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Guinada à direita na Colômbia fortalece bloco conservador na América Latina

Vitória de Abelardo De La Espriella amplia realinhamento político regional, impulsionado por crise econômica, insegurança pública e aproximação com Trump

Abelardo de La Espriella e Donald Trump (Foto: Brasil 247 / Dall-E)
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247 – A vitória do advogado nacionalista Abelardo De La Espriella na eleição presidencial da Colômbia consolidou uma nova guinada à direita na América Latina e aprofundou o enfraquecimento da chamada “onda rosa”, que havia levado governos progressistas ao poder no início da década de 2020.

Segundo análise publicada pelo Valor Econômico, a eleição de Espriella, um novato na política, ocorre em um momento de avanço de forças conservadoras em diversos países da região. O movimento já inclui Argentina, Chile, Equador, Bolívia e Panamá, e pode ganhar novo impulso no Peru, onde a conservadora Keiko Fujimori lidera por margem estreita a lenta apuração dos votos contestados do segundo turno presidencial de 7 de junho.

Na Colômbia, a apuração preliminar indicou vitória de Espriella por 49,66% dos votos, contra 48,70% do senador de esquerda Iván Cepeda, candidato apoiado pelo presidente Gustavo Petro. Pela legislação colombiana, porém, é necessária uma contagem final validada, supervisionada por tabeliães e juízes, que estava quase concluída no fim da noite de domingo.

Caso o resultado seja confirmado, a Colômbia passará a integrar um bloco regional cada vez mais inclinado à direita, revertendo parte do ciclo político que levou Petro ao poder como o primeiro presidente de esquerda da história colombiana.

Crise econômica e segurança impulsionam a direita

O avanço conservador na América Latina ocorre em meio a economias frágeis, inflação persistente, déficits fiscais e aumento da criminalidade. Esses fatores remodelaram as prioridades dos eleitores e abriram espaço para candidatos de direita que prometem repressão mais dura ao crime, redução de impostos, cortes no Estado e flexibilização de regras para empresas.

Na avaliação de especialistas citados pela reportagem, a ascensão desses governos também se conecta a um cenário global de fortalecimento do nacionalismo de direita. Esse ambiente favorece o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que busca conter a influência crescente da China na América Latina e ampliar o controle norte-americano sobre a região.

"Este é um alinhamento incomum dos astros para Trump", afirmou Steven Levitsky, professor de Estudos Latino-Americanos e de governo da Universidade Harvard. "Raramente se vê um grande número de governos tão convergentes ideologicamente quanto estamos vendo agora."

O alinhamento ideológico regional ganha relevância em um momento de maior presença dos Estados Unidos em questões de segurança e energia na América Latina. Ao longo do último ano, Trump ordenou ataques que mataram mais de 150 pessoas em supostas embarcações do narcotráfico no Caribe, lançou uma aliança regional de direita apelidada de “Escudo das Américas” e capturou o presidente venezuelano Nicolás Maduro em uma operação realizada em Caracas.

Espriella se aproxima de Trump e promete ruptura com Petro

A vitória de Espriella representa uma mudança profunda em relação ao governo de Gustavo Petro, um dos críticos mais contundentes de Trump na região. As posições de Petro lhe renderam ameaças de ação militar e sanções por parte de Washington.

Espriella, por outro lado, é admirador declarado do presidente norte-americano. Cidadão dos Estados Unidos naturalizado e ex-residente de Miami, ele manifestou apoio público a Trump e recebeu seu endosso antes do segundo turno colombiano.

Durante a campanha, o presidente eleito prometeu aderir ao Escudo das Américas, endurecer o combate ao narcotráfico, reduzir impostos, flexibilizar regulações para empresas e retomar projetos de petróleo e gás interrompidos durante o governo Petro.

A pauta energética deve ocupar lugar central em sua gestão. A Colômbia enfrenta escassez de gás em meio a um cenário internacional pressionado pela guerra contra o Irã e pelo fechamento do Estreito de Ormuz, fatores que abalaram os mercados globais de energia.

Energia, petróleo e mineração entram no centro da disputa regional

A guinada à direita também tem implicações econômicas e geopolíticas. Com vastas reservas de petróleo na Guiana e na Venezuela, além de uma das maiores formações de xisto do mundo na Argentina, especialistas avaliam que a América Latina pode se consolidar como uma potência energética global.

Nesse contexto, líderes conservadores da Argentina, do Chile, do Peru e da Colômbia vêm defendendo políticas voltadas à expansão da mineração, dos combustíveis fósseis e da exploração energética. A promessa é atrair investimentos e destravar projetos paralisados por questões ambientais, regulatórias ou políticas.

No entanto, os novos governos de direita enfrentam uma contradição: ao mesmo tempo em que prometem crescimento e desregulação, lidam com déficits orçamentários elevados, pressão social e necessidade de cortes de gastos. As medidas de austeridade já provocaram protestos em diferentes países.

Na Bolívia, o governo declarou estado de emergência e começou a desobstruir bloqueios que paralisaram o país por mais de 50 dias. Sindicatos e outros grupos protestavam contra medidas de austeridade adotadas pelo presidente de centro-direita Rodrigo Paz.

Protestos e violência desafiam governos conservadores

No Chile, o índice de aprovação do presidente José Antonio Kast despencou depois que a guerra contra o Irã levou seu governo a elevar os preços dos combustíveis. Na Argentina, as medidas de austeridade do presidente Javier Milei também vêm sendo recebidas com protestos recorrentes.

As dificuldades não se limitam à economia. A segurança pública, uma das principais bandeiras eleitorais da direita regional, segue como desafio central. No Equador, os homicídios aumentaram 30% no ano passado, segundo a reportagem, e o governo do presidente Daniel Noboa atribuiu a alta às disputas territoriais entre facções criminosas fragmentadas.

Na Costa Rica, os homicídios também dispararam sob o governo do populista de direita Rodrigo Chaves. Sua sucessora, Laura Fernandez, prometeu uma guerra contra o crime, mas os assassinatos continuaram elevados, em meio ao crescimento do país como ponto de passagem para carregamentos de cocaína sul-americana destinados aos Estados Unidos e à Europa.

Na Colômbia, o narcotráfico, a mineração ilegal e a presença limitada do Estado em partes do território devem impor um teste difícil a Espriella. O país tem dimensões, conflitos internos e estruturas institucionais muito mais complexas do que outros casos frequentemente citados pela direita latino-americana.

Congresso dividido deve limitar ambições de Espriella

Embora tenha vencido a eleição, Espriella chega ao poder com margem inferior a 1% e terá de governar com um Congresso dividido. O Pacto Histórico, partido de seu rival Iván Cepeda, tem mais cadeiras do que qualquer outra legenda, o que pode dificultar a aprovação de reformas mais radicais.

O estilo de vestir do presidente eleito e sua promessa de construir megapresídios levaram a comparações com o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, que se autodenomina o “ditador mais descolado do mundo”. Espriella, porém, nega estar copiando o modelo salvadorenho.

Para Sergio Guzman, fundador da Colombia Risk Analysis, a transposição desse modelo para a realidade colombiana não seria simples. "A Colômbia é um país muito maior e muito mais complexo de administrar do que El Salvador, e importar as soluções de segurança salvadorenhas para a Colômbia não é viável, seja do ponto de vista jurídico, orçamentário ou das relações internacionais", afirmou.

Levitsky também avalia que Espriella terá de operar dentro das instituições democráticas colombianas para aprovar sua agenda. Segundo ele, o presidente eleito deverá enfrentar dificuldades "se tentar ser mais radical".

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