Jovem torturada por patroa espera justiça: "eu não ia sair dali viva"
Carolina e Michael foram presos e são investigados por tentativa de homicídio, tortura, cárcere privado, injúria, calúnia e difamação
247 - A empregada doméstica Samara Regina Dutra, de 19 anos, grávida de cinco meses, relatou ter sido torturada pela então patroa, a empresária Carolina Sthela Ferreira dos Anjos, e por um homem identificado como o policial militar Michael Bruno Lopes Santos, após ser acusada de furtar um anel em Paço do Lumiar, na região metropolitana de São Luís, no Maranhão.
As informações são do Fantástico, da TV Globo, que exibiu neste domingo (10) relatos da vítima, trechos de áudios atribuídos à empresária e detalhes da investigação policial sobre o caso. Carolina e Michael foram presos nesta semana e são investigados por tentativa de homicídio triplamente qualificado, tortura, cárcere privado, injúria, calúnia e difamação.
Segundo o relato de Samara, a acusação começou após Carolina afirmar que um anel havia desaparecido dentro da residência onde a jovem trabalhava. Em depoimento, a doméstica disse que procurou o objeto durante horas, das 16h às 21h, sem encontrá-lo. No dia seguinte, a empresária teria chamado um amigo para pressionar a funcionária.
Em áudios divulgados pela reportagem, Carolina descreveu a chegada do homem à residência. “Ele já veio com uma jumenta de uma arma, chega a brilhar. ‘Samara, faz favor, vem cá! Ontem sumiu meu anel, você sabe que aqui não entrou ninguém de fora, só a gente. A única pessoa estranha é você e meu anel não tem perna e nem asa pra andar voando, então eu quero que você vá pegar meu anel de onde você botou’.”
Samara afirmou que foi ameaçada com uma arma para confessar um furto que nega ter cometido. “Falava que, se o anel não aparecesse, eu ia levar um tiro”, disse a jovem.
Ainda segundo os áudios atribuídos à empresária, a violência teria durado quase uma hora. Carolina relatou: “Aí nada, nada, isso quase uma hora essa menina no massacre. E tapa e murro e pisava nos dedos e tudo que vocês imaginaram de doidice. Era eu e ele fazendo.”
À reportagem, Samara descreveu agressões físicas e ameaças. “Ele pegou no meu cabelo e me derrubou no chão”, afirmou. A jovem também disse que recebeu socos “na região do pescoço e costas” e que foi arrastada pelo cabelo.
O relato mais forte da vítima resume o medo vivido durante o episódio. “Antes de encontrar o anel, eu já tinha aceitado que eu não ia sair dali viva”, afirmou Samara.
O anel foi localizado posteriormente em um cesto de roupas sujas. Mesmo após o objeto aparecer, segundo a jovem, as agressões continuaram. “Ela pegou, colocou no dedo e, depois disso, ela me bateu”, disse.
Carolina também mencionou o momento em áudio. “Ontem (...) eu fui no cesto de roupa suja, eu tirei tudo e nada. Aí na hora que ela abre o cesto de roupa suja, que ela puxa, o anel cai. Ai, gente! Nessa hora... dei tanto nessa mulher! ‘Pensando que é o quê, rapaz? Trabalho minha vida todinha pra conquistar minhas coisas, pra tu vir me roubar?’ Gente, eu dei tanto que minha mão tá inchada. Até hoje o meu dedo já tá roxo.”
Grávida de cinco meses, Samara contou que tentou proteger a barriga enquanto estava no chão. “Abraçando. Porque, como eu estava no chão, eu tinha medo deles inventarem de me chutar.” Questionada se Carolina sabia da gravidez, respondeu: “Sabia. Desde o início.”
Depois das agressões, segundo a investigação, Carolina teria expulsado a empregada da casa. Samara procurou ajuda de uma amiga que mora no mesmo condomínio. Por segurança, a amiga não foi identificada. Ela relatou que a jovem chegou muito abalada. “Ela não conseguia falar, porque estava chorando bastante. A primeira frase que ela disse foi: ‘Me acusaram de roubo’.”
A polícia foi acionada, mas Samara afirmou que não foi levada imediatamente à delegacia. Segundo ela, policiais foram até a casa de Carolina, conversaram rapidamente com a empresária e não a conduziram naquele momento. Imagens cedidas pela Secretaria de Segurança Pública do Maranhão mostram um dos policiais entrando na residência.
Em outro áudio, Carolina afirmou que um dos policiais que atenderam à ocorrência a conhecia. “Veio com um policial que me conhecia. Sorte minha, né? Aí ele disse: ‘Carol, se não fosse eu, tinha que te conduzir pra delegacia, porque ela tá cheia de hematoma’. Aí eu disse: ‘Era pra ter ficado, era mais, não era nem pra ter saído viva’. Aí ele se acabou de rir.”
O exame de lesão corporal confirmou agressões como socos e tapas no rosto, nas costas e no braço esquerdo de Samara. O laudo também apontou manchas pelo corpo e lesão provocada por instrumento contundente.
