A conta da privatização já chegou: e quem está pagando é a periferia sem água
Isso não é coincidência, nem culpa da estiagem. É política. É gestão pensada para garantir lucro aos acionistas
A realidade é uma só: a Sabesp foi privatizada e a população das periferias de São Paulo já começou a pagar (literalmente) a conta por um serviço que não chega na torneira. O que estamos vendo em bairros mais altos e afastados dos centros é uma rotina cruel de falta d’água. Todos os dias. Por horas. Casas inteiras tentando viver com um fiozinho de água - quando ela vem.
Isso não é coincidência, nem culpa da estiagem. É política. É gestão pensada para garantir lucro aos acionistas, mesmo que isso custe a dignidade de milhares de famílias. E isso precisa ser dito com todas as letras.
Desde que a Sabesp foi entregue ao mercado financeiro, o que se intensificou foi o uso de uma estratégia chamada “gestão da oferta”. Parece técnico, mas é simples: em vez de decretar racionamento, o que obrigaria a empresa a admitir falha no serviço, a Sabesp simplesmente baixa a pressão da água em áreas periféricas e mantém os reservatórios cheios. Resultado? A empresa continua lucrando, enquanto quem mora longe do centro urbano passa o dia sem água para beber, cozinhar ou tomar banho.
E por que isso dá lucro? Porque a Sabesp cobra por um volume mínimo de 10 mil litros mesmo que a pessoa consuma menos. Se a água não chega, o hidrômetro registra pouco ou nada, mas a conta vem cheia, igualzinha. A pessoa paga pelos 10 mil litros. Se houvesse um racionamento oficial, a arrecadação da empresa cairia. Mas com a “redução de pressão”, isso não. Os lucros continuam altos, as famílias continuam sem água e ninguém pode reclamar, porque oficialmente não há “falta de água”.
Essa denúncia não é só da CMP. Ela é baseada em análises técnicas de gente séria como o engenheiro Vicente Andreu, ex-presidente da Agência Nacional de Águas e ex-dirigente da Sanasa (Campinas), que escreveu com todas as letras: essa prática é deliberada, planejada, e serve para manter os dividendos dos acionistas da empresa agora privatizada. O mesmo alerta foi feito pelo engenheiro Amaury Pollachi, membro do ONDAS (Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento), que também estuda a fundo os efeitos da privatização.
Não estamos falando de teoria. Estamos falando de gente, de mães que não conseguem dar banho nos filhos, de idosos que não conseguem puxar uma descarga, de trabalhadores que chegam em casa e não têm água para lavar o rosto. Isso está acontecendo agora, em pleno 2026, na maior cidade da América Latina e em várias cidades do estado de São Paulo.
Essa é a lógica da privatização: lucro em cima do bem comum, gestão orientada por números e não por vidas. A água, que deveria ser um direito garantido, virou uma mercadoria, sujeita à lógica de mercado. E, como sempre, quem mais sofre são os que vivem nas bordas da cidade.
A CMP denuncia, alerta e convoca: é hora de reagir. Não podemos aceitar calados que transformem a água em produto de luxo. Não podemos assistir de braços cruzados ao retorno do “banho com balde”. Não aceitaremos a normalização da escassez só porque alguém decidiu que o lucro vem antes da dignidade.
Vamos estar mobilizados nas ruas, nos bairros e nas redes, em defesa da água como bem público, em defesa da vida. Exigimos transparência, exigimos justiça tarifária e exigimos a revogação desse modelo mercantilista e predatório.
O direito à água está sendo esvaziado e não é só na torneira. E se há essa ação deliberada para cortar água nas periferias, então a resposta também será deliberada: organização, resistência e luta. A conta da privatização já chegou. E nós não vamos pagá-la com sede.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



