170 anos de Sigmund Freud
Como A interpretação dos sonhos uniu ciência, literatura e imaginação em prosa genial e rara
Muitos hoje no mundo lembram os 170 anos de Freud.
Do meu canto de não-especialista, ouso também falar sobre o ilustre cientista. E trago sem amargor os leitores para um aspecto de Freud, que muito me surpreendeu e me deu felicidade: o seu belo livro A interpretação dos sonhos. Para mim, é obra fundamental do cientista, que possui iluminações sobre a nossa vida em magnífica prosa.
Muitos estudiosos falam que Freud bebeu profundamente nas obras literárias. Mas a minha opinião é que ele, além de se nutrir e beber da grande literatura, foi também um magnífico escritor. Apesar da divisão absurda entre ciência e arte, Sigmund Freud foi um cientista que sabia escrever as suas descobertas científicas sobre o mundo íntimo das pessoas. Se duvidam, notem as duas visões, de cientista e escritor, no que ele escreve sobre o Hamlet de Shakespeare, no grande livro “A interpretação dos Sonhos”:
“Outra das grandes criações da poesia trágica, o Hamlet de Shakespeare, tem suas raízes no mesmo solo que Édipo Rei. Mas o tratamento modificado do mesmo material revela toda a diferença na vida mental dessas duas épocas, bastante separadas, da civilização: o avanço secular do recalque na vida emocional da espécie humana. No Édipo, a fantasia infantil desejosa que subjaz ao texto é abertamente exposta e realizada, como ocorreria num sonho. Em Hamlet ela permanece recalcada; e — tal como no caso de uma neurose — só ficamos cientes de sua existência através de suas consequências inibidoras. Estranhamente, o efeito esmagador produzido por essa tragédia mais moderna revelou-se compatível com o fato de as pessoas permanecerem em completa ignorância quanto ao caráter do herói. A peça se alicerça nas hesitações de Hamlet em cumprir a tarefa de vingança que lhe é designada; mas seu texto não oferece nenhuma razão ou motivo para essas hesitações, e uma imensa variedade de tentativas de interpretá-las não trouxe nenhum resultado. Segundo a visão que se originou em Goethe e é ainda hoje predominante, Hamlet representa o tipo de homem cujo poder de ação direta é paralisado por um desenvolvimento excessivo do intelecto. (Ele está ‘amarelecido, com a palidez do pensamento’.) Segundo outra visão, o dramaturgo tentou retratar um caráter patologicamente indeciso, que poderia ser classificado de neurastênico. O enredo do drama nos mostra, contudo, que Hamlet está longe de ser representado como uma pessoa incapaz de tomar qualquer atitude. Nós o vemos fazer isso em duas ocasiões: primeiro, num súbito rompante de cólera, quando trespassa com a espada o curioso que escuta a conversa por trás da tapeçaria, e em segundo lugar, de maneira premeditada e até ardilosa, quando, com toda a insensibilidade de um príncipe da Renascença, envia os dois cortesãos à morte que fora planejada para ele mesmo. O que é, então, que o impede de cumprir a tarefa imposta pelo fantasma do pai?”
E agora a seguir, de modo magistral, em um trecho que narra a sua descoberta a partir de um sonho-modelo, sobre o qual escreve:
“Devemos tentar efetuar duas mudanças no paciente: um aumento da atenção que ele dispensa a suas próprias percepções psíquicas e a eliminação da crítica pela qual ele normalmente filtra os pensamentos que lhe ocorrem. Para que ele possa concentrar sua atenção na observação de si mesmo, é conveniente que ele se coloque numa atitude repousante e feche os olhos. É necessário insistir explicitamente para que renuncie a qualquer crítica aos pensamentos que perceber. Dizemos-lhe, portanto, que o êxito da psicanálise depende de ele notar e relatar o que quer que lhe venha à cabeça, e de não cair no erro, por exemplo, de suprimir uma ideia por parecer-lhe sem importância ou irrelevante, ou por lhe parecer destituída de sentido. Ele deve adotar uma atitude inteiramente imparcial perante o que lhe ocorrer, pois é precisamente sua atitude crítica que é responsável por ele não conseguir, no curso habitual das coisas, chegar ao desejado deslindamento de seu sonho, ou de sua ideia obsessiva, ou seja lá o que for....
Nosso primeiro passo no emprego desse método nos ensina que o que devemos tomar como objeto de nossa atenção não é o sonho como um todo, mas partes separadas de seu conteúdo. Quando digo ao paciente ainda novato “que é que lhe ocorre em relação a esse sonho?”, seu horizonte mental costuma transformar-se num vazio. No entanto, se colocar diante dele o sonho fracionado, ele me dará uma série de associações para cada fração, que poderiam ser descritas como os “pensamentos de fundo” dessa parte específica do sonho.”
