votação em alguns Estados e tentativas de interferência política na administração eleitoral.

O relatório trata a invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, como um marco simbólico grave, expondo fragilidade institucional e disposição de setores políticos em contestar regras democráticas. Nos Estados Unidos, como no Brasil, segundo a Freedom House, a disseminação de desinformação é vista como fator central de corrosão democrática: plataformas digitais amplificam teorias conspiratórias e a deslegitimação de instituições.

Com alguns eufemismos, o relatório da FH atesta o que já escrevemos neste espaço: a ideia de democracia modelar americana é derrubada pela total inércia de suas instituições diante do autoritarismo do atual presidente. A nação não possui os tais freios e contrapesos alardeados para coibir os ímpetos fascistas de Donald Trump, tanto que simplesmente não os coíbe ou o faz canhestramente. O presidente faz o que bem entende, e isso configura um país não democrático. Hoje, os Estados Unidos, em face da opressão e da perseguição a determinados grupos e etnias, além do cerco a universidades e a veículos de imprensa não alinhados, são um exemplo a não ser seguido pelo Ocidente capitalista que inspiravam.

A Freedom House é uma organização independente sediada em Washington, criada em 1941, com foco na promoção da democracia, dos direitos políticos e das liberdades civis no mundo. Claro, pode ser questionada por identificar-se exclusivamente com valores liberais ocidentais. De todo modo, seu diagnóstico global e, em particular, sobre o Brasil e os Estados Unidos, parece bastante fiel à realidade.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.