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João Vicente Goulart defende resgate das reformas de base e diz que legado de Jango ainda não foi reconhecido pelo Brasil

Filho de João Goulart cobra reforma política, reforma bancária, reforma agrária e soberania nacional como eixo de um novo projeto de desenvolvimento

João Vicente Goulart (Foto: Reprodução Youtube)

247 – O resgate do legado do presidente João Goulart, a defesa das reformas de base e a crítica ao sistema político e econômico brasileiro marcaram a entrevista de João Vicente Goulart ao programa Conversas com Hildegard Angel, na TV 247. Filho do ex-presidente deposto pelo golpe de 1964, ele afirmou que a agenda interrompida pela ruptura democrática segue atual e necessária para o Brasil.

Ao longo da conversa, concedida a Hildegard Angel, João Vicente Goulart sustentou que o país precisa retomar um projeto nacional de desenvolvimento, com centralidade na soberania política, energética, digital e econômica. Também defendeu a reeleição do presidente Lula, criticou o peso do sistema financeiro sobre o Estado brasileiro, apontou distorções do Congresso Nacional e afirmou que Jango ainda não foi plenamente resgatado pela história nacional.

“Jango ainda não foi resgatado”

João Vicente Goulart rejeitou frontalmente a ideia, repetida por setores da grande imprensa ao longo das décadas, de que João Goulart teria sido um líder ingênuo. Para ele, essa leitura serve para diminuir a estatura política do ex-presidente.

“Isso é uma forma também de diminuir a importância do Jango”, disse. Em seguida, reforçou: “Ele foi um político extremamente competente”.

Na entrevista, ele recordou a trajetória de Jango desde os primeiros cargos eletivos até a Presidência da República, destacando sua passagem pelo Ministério do Trabalho, a liderança no PTB e a capacidade de articulação política. João Vicente Goulart observou que o pai foi duas vezes eleito vice-presidente e chegou a obter mais votos do que os presidentes eleitos nas chapas das quais participou.

Na sua avaliação, a própria formação política de Jango desmonta a tese da ingenuidade. “Quem faz mais voto que o Juscelino como vice tem alguma ingenuidade?”, questionou. Para ele, tratava-se de um dirigente com visão estratégica, cercado de quadros de alta qualidade e comprometido com um programa nacional de desenvolvimento.

Reformas de base seguem atuais

Um dos pontos centrais da entrevista foi a atualização das chamadas reformas de base, bandeira histórica do governo João Goulart. João Vicente Goulart afirmou que, passadas mais de seis décadas do golpe de 1964, o país continua diante de problemas estruturais semelhantes.

A seu ver, a prioridade hoje é a reforma política. “A reforma política, eu acho que é nesse momento, é a principal reforma”, declarou. Segundo ele, o sistema atual distorce a representação popular, fortalece bancadas corporativas e dificulta a construção de programas consistentes de governo.

Defensor do voto em lista partidária, João Vicente Goulart argumentou que o Brasil precisa fortalecer partidos com identidade programática, em vez de estimular votações personalistas e fragmentadas. Para ele, esse modelo ajudaria a dar mais coerência ao sistema político e permitiria ao eleitor escolher projetos de país, e não apenas nomes isolados.

Além da reforma política, ele citou a necessidade de retomar a reforma agrária, a reforma bancária, a reforma urbana e a reforma educacional. Ao resumir esse horizonte, mencionou inclusive a necessidade de “ressuscitar o Paulo Freire”, numa referência à urgência de um modelo educacional voltado à formação crítica e cidadã.

Sobre a reforma agrária, João Vicente Goulart afirmou que ela não deve ser vista apenas como política social, mas também como motor de desenvolvimento econômico. Segundo ele, a distribuição de terras impulsionaria a indústria nacional, gerando demanda por máquinas, equipamentos, infraestrutura e tecnologia.