A polícia identificou o homem apontado como participante das agressões como o policial militar Michael Bruno Lopes Santos. Carolina e Michael foram presos nesta semana. A empresária foi localizada no Piauí, com o marido e o filho, e havia mudado a cor do cabelo.
Matheus Zanatta, superintendente de Operações Integradas da Secretaria de Segurança Pública do Piauí, afirmou que Carolina foi encontrada em um posto de combustíveis. “Nós a encontramos em um posto, saindo de um abastecimento, e tudo indica que ela iria para o litoral piauiense e depois fretaria um voo não comercial para o estado do Amazonas.”
De acordo com a polícia, havia suspeita de que a empresária pudesse fugir com a família para o Paraguai.
A então advogada de Carolina, Nathaly Moraes, afirmou ao Fantástico que a cliente reconheceu o envio dos áudios, mas alegou exagero no conteúdo. “Ela afirma que enviou os áudios, mas que as circunstâncias dos áudios não foram exatamente como de fato aconteceu. Que ela acabou exagerando naquilo que ela falou nos áudios (...) Em nenhum momento ela nega a autoria.”
Questionada se Carolina havia agredido Samara, a advogada respondeu: “A palavra ‘agressão’ a gente poderia utilizar.”
Carolina negou participação no espancamento e afirmou não ter visto se Michael estava armado. O laudo pericial, no entanto, indicou que a voz nas conversas em aplicativo de mensagens é da empresária. Sobre os policiais que atenderam à ocorrência, ela disse não conhecer nenhum deles.
Michael, por sua vez, confirmou que ele, Carolina e Samara procuraram o anel e que, depois que o objeto foi localizado, a patroa espancou a empregada. Ele negou ter participado das agressões e afirmou que saiu do local por não concordar com a situação.
O delegado responsável pelo caso contestou a versão do policial. “Ora, ele é réu confesso, porque a tortura não só se pratica por ação, mas se pratica por omissão. Ele foi omisso. Como policial militar, ele foi omisso.”
Michael também afirmou que não estava armado e que não tem autorização para portar arma de fogo há dois anos. Segundo a Secretaria de Segurança, a restrição ocorreu por problemas psicológicos. A secretária afirmou: “Olha, quando eles são afastados por qualquer problema de saúde psicológica, um dos itens é que ele não use arma.”
A conduta dos policiais que atenderam a ocorrência também será investigada. O delegado disse que pretende ouvir os agentes para esclarecer por que Carolina não foi levada à delegacia no momento em que Samara pediu ajuda. “Vou chamar todos eles que estavam lá, que foram até o local, e quero saber por que eles não conduziram a agressora.”
A Secretaria de Segurança Pública do Maranhão informou que os quatro policiais militares envolvidos no atendimento foram identificados e afastados de suas funções. “Sim, os quatro policiais já foram identificados e já foi aberto o procedimento administrativo contra eles”, declarou a secretária.
Questionada sobre o foco da apuração administrativa, ela respondeu: “A real participação deles e por que foram omissos no atendimento da ocorrência.”
A defesa de Michael informou, em nota, que ele nega ter cometido qualquer tipo de agressão e que se manifestará após ter acesso integral à investigação. Já a defesa de Carolina afirmou que só comentará a acusação de tortura depois da conclusão do inquérito.
O caso também revelou que Carolina já tinha histórico de problemas na Justiça. Segundo a reportagem, ela responde a processos por dívidas não pagas, já foi condenada por calúnia após acusar injustamente uma ex-babá de roubar uma pulseira de ouro e também possui condenação por furto.
A ex-babá relatou: “Falou que ela ia na delegacia, que ela ia falar que eu tinha roubado a pulseira do filho dela. Eu falei: ‘Eu não roubei a pulseira do seu filho, mas, se você quiser ir lá, você pode ir’. (...) E eu fui muito antes do que ela, né. Saí de lá, fui diretamente na delegacia e fiz o BO.”
Samara afirmou que tenta lidar com as marcas físicas e psicológicas deixadas pela violência. “Ficou aquele medo”, disse. Ao ouvir os áudios depois da repercussão do caso, contou que reviveu o trauma. “Veio tudo à tona, sabe? Como um filme. Só que um filme bem doloroso.”
O delegado afirmou que não há prova de que Samara tenha cometido o furto do anel. “Não tem prova nenhuma que Samara cometeu isso.”
Manasses Marthan, advogado de Samara, disse que o caso expõe uma realidade vivida por muitas vítimas que não conseguem denunciar. “Nnós temos a consciência de quantas outras pessoas passam por isso em silêncio ou não são credibilizadas. Então, o que esperamos é justamente a justiça, a realização da justiça.”
Samara também afirmou esperar responsabilização dos envolvidos. “Eu espero justiça. Porque ninguém merece passar pelo que eu passei. E eu acho que, na cabeça deles, ia ficar por isso mesmo.”
Após o episódio, a jovem passou por uma ultrassonografia para verificar o estado de saúde do bebê. Questionada sobre o resultado do exame, respondeu: “Sim, estava tudo bem, graças a Deus. Deu aquela sensação de que vai ficar tudo bem mesmo!”