E depois, o que faz o cientista? Interpreta publicamente um sonho próprio, dele mesmo, como um modelo de interpretação para muitos outros:
“Trimetilamina. Vi a fórmula química dessa substância em meu sonho, o que testemunha um grande esforço por parte de minha memória. Além disso, a fórmula estava impressa em negrito, como se tivesse havido um desejo de dar ênfase a alguma parte do contexto como algo de importância muito especial. Para onde, então, minha atenção deveria ser assim dirigida pela trimetilamina? Para uma conversa com um outro amigo, que há muitos anos se familiarizara com todos os meus escritos, durante a fase em que eram gerados, tal como eu me familiarizara com os dele. Na época, ele me havia confiado algumas ideias sobre a questão da química dos processos sexuais e mencionara, entre outras coisas, acreditar que um dos produtos do metabolismo sexual era a trimetilamina. Assim, essa substância me levava à sexualidade, fator ao qual eu atribuía máxima importância na origem dos distúrbios nervosos cuja cura era o meu objetivo. Minha paciente, Irma, era uma jovem viúva; se eu quisesse encontrar uma desculpa para o fracasso de meu tratamento em seu caso, aquilo a que melhor poderia recorrer era, sem dúvida, o fato de sua viuvez, que os amigos dela ficariam tão contentes em ver modificado. E de que modo estranho, pensei comigo, um sonho como esse se monta! A outra mulher que eu tinha como paciente no sonho em lugar de Irma era também uma jovem viúva.
Acabo de concluir a interpretação do sonho. Enquanto a efetuava, tive certa dificuldade em manter a distância todas as ideias que estavam fadadas a serem provocadas pela comparação entre o conteúdo do sonho e os pensamentos ocultos por trás dele. Entrementes, compreendi o ‘sentido’ do sonho. Tomei consciência de uma intenção posta em prática pelo sonho e que deveria ter sido meu motivo para sonhá-lo. O sonho realizou certos desejos provocados em mim pelos fatos da noite anterior (a notícia que me fora dada por Otto e minha redação do caso clínico). Em outras palavras, a conclusão do sonho foi que eu não era responsável pela persistência das dores de Irma, mas sim Otto. De fato, Otto me aborrecera com suas observações sobre a cura incompleta de Irma, e o sonho me proporcionou minha vingança, devolvendo a reprimenda a ele. O sonho me eximiu da responsabilidade pelo estado de Irma, mostrando que este se devia a outros fatores — e produziu toda uma série de razões. O sonho representou um estado de coisas específico, tal como eu desejaria que fosse. Assim, seu conteúdo foi a realização de um desejo, e seu motivo foi um desejo”.
Esse livro me marcou de tal maneira, que passei eu próprio a tentar ser interpretador de sonho, função que se não me trouxe recompensa material, me trouxe uma paciente alegria. Como nesta recuperação:
“Um amigo tem um filho que desejava ser militar. Mas esse amigo desejaria qualquer futuro para o filho, todo e qualquer, menos aquele, o escolhido pelo filho. Antes que façam uma censura, esclarecemos que o amigo viveu e sofreu o pesadelo da ditadura no Brasil, possuiu companheiros que foram mortos cruelmente pelos militares. Daí a sua ojeriza a tudo que cheirasse a farda e a escolas militares. Ele se dizia possuído por todas as razões e mais uma para não ver um filho militar. De tamanha raiva, ele dizia, e dizia-se, ‘que ele escolhesse e me dissesse, 'pai, eu quero ser um ladrão’. E lhe responderia, 'filho, isto não é o que eu sonhava para ti, mas se assim é o teu desejo, como bom democrata, respeito-o. Vá ser ladrão’. Assim estavam, em uma tensão pesada, quando o filho teve um pesadelo, que se repetia em noites seguidas, e por saber que éramos conhecedor de A Interpretação dos Sonhos, e que gostávamos de decifrá-los, nos procurou. Assim era o sonho.