Já no sistema bancário, criticou o peso dos juros e a concentração financeira. Em sua análise, a lógica atual favorece o rentismo, sufoca pequenos empreendedores e impede um ciclo sustentável de crescimento. “O sistema financeiro no Brasil hoje”, disse ele, é um dos principais obstáculos para que o país recupere autonomia na formulação de um projeto nacional.

Críticas ao Congresso e ao rentismo

Outro eixo forte da entrevista foi a crítica ao Congresso Nacional. João Vicente Goulart afirmou que boa parte do Parlamento atua em causa própria e não demonstra compromisso real com os problemas sociais do país, como fome, miséria e desigualdade.

Ele condenou especialmente a captura de parcelas crescentes do orçamento por emendas parlamentares, associando esse mecanismo a práticas clientelistas e ao bloqueio de políticas públicas estruturantes. Na sua leitura, esse modelo esvazia a capacidade de planejamento do Estado e compromete áreas essenciais como saúde, educação e infraestrutura.

João Vicente Goulart também criticou duramente a tentativa de setores políticos de atacar ministros do Supremo Tribunal Federal enquanto deixam de enfrentar o crime organizado e a corrupção real. Ao comentar propostas recentes de investigação, classificou como escandalosa a inversão de prioridades no debate público.

Ao mesmo tempo, associou esse cenário à deterioração da vida política brasileira e à permanência de um discurso anticomunista que, segundo ele, continua sendo mobilizado como instrumento de manipulação. “Nós vemos ainda depois de mais de 60 anos do golpe de 64, o mesmo discurso que provocou o golpe”, afirmou.

Lula, limites do governo e necessidade de aprofundar mudanças

João Vicente Goulart declarou apoio à reeleição do presidente Lula e disse que esse é um passo essencial para impedir o avanço da extrema direita no Brasil. “Nós temos que eleger o Lula por uma questão fundamental que é impedir o crescimento do fascismo no Brasil”, afirmou.

Apesar disso, defendeu que os setores progressistas também precisam cobrar mais ousadia do governo na reversão de políticas neoliberais e privatizações. Citou como exemplo a Eletrobras, a BR Distribuidora e a Vale, apontando que ativos estratégicos foram entregues ao setor privado em prejuízo da soberania nacional.

No caso da energia, argumentou que a privatização da Eletrobras enfraqueceu a capacidade do Estado de liderar a reindustrialização. Para ele, empresas públicas como essa não devem ser avaliadas apenas pelo lucro imediato, mas por sua função estratégica no desenvolvimento do país. “As empresas públicas como a Eletrobras, elas são criadas pelo investimento público, exatamente para proteger o desenvolvimento nacional”, disse.

João Vicente Goulart também sustentou que o governo deveria enfrentar com mais firmeza o sistema financeiro, inclusive por meio da renegociação da dívida pública. Sem defender moratória, falou em refinanciamento e reorganização das prioridades econômicas para abrir espaço à reindustrialização, à expansão do investimento e à retomada da capacidade estatal de indução do crescimento.

Na sua avaliação, Lula carrega a marca de um grande negociador, característica construída desde o sindicalismo, mas a esquerda brasileira também precisa superar a burocratização do discurso e voltar a apresentar um projeto de país com horizonte estratégico de longo prazo.

Soberania energética, digital e tecnológica

Ao tratar das transformações contemporâneas, João Vicente Goulart ampliou o conceito de soberania para além das fronteiras territoriais. Segundo ele, o Brasil precisa defender soberania política, energética, digital, científica e tecnológica.

Nessa linha, elogiou a atuação da ministra Luciana Santos no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e afirmou que o país precisa construir infraestrutura própria para armazenar dados e desenvolver ferramentas nacionais. Criticou a dependência de plataformas estrangeiras e questionou o uso de nuvens localizadas em outros países para guardar informações estratégicas do Estado brasileiro.

