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Defesa da soberania sul-americana pode favorecer governo Lula, afirma especialista

Reação do Brasil aos EUA tendem a influenciar eleições, com disputa de narrativas entre governo e oposição sobre intervenção e soberania

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, sessão Plenária da Cúpula de Presidentes e Chefes de Delegação dos Estados Partes do Mercosul e dos Estados Associados. Belmond Hotel Cataratas, Foz do Iguaçu - PR. Foto: Ricardo Stuckert / PR (Foto: Ricardo Stuckert)

247 - A crise aberta pelas operações dos Estados Unidos na Venezuela, que resultaram na captura do presidente Nicolás Maduro, deve repercutir diretamente no debate político brasileiro e na avaliação do governo federal às vésperas das eleições. A leitura é do professor Gustavo Rocha, internacionalista e doutor em Ciência Política pela UFPE, que avalia que o tema tende a ser incorporado ao discurso eleitoral no Brasil, especialmente pela centralidade da soberania regional e da política externa.

Em entrevista ao jornal Diário de Pernambuco, Rocha afirma que “uma intervenção dos EUA na Venezuela tende a ter impacto negativo para toda a região. A violação da soberania é algo sempre negativo”. Segundo ele, a discussão não passa por apoiar o governo Maduro, mas por defender princípios: “Não se trata de defender o regime de Maduro, mas a soberania de um país vizinho”. O professor avalia que, se o Brasil assumir protagonismo regional, “se assemelhando ao caso do tarifaço, se o Brasil assumir a liderança do processo de transição da Venezuela, contendo os EUA, pode ter impacto positivo para o governo”.

O internacionalista explica que a crise deve alimentar narrativas opostas no cenário eleitoral. “Do lado da direita, a tendência será de estigmatizar o governo Maduro como uma ditadura de esquerda, e aliada do governo. Que os EUA estariam libertando a Venezuela da opressão”. Já do ponto de vista governista, a estratégia será outra: “Do outro lado, o governo tentará condenar a intervenção dos EUA, mostrando a liderança do Brasil na defesa da soberania venezuelana”. Para Rocha, essa posição busca reforçar que “não se trata de defender um governante, mas de defender a soberania, a não intervenção e a autodeterminação do povo venezuelano”.

Rocha pondera que os efeitos políticos no Brasil “dependem do desenrolar dos fatos”. Caso o governo Lula consiga liderar uma articulação regional, o episódio pode ser convertido em ativo político. “Se o governo Lula se posicionar firmemente, e liderar o processo de transição para um novo momento, o governo brasileiro pode fazer do limão uma limonada”, afirma, destacando que “o elemento mais grave é o precedente político e o impacto econômico que a intervenção causa”.

O professor ressalta que a disputa de versões estará ligada à conjuntura recente da política externa brasileira. “A narrativa que terá mais força depende dos acontecimentos a seguir. Mas acredito que, em face do tarifaço, a defesa da América do Sul terá impacto positivo na avaliação do governo, especialmente se conseguir auxiliar na condução para um novo governo, limitando a intervenção dos EUA no processo”. Ele também aponta o peso da polarização interna: “O bolsonarismo, mais radical, tende a enxergar a intervenção dos EUA como libertação da Venezuela. O governo Lula tende a enxergar como uma nova intervenção indevida dos EUA na América Latina/do Sul”.

Por fim, Rocha enfatiza que a reação regional será decisiva para o futuro da Venezuela e para o equilíbrio político sul-americano. “É importante conter a intervenção dos EUA na região. O recado de uma não reação a essa intervenção é um péssimo precedente”, alerta. Para ele, uma articulação envolvendo Brasil, México e Colômbia poderia “frear o ímpeto intervencionista dos EUA” e, ao mesmo tempo, “permitir uma transição democrática para a Venezuela”, ainda que reconheça que “a captura de Maduro é irreversível e haverá uma transição”.