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Oscars colocam Brasil em evidência como potência emergente do entretenimento global

Indústria audiovisual cresce com investimento público, streaming e maior presença de profissionais brasileiros em Hollywood

Cena do filme "O Agente Secreto" (Foto: Divulgação/Vitrine Filmes)

247 - O Brasil chega à cerimônia do Oscar deste domingo (15) com expectativa elevada e um sentimento crescente de protagonismo na indústria cinematográfica global. O filme “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho, conquistou quatro indicações ao prêmio da Academia, incluindo uma nomeação histórica para Wagner Moura na categoria de melhor ator.

Segundo reportagem da Reuters, o momento representa mais do que uma possível vitória artística: ele simboliza a consolidação do Brasil como um novo polo de produção audiovisual no cenário internacional, resultado de décadas de investimento público, crescimento das parcerias internacionais e da expansão das plataformas de streaming.

A atual temporada de premiações marca o segundo ano consecutivo em que produções brasileiras disputam destaque no Oscar. Em 2025, o país conquistou sua primeira estatueta na categoria de melhor filme internacional com “Ainda Estou Aqui”, ampliando o reconhecimento internacional do cinema nacional e despertando orgulho entre os mais de 200 milhões de brasileiros.

Além da indicação de Wagner Moura, outro brasileiro também concorre ao Oscar neste ano. O diretor de fotografia Adolpho Veloso foi indicado pelo trabalho em “Train Dreams”, reforçando a presença crescente de profissionais brasileiros em produções de alcance global.

Especialistas ouvidos pela Reuters apontam que esse avanço é resultado de um processo que começou há cerca de duas décadas. Políticas públicas voltadas ao setor audiovisual ajudaram a impulsionar a produção de filmes e a ampliar a presença do país no mercado internacional.Somente em 2025, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) destinou um recorde de US$ 267 milhões em financiamento para produções nacionais. Esse investimento ajudou a expandir o número de longas-metragens produzidos no país e estimulou coproduções internacionais.

Ao mesmo tempo, o crescimento do streaming transformou o Brasil em um mercado estratégico para grandes empresas globais de entretenimento.

Dados citados na reportagem mostram que as exportações de serviços audiovisuais brasileiros cresceram 19% ao ano entre 2017 e 2023, atingindo US$ 507 milhões. O número reforça a expectativa de que o país possa seguir um caminho semelhante ao da Coreia do Sul, cuja indústria cultural movimenta bilhões de dólares por ano graças à forte presença global.

Para Josephine Bourgois, diretora executiva da organização Projeto Paradiso, o momento atual do cinema brasileiro representa uma convergência rara de fatores positivos.“Além do seu apelo popular, o país também está mostrando que é um parceiro viável. O Brasil é um lugar onde você pode trabalhar, um lugar onde é possível fazer negócios”, afirmou.

Da curiosidade cultural ao mercado global
A relação do cinema brasileiro com o Oscar não é recente. Já em 1960, o filme “Orfeu Negro”, ambientado no Rio de Janeiro, conquistou a estatueta de melhor filme estrangeiro — embora tenha sido produzido pela França.Décadas depois, o país voltou a chamar atenção da Academia com “Central do Brasil”, dirigido por Walter Salles. O filme recebeu indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro, enquanto Fernanda Montenegro tornou-se a primeira brasileira indicada ao prêmio de melhor atriz.

Em 2025, Salles voltaria ao Oscar com “Ainda Estou Aqui”, finalmente conquistando o prêmio de melhor filme internacional. Na mesma edição, Fernanda Torres, filha de Montenegro, também recebeu indicação ao prêmio de melhor atriz.Nos bastidores da indústria, o reconhecimento internacional costuma gerar novas oportunidades de negócios.