“Quando a gente fala em soberania, é soberania política, soberania digital, soberania territorial”, declarou. Para ele, o debate sobre tecnologia precisa ser incorporado ao projeto nacional de desenvolvimento, inclusive como resposta ao poder das big techs e ao avanço das deepfakes nas disputas políticas.

João Vicente Goulart também mencionou a China como exemplo de planejamento de longo prazo. Recordando uma visita feita ainda no início dos anos 1980, destacou o papel do planejamento estatal na transformação econômica chinesa e lamentou que o Brasil tenha abandonado uma visão estratégica de desenvolvimento nacional.

Memória, ditadura e disputa histórica

A entrevista também foi marcada por recordações pessoais e políticas sobre o exílio, a ditadura militar e a morte de João Goulart. João Vicente Goulart relembrou a convivência com o pai, o contato com Leonel Brizola e episódios ligados à repressão no Cone Sul.

Disse que a ditadura brasileira jamais deixou de temer Jango, mesmo após sua saída do poder e até depois de sua morte. Citou documentos que indicariam a possibilidade de prisão do ex-presidente caso ele retornasse ao Brasil, mesmo após o fim formal da cassação de seus direitos políticos.

Numa das falas mais fortes da conversa, reafirmou seu orgulho pela trajetória do pai e contrapôs essa memória à dos agentes da ditadura. “Eu tenho muito orgulho de ser filho de Jango. Não teria orgulho de ser filho de algum ditador que matou, torturou e submeteu o povo brasileiro a 21 anos de ditadura, silêncio e opressão”, declarou.

Ao comentar o papel da imprensa nesse processo, reconheceu a resistência de setores da mídia tradicional em rever a história de João Goulart, embora tenha avaliado que esse resgate tende a avançar com o tempo e com o aprofundamento da consciência democrática no país.

Memorial de Jango deve sair em Maricá

No trecho final da entrevista, João Vicente Goulart revelou que o memorial dedicado ao ex-presidente deve finalmente sair do papel em Maricá, no estado do Rio de Janeiro. O projeto, segundo ele, nasceu originalmente para Brasília e chegou a contar com desenho de Oscar Niemeyer, descrito como a última obra do arquiteto para compor o Eixo Monumental da capital federal.

De acordo com João Vicente Goulart, o terreno chegou a ser autorizado no Distrito Federal, mas a iniciativa foi posteriormente barrada pelo então governador Rodrigo Rollemberg. O filho de Jango afirmou que a decisão representou uma nova interdição simbólica à memória do ex-presidente.

Agora, a expectativa está voltada para Maricá, cidade governada por forças progressistas e que, segundo ele, reúne condições políticas e simbólicas para acolher o memorial. “Nós vamos resgatar Jango via Maricá e resgatar via Maricá as reformas de base que esse governo precisa retomar”, afirmou.

A escolha tem ainda um componente afetivo: segundo João Vicente Goulart, o terreno está ligado a uma área frequentada por seu pai quando ele pescava na região. Para ele, o destino acabou conduzindo o projeto a um lugar coerente com a memória pessoal e política de João Goulart.

Legado em disputa

Ao fim da entrevista, João Vicente Goulart apresentou sua trajetória como parte de um compromisso histórico com a memória do pai e com a luta democrática no Brasil. Sem separar a experiência pessoal da dimensão política, afirmou que esse resgate é também um dever diante das gerações que sofreram com a ditadura.

Mais do que uma evocação nostálgica, a conversa com Hildegard Angel mostrou que, para ele, o legado de Jango permanece vivo justamente porque os impasses enfrentados por seu governo continuam presentes no Brasil de hoje: concentração de renda, domínio do sistema financeiro, fragilidade da soberania nacional, distorções da representação política e resistência a reformas estruturais.

Nesse sentido, a figura de João Goulart reaparece não apenas como personagem histórico, mas como referência de um projeto interrompido. E João Vicente Goulart, ao defender a retomada desse programa, recoloca no centro do debate a pergunta sobre que país o Brasil deseja construir.

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