China limita exportações de fertilizantes e eleva risco para o Brasil
Medidas de Pequim em meio à guerra envolvendo EUA, Israel e Irã pressionam preços globais e podem impactar produção agrícola brasileira
247 - A decisão da China de restringir exportações de fertilizantes para proteger seu mercado interno amplia as tensões no comércio global de insumos agrícolas. A medida ocorre em um momento de forte pressão sobre a oferta internacional, agravada pela guerra envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Irã, que já compromete rotas estratégicas de transporte e eleva os custos logísticos, informa a Folha de São Paulo.
Pequim proibiu, em meados de março, a exportação de misturas de fertilizantes de nitrogênio e potássio, além de algumas variedades de fosfato, apesar da ausência de anúncio oficial público.
Restrições ampliam escassez global
A China é um dos maiores exportadores mundiais de fertilizantes, com embarques que superaram US$ 13 bilhões no último ano. Historicamente, o país adota políticas de controle para garantir preços internos mais baixos e assegurar o abastecimento agrícola doméstico.
Com as novas restrições, apenas alguns produtos — especialmente o sulfato de amônio — seguem liberados para exportação. Estimativas indicam que entre metade e três quartos das vendas externas chinesas podem estar afetadas, o que representa até 40 milhões de toneladas.
O impacto ocorre em paralelo à interrupção de fluxos pelo estreito de Ormuz, responsável por cerca de um terço do transporte marítimo global desses insumos. O bloqueio da rota intensifica ainda mais a escassez internacional.
Preços sobem e mercado reage
O efeito imediato já aparece nos preços. A ureia, um dos principais fertilizantes utilizados no mundo, registrou aumento de cerca de 40% desde o início do conflito. Na China, os contratos futuros do produto se aproximam dos níveis mais altos em dez meses.
A dependência de fertilizantes chineses preocupa países importadores. Dados do International Trade Centre mostram que, no último ano, cerca de um quinto das importações de fertilizantes de Brasil, Indonésia e Tailândia vieram da China. Em países como Malásia e Nova Zelândia, essa participação chegou a um terço.
Com as restrições atuais, entre 50% e 80% dessas exportações podem estar comprometidas, segundo análise baseada em dados alfandegários chineses. O cenário levanta preocupações sobre custos de produção agrícola e possíveis impactos na oferta de alimentos.
Incerteza sobre retomada das exportações
Ainda não há clareza sobre quando as restrições serão flexibilizadas. Durante uma conferência do setor em Xangai, vendedores indicaram que não esperam a suspensão das medidas antes de agosto, após o pico do período de exportações.
Enquanto isso, autoridades chinesas não detalham oficialmente as decisões. Questionado sobre o tema, o Ministério das Relações Exteriores encaminhou a demanda a outros órgãos, que não responderam aos pedidos de esclarecimento.
O prolongamento das restrições pode manter o mercado global sob pressão, com reflexos diretos para economias dependentes de fertilizantes importados, como a brasileira.