‘Eu sonhei que eu estava numa jaula de feras, num circo. No começo eu pensava que eu poderia dominá-las. Mas então eu descubro que todas feras são tigres, e que começam a me rodar, a mostrar os dentes para mim. Então eu procuro subir pelas grades, mas não há mais grades, só existe uma parede escorregadia, mas que eu, com esforço de acrobata, vou escalando, pondo uma perna em um ferro da grade que aparece não sei como e a outra na parede. Mas aí eu começo a escorregar, os tigres me mostram os seus dentes, e rosnam, e dão rugidos. Estou nessa agonia, quando aparece um homem de roupa branca, impecável roupa branca, que descubro ser o domador das feras, que sem chicote, domina os tigres. Então eu saio do sufoco. Mas eu não sei, eu não tenho a certeza de se ele conseguirá, na próxima noite, dominá-las sem armas, ou se ele vai aparecer antes que eu caia nos dentes do tigre’.
O nosso ‘analista’ sabia que os sonhos mais abstratos são desenvolvimentos de um cotidiano, imediato, ou do cotidiano distante que marca ou mais importa viver, acontecido ontem ou muito antes de ontem. Portanto, ele desconfiava que esse pesadelo remetia à situação de conflito vivida pelo jovem em casa. Mas como relacionar, como ligar, por exemplo, as feras, os tigres? Como a sua análise individualizou as feras, personalizou-as no tigre, mas como relacioná-lo, o tigre, ao problema de ser ou não um militar? Havia, claro, dados acessórios, que descartou na sua perseguição à origem do pesadelo. Descartou o circo, por exemplo, porque ali o circo era o pretexto, era uma concessão à lógica feita pelo sonho, apenas para deixar o jovem numa jaula, preso entre ferros e feras. A explicação deveria remeter ao tigre, ou ao que o tigre lembrava, e tinha o seu desdobramento na figura do homem de branco, que resolvia o dilema entre o jovem escapar ou ser morto. Sim, mas como, e de que dados do real, da realidade de todos os dias, aquilo vinha? Bom, se uma análise pode ser guiada pela intuição, ou por aquilo que ainda não foi racionalizado ou explicado na consciência, mas que é uma força ativa, nem por isso uma análise se faz por adivinhação, ou por mentira, ou por uma fantasia gratuita. Isto, além de ser desonesto, é frágil, não resiste a uma pensada contestação. Nem convence o indivíduo do pesadelo, portanto, não resolve o problema aos olhos de quem mais interessa, àquele que sofre. Por isto, se ele fosse a explicação, como aparecia no sonho o conflito vivido em casa?
Para responder a essa pergunta, nada se podia fazer sem a ajuda de quem sonha. Se o sonhador esconde dados, ou fatos, a explicação pode embarcar numa canoa absolutamente furada. É preciso quase um estado de confissão dele. Por isto, perguntamos. E de pergunta em pergunta, dos gostos do jovem, de como se divertia e passava o seu tempo, conseguimos chegar aos endereços utilizados por ele na Internet, até o ponto em que vimos o seu fotolog. Então boa parte do pesadelo se esclareceu. E lhe disse:
Aquelas feras, os tigres, são uma referência ao Exército, para onde você tenta ir. Como eu cheguei a tão brilhante conclusão, você deve estar se perguntando. É mais simples do que imagina. Lembra-se do seu fotolog? Eu vi: ali está a cabeça de uma onça, um jaguar de dentes à mostra, saindo do mapa de um Brasil verde, por entre as dobras da bandeira brasileira. Lembra? Na imagem o que se ressalta é a cabeça da onça, os seus olhos vivos, a sua boca que se abre. Esta foi a imagem que você tirou de um site do Exército. Bonita, e assustadora. No sonho, essa onça virou tigre, fera mais comum nos grandes circos. Ela, ele, o tigre, avança para você, e você procura escalar a parede, com pernas de acrobata. Difícil, e aí vai uma referência a seu estado físico, ao difícil teste físico a que você se submeteria, e que você resolve no sonho com uma fuga digna de um artista da habilidade física. Nessa agonia, surge o homem vestido de branco, impecavelmente de branco. Esse branco remete à farda de marinheiros, a viagens. Você quer a sua liberdade. É interessante que remetendo à Marinha, força menos agressiva que os dentes da onça, remete também a uma força derivada da marinha, não-militar, à Marinha Mercante. O homem de branco está desarmado, sem chicote. E domina a fera. Uma força civil híbrida, que poderia ser uma solução do seu conflito, e do conflito na sua casa. Matei a charada?
Ele, o jovem, concordou. Mas muito aqui para nós, esses foram os resultados a que chegamos com a junção dos propósitos antimilitares e da leitura de Freud e da imaginação”.
Em resumo, amigos. Para ressaltar o valor do gênio de Freud, no limite da minha incompetência, eu somente posso desejar que muitas pessoas leiam “A interpretação dos sonhos”. É literatura e ciência em um mesmo autor. Não é pouco. E bons sonhos com suas interpretações.
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* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
