Suspensão de importação de carne do Brasil pela UE pode causar prejuízos de US$ 1,8 bi para o agro brasileiro
Comissão Europeia afirma que Brasil não cumpriu exigências sobre o uso de antimicrobianos na pecuária; governo promete reação à decisão
247 - O Brasil poderá perder quase US$ 2 bilhões em exportações de carnes e produtos de origem animal para a União Europeia a partir de setembro, após ser excluído de uma lista sanitária do bloco europeu. As informações são do G1.
A medida da União Europeia define quais países cumprem os padrões sanitários exigidos pelo bloco e poderão continuar exportando produtos de origem animal ao mercado europeu a partir de 3 de setembro. Segundo a Comissão Europeia, o Brasil ficou fora da lista por não apresentar garantias suficientes sobre o uso de antimicrobianos na pecuária.
União Europeia ameaça mercado bilionário do Brasil
A União Europeia é atualmente o segundo maior destino das carnes brasileiras em valor exportado, atrás apenas da China. Dados da Agrostat, sistema do Ministério da Agricultura, mostram que o bloco europeu importou, em 2025, cerca de 368,1 mil toneladas de produtos brasileiros do setor, movimentando US$ 1,8 bilhão.
A carne bovina lidera as vendas para os europeus em valor agregado. No ano passado, o Brasil exportou 128 mil toneladas do produto para a União Europeia, totalizando US$ 1,048 bilhão em receitas. O mercado europeu é o terceiro principal destino da carne bovina brasileira, atrás apenas da China e dos Estados Unidos.
Carne bovina e frango lideram exportações afetadas
As exportações brasileiras de carne de frango para a União Europeia também têm peso relevante no comércio exterior. Em 2025, o país embarcou cerca de 230 mil toneladas do produto, com receitas de US$ 762 milhões.
Além das carnes, outros itens podem ser atingidos pelas restrições europeias. O mel brasileiro, por exemplo, somou US$ 6 milhões em exportações para o bloco no último ano, com volume aproximado de mil toneladas.
Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o Brasil atualmente não exporta carne suína para a União Europeia.
Cobrança de garantias sobre uso de antimicrobianos
Em entrevista à agência Lusa, a porta-voz da Comissão Europeia para a Saúde, Eva Hrncirova, confirmou que o Brasil não integra a nova lista de países autorizados a exportar determinados produtos ao bloco europeu.
Segundo ela, o país poderá deixar "de exportar para a UE mercadorias como bovinos, equinos, aves, ovos, aquicultura, mel e invólucros".
A representante da União Europeia afirmou ainda que o Brasil precisará comprovar adequação às exigências sanitárias do bloco para retomar as exportações.
"O Brasil deve garantir o cumprimento dos requisitos da União relativos à utilização de antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais dos quais provêm os produtos exportados", declarou. Ela acrescentou que, "assim que a conformidade for demonstrada, a UE poderá autorizar ou retomar as exportações".
Governo brasileiro terá de atender exigências sanitárias
Segundo Leonardo Munhoz, doutor em direito agroambiental e advogado do escritório VBSO, os antimicrobianos questionados pela União Europeia incluem substâncias como virginiamicina, avoparcina, bacitracina, tilosina, espiramicina e avilamicina.
Em abril deste ano, o Ministério da Agricultura publicou uma portaria proibindo a importação, fabricação, comercialização e uso de alguns antimicrobianos utilizados como promotores de crescimento animal, incluindo avoparcina e virginiamicina.
De acordo com Munhoz, o Brasil terá dois caminhos para voltar à lista da União Europeia: ampliar as restrições legais ao uso dos medicamentos restantes ou comprovar que os produtos exportados não contêm essas substâncias.
O especialista avalia, porém, que a segunda alternativa é mais difícil de implementar, pois depende de sistemas avançados de rastreabilidade e certificação sanitária.
Especialistas alertam para impacto no agronegócio
Munhoz afirmou que a possibilidade de endurecimento das regras sanitárias europeias já era conhecida desde 2019.
"Gera preocupação relevante para o agro porque a União Europeia é um mercado estratégico para proteínas animais e porque essas exigências podem impactar rastreabilidade, certificação sanitária e compliance exportador", afirmou.
O advogado também destacou que a decisão anunciada pela União Europeia não possui relação direta com o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. Segundo ele, trata-se de uma regulamentação sanitária utilizada para garantir padrões de segurança alimentar.
Ao comentar a medida, o comissário europeu para Agricultura, Christophe Hansen, defendeu a decisão do bloco. "Nossos agricultores seguem alguns dos padrões de saúde e antimicrobianos mais rigorosos do mundo. Portanto, é legítimo que os produtos importados estejam sujeitos aos mesmos requisitos. A decisão tomada hoje demonstra que o sistema europeu de controle funciona", declarou.
Reação do governo brasileiro
Em nota conjunta, o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), o Ministério das Relações Exteriores (MRE) e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) disseram estar surpresos com a decisão da Comissão Europeia e afirmaram que "o Governo do Brasil tomará prontamente todas as medidas necessárias para reverter essa decisão, voltar à lista de países autorizados, e garantir o fluxo de vendas desses produtos para o mercado europeu, para o qual exporta há 40 anos".
Ainda segundo a nota, "o chefe da Delegação do Brasil junto à União Europeia já tem reunião agendada para amanhã (13/5) com as autoridades sanitárias do bloco para buscar explicações sobre a decisão".
Leia a íntegra da nota:
"NOTA CONJUNTA MAPA/MRE/MDIC
Medida da União Europeia contra exportações brasileiras de produtos de origem animal
"O governo brasileiro recebeu, hoje (12/5), com surpresa, a notícia da retirada do Brasil da lista de países autorizados a exportar produtos de origem animal destinados ao consumo humano para a União Europeia, a partir de 3 de setembro de 2026.
A decisão decorre do resultado da votação realizada hoje no âmbito do Comitê Permanente para Plantas, Animais, Alimentos e Ração da Comissão Europeia, que aprovou uma atualização dessa listagem. Vale ressaltar que, no momento, as exportações brasileiras de produtos de origem animal seguem normalmente.
O Governo do Brasil tomará prontamente todas as medidas necessárias para reverter essa decisão, voltar à lista de países autorizados, e garantir o fluxo de vendas desses produtos para o mercado europeu, para o qual exporta há 40 anos.
O chefe da Delegação do Brasil junto à União Europeia já tem reunião agendada para amanhã (13/5) com as autoridades sanitárias do bloco para buscar explicações sobre a decisão.
Detentor de um sistema sanitário robusto e de qualidade internacional reconhecida, o Brasil é o maior exportador do mundo de proteínas de origem animal e o principal fornecedor de produtos agrícolas ao mercado europeu."



