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Galípolo diz que Brasil está em posição melhor diante da crise petróleo, mas é preciso cautela

Para o presidente do Banco Central, alta do petróleo e guerra elevam incerteza, pressionam inflação e exigem análise cuidadosa dos próximos passos da Selic

Galípolo diz que Brasil está em posição melhor diante da crise petróleo, mas é preciso cautela (Foto: Lula Marques/Agência Brasil)

247 - O presidente do Banco Central do Brasil, Gabriel Galípolo, afirmou que a postura conservadora adotada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) na condução da taxa básica de juros, a Selic, colocou o país em uma posição mais confortável para enfrentar os impactos econômicos da guerra no Oriente Médio. A avaliação ocorre em meio à escalada das tensões geopolíticas e seus reflexos sobre o mercado global de energia.

Segundo Galípolo, o fato de o Brasil ser exportador líquido de petróleo também contribui para ampliar a margem de análise do BC diante dos efeitos do conflito sobre a economia doméstica. Ainda assim, ele alertou para o risco de pressões inflacionárias mais persistentes.

"No caso do Brasil, o que aconteceu ao longo de 2025, o conservadorismo que a gente adotou reservou uma posição melhor do que se a gente não tivesse sido conservador. Nos permite ter uma gordura para analisar o desdobramento sobre a economia", disse.

O presidente do BC ponderou que o mercado já começa a antecipar efeitos mais duradouros da guerra, especialmente em função das restrições de oferta de petróleo e de outros insumos afetados pelos ataques. Nesse cenário, destacou a importância de acompanhar os chamados efeitos de segunda ordem, quando o aumento dos custos de energia se espalha para outros preços.

"A posição que o BC do Brasil está hoje tem alguns benefícios por ser exportador líquido de petróleo e por conservadorismo dos juros. Por outro lado, é muito importante prestar efeitos de segunda ordem, em especial em economia que tem mostrado tanta resiliência", completou.

Sequência de choques pressiona inflação

Galípolo ressaltou que a repetição de choques globais nos últimos anos tem dificultado a avaliação de que esses eventos sejam apenas temporários. Desde 2020, a economia mundial enfrenta sucessivas crises, como a pandemia de covid-19, a guerra entre Rússia e Ucrânia, medidas comerciais adotadas pelos Estados Unidos e, mais recentemente, o conflito no Oriente Médio.

"É algo também que põe os banqueiros centrais em uma situação complexa. Você vai falar: é mais um choque temporário. É o quarto choque temporário em 10 anos? Isso vai dando rodadas de piora no nível de preço que tendem a causar sim uma sensação de desconforto à população."

Para o presidente do BC, esse ambiente de incerteza reduz a confiança nas projeções de inflação de longo prazo. Atualmente, a autoridade monetária trabalha com o horizonte do terceiro trimestre de 2027 para convergência da inflação à meta de 3%. A estimativa mais recente está em 3,3%, levemente acima da projeção anterior.

"A confiança que a gente tem em 10 pontos base em uma projeção se reduz. Muitas vezes, a composição passa a ser mais relevante do que número cheio, tem que fazer análises mais qualitativas do que está acontecendo para ter uma inflação mais alta", avaliou.

Selic e atividade econômica

O Banco Central iniciou neste mês um ciclo de redução da Selic, com corte de 0,25 ponto percentual, passando de 15% para 14,75%. No entanto, Galípolo indicou que os próximos passos permanecem em aberto diante da elevada incerteza no cenário internacional.

Ao comentar os efeitos sobre a atividade econômica, ele explicou que, embora o Brasil costume se beneficiar de preços mais altos do petróleo por ser exportador, o atual contexto é distinto. Isso porque a alta decorre de um choque de oferta, e não de demanda, o que tende a produzir efeitos negativos sobre o crescimento.

"Todos os banqueiros centrais entendem que em uma situação como essa de choque de oferta tende-se a ter mais inflação e menos crescimento. E talvez, quanto mais aguda for a crise, maior impacto nessa segunda parte", afirmou. "Temos uma tendência no Brasil em estabelecer uma correlação positiva entre preços de petróleo e crescimento, mas isso geralmente decorre de uma pressão de demanda nos preços de petróleo, não é a natureza desse choque agora."