Ancelotti vê excesso de pressão como principal desafio do Brasil para buscar o hexa
Técnico diz que quer equipe com alergia inspirada no carnaval na Copa do Mundo
247 - O técnico Carlo Ancelotti acredita que o principal obstáculo da seleção brasileira na busca pelo hexacampeonato mundial não é a falta de talento, mas a maneira como os jogadores lidam com a pressão. A menos de um mês do início da Copa do Mundo, o treinador italiano afirmou que o Brasil precisa transformar a cobrança em motivação para encerrar um jejum de 24 anos sem levantar o troféu.
Em entrevista à agência Reuters, concedida na sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), no Rio de Janeiro, Ancelotti disse ter percebido um ambiente de forte tensão entre os atletas, inclusive em partidas amistosas. “O que eu notei este ano, para ser honesto, é que há muita pressão; há muita pressão sobre os jogadores”, afirmou o treinador
Segundo ele, os próprios atletas acabam aumentando ainda mais esse peso emocional. “O que eu acho é que os jogadores também colocam muita pressão sobre si mesmos, às vezes até demais. Então, a pressão e a preocupação superam a alegria, a energia que os brasileiros têm, a criatividade que os brasileiros têm”.
As recentes eliminações do Brasil em Copas do Mundo foram alvo de críticas por questões táticas e emocionais. Para Ancelotti, os sinais dessa dificuldade ficaram evidentes até em jogos sem grande relevância competitiva. “Vi isso em alguns amistosos... um erro de um companheiro de equipe em um jogo amistoso parece uma tragédia”, argumentou.
O treinador defende a criação de uma rotina capaz de reduzir o impacto psicológico sobre o elenco e fortalecer o espírito coletivo.
“Precisamos estabelecer uma rotina para evitar tudo isso, porque a pressão é obviamente um fator muito importante. Gerenciar bem a pressão significa ter mais motivação e mais camaradagem, porque você pode compartilhar a pressão. Assim, ela pesa menos sobre você”, disse.
Criatividade brasileira e organização tática
Ancelotti ressaltou que não pretende abrir mão das características históricas do futebol brasileiro. Para ele, criatividade, alegria e energia seguem sendo marcas essenciais da seleção, mas precisam estar acompanhadas de organização e intensidade.
“O que os jogadores brasileiros e o futebol brasileiro não podem perder é sua maior qualidade: criatividade, alegria e energia”, opinou.
O técnico afirmou que o Brasil ainda continua sendo uma referência mundial na formação de talentos e rejeitou a ideia de que o país tenha perdido sua identidade futebolística. “O Brasil tem algo especial, e sempre terá”.
“O Brasil tem, e sempre teve, a capacidade de produzir grandes talentos. Mesmo agora, este país produz mais talentos do que outros países”
Ao mesmo tempo, o italiano reconheceu que outras seleções avançaram mais rapidamente na adaptação ao futebol moderno, marcado por maior intensidade física e trabalho coletivo. “O Brasil tem as mesmas qualidades de sempre, mas é preciso apoiar essa criatividade com organização, comprometimento e atitude”.
Para Ancelotti, o talento individual continua sendo decisivo, mas sozinho não garante títulos.
“O talento é importante, mas para vencer o talento, você precisa de organização. E sim, nós vamos fazer isso acontecer, porque você pode ensinar organização, mas não pode ensinar talento”.
Carnaval inspira modelo de seleção
Ancelotti revelou que encontrou inspiração para o modelo de equipe que deseja construir durante sua primeira experiência no Carnaval do Rio de Janeiro.
“Foi meu primeiro Carnaval aqui este ano”.
O treinador destacou a combinação entre alegria popular e disciplina organizacional observada nos desfiles.
“Percebi muita alegria, muita energia, porque as pessoas dançavam até o Sol raiar, mas também um grande comprometimento de todos em uma festa popular da qual todos se sentem parte”.
“Se você for assistir ao desfile aqui no Rio, tudo é perfeitamente organizado -- o tempo, a música, tudo é perfeito. Essas são características do povo brasileiro que eu vi no Carnaval e que quero levar para a seleção: alegria, energia, organização, comprometimento, atitude”.
“Jogo bonito” e favoritismo
Ao falar sobre o tradicional “jogo bonito”, Ancelotti apresentou uma visão mais ampla do conceito, associando espetáculo não apenas à habilidade individual, mas também ao esforço coletivo.
“Pode ser uma habilidade, mas também pode ser um trabalho em equipe, um compromisso coletivo, uma atitude espetacular da equipe quando está com a posse de bola e todos trabalhando duro”
Mesmo sem o Brasil aparecer como principal favorito ao título, o treinador disse enxergar esse cenário de forma positiva.“Eu gosto disso. Acho que esta é uma Copa do Mundo em que não há um favorito claro, porque todas as equipes têm seus problemas”
Para o italiano, o equilíbrio entre as seleções fará da resiliência um fator determinante na competição.“Não existe uma equipe perfeita. Acredito que a equipe mais resiliente vencerá a Copa do Mundo”, afirmou.
Ancelotti também foi direto ao comentar o caminho para a seleção recuperar protagonismo no cenário internacional. “Só há uma maneira de recuperar a hierarquia no futebol, que é ganhar a Copa do Mundo”, concluiu.



