Irã acusa EUA de tentar forçar rendição em meio a negociações
Teerã reage a ameaças de Trump enquanto EUA e Irã discutem memorando para encerrar guerra e aliviar tensões no Estreito de Ormuz
247 - O presidente do Parlamento iraniano e principal negociador de Teerã, Mohammad Bagher Ghalibaf, acusou nesta quarta-feira (6) os Estados Unidos de tentarem impor a “rendição” do Irã por meio de pressão militar, econômica e midiática. A declaração ocorre em meio ao avanço das negociações entre Washington e Teerã para um possível acordo que encerraria a guerra no Golfo.
Segundo a Agence France-Presse (AFP), Ghalibaf afirmou que os EUA tentam desestabilizar o país por meio de um bloqueio naval e de sanções econômicas. “O inimigo, em seu novo plano, busca, através de um bloqueio naval, pressão econômica e manipulação midiática, destruir a coesão do país para nos obrigar a nos render”, declarou o dirigente iraniano em mensagem de voz divulgada em seu canal oficial no Telegram.
As declarações foram feitas no momento em que Teerã avalia uma proposta apresentada pelos Estados Unidos para interromper o conflito. De acordo com informações divulgadas pela Reuters, Washington e o governo iraniano estariam próximos de fechar um memorando preliminar de uma página que abriria caminho para negociações mais amplas sobre sanções, segurança marítima e o programa nuclear iraniano.
Negociações avançam com mediação do Paquistão
O governo iraniano confirmou que analisa a nova proposta americana e deve enviar uma resposta em breve por meio do Paquistão, país que sediou as negociações de paz e atua atualmente como principal intermediário entre as partes.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sugeriu avanço nas conversas ao afirmar, em publicação nas redes sociais, que a guerra poderia terminar caso “o Irã concorde em ceder o que foi acordado”. Posteriormente, em entrevista ao New York Post, o republicano afirmou que ainda seria cedo para discutir uma reunião presencial destinada à assinatura de um acordo definitivo.
Fontes ouvidas pela Reuters e pelo portal Axios afirmam que o entendimento preliminar prevê um processo posterior de 30 dias de negociações detalhadas. Entre os temas discutidos estariam a suspensão de sanções econômicas americanas, o desbloqueio do Estreito de Ormuz e possíveis limitações ao programa nuclear iraniano.
Estreito de Ormuz segue no centro da crise
As negociações também envolvem o futuro da navegação no Estreito de Ormuz, rota estratégica para o transporte global de petróleo e gás natural. O bloqueio parcial da região agravou a tensão internacional e afetou o mercado energético nas últimas semanas.
Em nova ameaça ao Irã, Trump declarou que, sem acordo, os bombardeios americanos seriam retomados com intensidade ainda maior. “Se eles não chegarem a um acordo, os bombardeios começarão e, infelizmente, serão em um nível e intensidade muito maiores do que antes”, afirmou o presidente americano.
Poucas horas antes, Trump havia suspendido temporariamente a operação naval denominada “Projeto Liberdade”, criada para escoltar embarcações comerciais e tentar restabelecer o fluxo marítimo na região. A missão, contudo, enfrentou dificuldades operacionais e provocou novos ataques iranianos contra navios comerciais e alvos em países vizinhos, especialmente nos Emirados Árabes Unidos.
Mercado reage com otimismo cauteloso
A possibilidade de um acordo provocou forte reação nos mercados internacionais. O petróleo Brent caiu cerca de 11%, sendo negociado próximo de US$ 98 por barril, refletindo expectativas de redução das tensões no Golfo Pérsico e eventual normalização do fornecimento global de energia.
Apesar do avanço diplomático, ainda persistem obstáculos importantes para um entendimento definitivo. As fontes ouvidas pela Reuters afirmam que o texto preliminar não aborda diretamente exigências históricas dos Estados Unidos, como restrições ao programa de mísseis iraniano e o encerramento do apoio de Teerã a grupos aliados no Oriente Médio.
Outro ponto sensível é o estoque iraniano de urânio enriquecido. Washington já exigiu anteriormente que o Irã entregasse mais de 400 quilos de material enriquecido em níveis próximos aos necessários para armamento nuclear, condição que não aparece explicitamente no memorando em discussão.
Divergências internas aumentam incerteza
Dentro do próprio Irã, o possível acordo também enfrenta resistência. O parlamentar Ebrahim Rezaei, porta-voz da influente comissão de política externa e segurança nacional do Parlamento iraniano, criticou o conteúdo revelado pela imprensa americana.
Em publicação na rede X, Rezaei afirmou que o documento divulgado “é mais uma lista de desejos americana do que uma realidade”. O parlamentar acrescentou que “os americanos não ganharão nada em uma guerra que estão perdendo que não tenham ganho em negociações diretas”.
Já o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, declarou durante visita oficial à China que Teerã aguarda “um acordo justo e abrangente”. Segundo a agência Tasnim, autoridades iranianas ainda mantêm objeções relevantes ao texto apresentado pelos Estados Unidos.


