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Tiago Barbosa alerta que manipulação da imprensa pode ser pior do que fake news

Jornalista denuncia tratamento desigual da mídia diante de denúncias envolvendo o bolsonarismo

Tiago Barbosa (Foto: Foto montagem IA)
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247 – O jornalista e colunista do Brasil 247 Tiago Barbosa afirmou que a manipulação de informações pela imprensa corporativa pode produzir efeitos mais graves do que uma fake news tradicional, por consolidar preconceitos, reforçar estigmas e dificultar a contestação pública. A análise foi feita durante entrevista à jornalista Laís Gouveia, no programa Fura-Bolha, da TV 247, transmitido no YouTube.

Ao comentar a cobertura da mídia sobre política, apostas online e denúncias envolvendo figuras do bolsonarismo, Barbosa sustentou que leituras enviesadas, insinuações e interpretações sem base concreta podem criar percepções duradouras na sociedade. “Uma leitura equivocada da mídia corporativa é muito pior do que uma fake news. Porque a fake news você consegue definir os contornos objetivos dela e contrapor. Uma interpretação é difícil de contrapor. Uma insinuação, ela é difícil de contrapor”, afirmou.

Apostas online e o avanço das bets no futebol

A entrevista começou com uma crítica à presença ostensiva das empresas de apostas no esporte, especialmente no futebol. Para Tiago Barbosa, a naturalização das bets em transmissões esportivas, campeonatos, clubes e peças publicitárias representa um grave problema social, econômico e de saúde pública.

O jornalista afirmou estar perplexo com a forma como o esporte, que deveria estimular saúde, disciplina, convivência e superação, passou a ser ocupado por empresas que lucram com o vício. “Eu fico pensando em que momento a gente aceitou com naturalidade [...] que empresas de apostas, que estimulam o vício, que sequestram o orçamento de famílias, que sequestram a saúde mental, que afetam o trabalho, que afetam a vida privada, de repente a gente vê com um certo ar de naturalidade esse estímulo, inclusive no esporte”, disse.

Segundo Barbosa, a mídia não apenas aceitou essa presença, mas passou a depender financeiramente dela. Ele criticou apresentadores, campeonatos e veículos que incorporaram as bets como patrocinadoras centrais, mesmo sabendo que a mensagem chega a milhões de pessoas, inclusive jovens e famílias vulneráveis.

“A gente está numa distopia da naturalização do vício que prejudica as pessoas, as famílias, a economia, e a gente está considerando tudo normal. Então, não é normal. A gente não devia tomar isso como normal. A gente não devia aceitar uma cobertura midiática que transforma isso em normal”, afirmou.

Neymar, idolatria e responsabilidade social

No debate, Laís Gouveia exibiu a imagem de Neymar, lembrando que o jogador, mesmo com enorme patrimônio, ainda faz propaganda de apostas. Barbosa classificou a situação como lamentável, especialmente porque atletas de grande projeção exercem influência sobre crianças, adolescentes e jovens em formação.

Para ele, a contradição é evidente: um esportista que deveria representar disciplina, saúde e competição saudável acaba promovendo uma prática associada ao vício e ao endividamento. “É lamentável ver um atleta de ponta, um ídolo, alguém que é exemplo para milhões de pessoas, para crianças, para adolescentes, pessoas que estão em construção da personalidade, que estão definindo seu referencial de vida, fazer propaganda das bets”, afirmou.

Barbosa também associou a imagem pública de Neymar a escolhas políticas e sociais que, em sua avaliação, afastam o jogador de um papel positivo para a sociedade. Ele disse que o atleta poderia ser lembrado apenas por sua genialidade em campo, mas acabou se envolvendo com referências negativas.

“Para mim, é o símbolo do que ele significa ou do que ele é para o futebol: um referencial negativo de um atleta que tinha tudo para se tornar lembrado ou referenciado apenas pela genialidade dentro de campo e que, de repente, se mistura com a extrema direita”, declarou.

Bets como problema de saúde pública

Laís Gouveia relatou casos de famílias destruídas por apostas online e comparou a necessidade de conscientização atual com as campanhas contra o cigarro nos anos 1990, quando imagens fortes passaram a ser usadas para alertar sobre os danos do tabagismo. Barbosa concordou e disse que falta pulso à mídia brasileira para tratar as bets como um veneno social.

“Falta a mídia brasileira conscientizar de fato a população de que as bets são um veneno para a sociedade. Falta porque essa mídia tem colocado a vida econômica dela, a vida financeira dela, acima dos interesses da sociedade”, observou Tiago. 

O jornalista disse que veículos de comunicação enfrentam um dilema ético, moral e sanitário, mas, em vez de escolherem a proteção da sociedade, acabam priorizando a receita publicitária. Para Barbosa, trata-se de uma expressão clássica da lógica capitalista, em que o dinheiro se sobrepõe à vida e ao bem-estar social.

“A mídia deveria informar a população de que a gente está diante de um problema de saúde pública, mostrar as consequências, orientar para não jogar, cobrar dos conselhos ou das entidades que fiscalizam a publicidade”, defendeu.

O vício como modelo de negócios

Barbosa ampliou a análise e relacionou o avanço das bets à economia da atenção, na qual redes sociais, plataformas digitais e empresas disputam não apenas o tempo das pessoas, mas sua dependência psicológica. Para ele, a sociedade contemporânea está cada vez mais assediada por mecanismos de vício.