Após o sucesso de “Cidade de Deus”, indicado a quatro Oscars em 2004, o diretor Fernando Meirelles ampliou as atividades de sua produtora O2, atraindo projetos internacionais como o filme “Ensaio sobre a Cegueira” (2008), estrelado por Julianne Moore e Mark Ruffalo.Segundo a produtora Andrea Barata Ribeiro, sócia fundadora da O2, as premiações internacionais ajudam a abrir portas para o cinema brasileiro.“Isso desperta interesse, gera conversas”, afirmou.

Incentivos públicos impulsionam carreiras
Diretores brasileiros também destacam o papel fundamental das políticas de incentivo à cultura no desenvolvimento da indústria.O diretor Kleber Mendonça Filho, responsável por “O Agente Secreto”, afirmou que boa parte de sua trajetória foi viabilizada por programas de financiamento público.“Hoje meu nome é bem estabelecido, mas as pessoas esquecem que comecei com um filme que veio de um programa de financiamento com ação afirmativa”, disse o cineasta.

Seu primeiro longa, “O Som ao Redor”, recebeu apoio de programas voltados a produções fora do eixo mais rico do país, concentrado na região Sudeste.Segundo Mendonça Filho, parte do roteiro inicial de “O Agente Secreto” também contou com financiamento público — um programa que acabou sendo interrompido durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Streaming acelera expansão do setor
Se os incentivos públicos ajudaram a estruturar o setor, a explosão das plataformas de streaming deu nova dimensão ao alcance do audiovisual brasileiro.

Executivos do mercado afirmam que empresas como Netflix, Amazon e Warner Bros. Discovery passaram a investir mais em produções locais, tanto para conquistar o público brasileiro quanto para explorar histórias com potencial global.Monica Pimentel, vice-presidente de conteúdo da Warner Bros. Discovery Brasil, lembra que o cenário era muito diferente há cerca de 15 anos.“Hoje eu vejo como essas produtoras estão extremamente qualificadas”, afirmou.A Netflix informou que as visualizações globais de conteúdos brasileiros cresceram 60% no segundo semestre de 2025.

Entre os destaques estão a série “Rulers of Fortune”, sobre a máfia do jogo ilegal no Rio de Janeiro, e o filme “Caramelo”, que conta a história da amizade entre um chef de cozinha e um cachorro vira-lata. A produção permaneceu por oito semanas entre os dez filmes mais assistidos da plataforma, acumulando quase 50 milhões de visualizações.Para Elisabetta Zenatti, vice-presidente de conteúdo da Netflix Brasil, o país se tornou estratégico para a empresa.“O Brasil está entre os principais mercados da Netflix. Há várias razões para isso — por exemplo, nosso público é conhecido por ser extremamente engajado, impulsionar fandoms e moldar conversas”, afirmou.

Desafios políticos e expectativas para o futuro
Apesar do momento de crescimento, profissionais da indústria demonstram preocupação com o futuro do financiamento público ao setor.Com mudanças nas prioridades orçamentárias e a proximidade de eleições que podem trazer de volta grupos políticos críticos ao investimento em cultura, parte do setor teme retrocessos.

Ao mesmo tempo, produtores e artistas pressionam o Congresso para aprovar uma legislação que regulamente as plataformas de streaming, exigindo que parte do catálogo seja composta por produções nacionais e destinando recursos do setor para financiar a indústria local.Para muitos artistas, a visibilidade internacional também representa uma oportunidade de refletir sobre a própria história do país.

Os dois filmes brasileiros mais recentes indicados ao Oscar abordam temas relacionados à memória da ditadura militar brasileira.

Para o ator Wagner Moura, o momento atual pode abrir caminho para que o Brasil exporte suas próprias narrativas culturais para o mundo.“Isso é algo que os americanos fazem muito bem: criar e exportar sua cultura”, afirmou o ator.Ele acrescentou que ver o Brasil assumir esse papel também tem um significado profundo para os próprios brasileiros.“Pensar que os brasileiros também podem fazer isso é bonito, não apenas para os estrangeiros, mas para nós mesmos.”