“As redes sociais, por exemplo, atuam para viciar as pessoas. Elas não estão simplesmente disputando atenção, elas querem o vício”, afirmou. Segundo ele, os algoritmos trabalham para mapear interesses, estimular comportamentos e prender usuários pelo máximo de tempo possível dentro das plataformas.

Na avaliação do jornalista, a imprensa deveria ajudar a população a compreender esses mecanismos, traduzindo o tema de forma acessível e crítica. Em vez disso, segundo ele, a mídia permite a entrada gradual desses atores econômicos no cotidiano da sociedade, oferecendo pouca resistência e muito espaço publicitário.

“A mídia vai levando e vai colocando sutilmente e vai permitindo a inserção desses atores de estímulo ao vício dentro da sociedade. E ela contrapõe muito pouco. Primeiro porque ela se beneficia. Segundo, porque ela prefere dar preferência ao capital em detrimento da vida”, disse.

Lula, pesquisas e disputa política

A conversa também abordou a conjuntura política. Laís Gouveia mencionou uma pesquisa segundo a qual o presidente Lula estaria 12 pontos à frente de Flávio Bolsonaro e, pela primeira vez em quatro anos, sua popularidade superaria a rejeição. Barbosa atribuiu a melhora na percepção sobre o governo a uma combinação de fatores sociais, econômicos e políticos.

Ele citou políticas voltadas a trabalhadores de menor renda, como a proposta de isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil e o debate sobre o fim da escala 6 por 1. Para Barbosa, medidas desse tipo começam a produzir impacto concreto na vida da população.

“Você tem um aumento da renda, o aumento do poder aquisitivo, logo isso se reverte em consumo, se reverte em melhoria pontual de vida. Então são coisas que acho que influenciam”, afirmou.

O jornalista também disse que denúncias envolvendo o Banco Master e personagens ligados ao bolsonarismo vêm chegando à sociedade, apesar do que classificou como barreira da mídia corporativa. Segundo ele, reportagens mais consistentes têm mostrado uma relação visceral entre o Master e a extrema direita.

Banco Master, bolsonarismo e cobertura seletiva

Na entrevista, Barbosa criticou a forma como a imprensa tradicional trata denúncias envolvendo figuras ligadas ao bolsonarismo. Para ele, a mídia adota cautela excessiva quando os suspeitos pertencem à direita, mas recorre com facilidade a ilações quando o alvo é o governo Lula ou a esquerda.

“A ilação em relação ao governo sai muito facilmente, sem amparo de nenhum indício significativo, sem nenhum respaldo de dados, de mensagens, de ligação, de reuniões, de movimentação financeira. Em compensação, para fazer o caminho inverso, para associar a oposição, a extrema direita, ao bolsonarismo, há uma série de cuidados que desafiam até mesmo a compreensão do que é razoável”, afirmou.

Barbosa também criticou a ausência de maior destaque, em programas de grande audiência, para denúncias envolvendo a relação entre figuras bolsonaristas e o banqueiro Daniel Vorcaro. Na avaliação dele, omitir ou minimizar suspeitas graves também desequilibra a disputa política.

“A omissão diante de um crime suspeito desequilibra a disputa de outra forma. E isso, para mim, é uma escolha ideológica”, disse.

Manipulação da informação e fake news

O ponto central da entrevista foi a crítica à manipulação jornalística. Barbosa afirmou que a fake news explícita, por mais absurda, pode ser identificada e contestada com mais facilidade. Já a interpretação enviesada, a insinuação e a construção editorial de suspeitas seriam mais difíceis de combater.

“Essa construção midiática que manipula a realidade para obter interpretações falsas sobre a esquerda, ou sobre o governo, ou sobre uma realidade que está colocada, é pior do que uma fake news. Porque ela é difícil de ser rebatida”, afirmou.

Ele citou como exemplo narrativas segundo as quais o governo não teria interesse em determinadas investigações por medo de ser atingido. Para Barbosa, esse tipo de afirmação parte de uma premissa sem comprovação e, ao mesmo tempo, consolida suspeitas no imaginário popular.

“Primeiro que ela parte de uma percepção equivocada. O governo não quer. Quem disse isso? Quem disse que não quer? De onde? Quais são as fontes? E segundo porque ela já faz uma afirmação, ela já consolida a suspeita”, declarou.

O papel do jornalismo independente

Na parte final da entrevista, Barbosa defendeu a necessidade de denunciar o comportamento da mídia corporativa e expor suas escolhas editoriais. Para ele, não se trata de esperar adesão ideológica dos grandes veículos, mas de cobrar responsabilidade pública, compromisso com a verdade e consciência sobre os impactos sociais da informação.

“A gente não tem que esperar alguma coisa da mídia, mas a gente tem que expor, a gente tem que denunciar, a gente tem que mostrar o que a mídia faz”, disse.

O jornalista afirmou que a crítica pública pode gerar constrangimento, vigilância social e pressão sobre profissionais e empresas de comunicação. Segundo ele, esse processo é importante para que a sociedade desenvolva consciência crítica sobre a imprensa e sobre as manipulações que moldam a percepção pública.

“A gente quer que a mídia faça o papel dela, que a mídia seja responsável, que a mídia entenda o contexto social, o contexto onde ela está, o contexto geopolítico em que ela está”, afirmou.

Para Barbosa, o Brasil precisa de um jornalismo que reconheça sua responsabilidade histórica diante de um país do Sul Global, assediado por interesses externos e marcado por profundas desigualdades. “A informação é um bem e esse bem merece ser cuidado”, concluiu.