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Pedro Maciel

Advogado, sócio da Maciel Neto Advocacia, autor de “Reflexões sobre o estudo do Direito”, Ed. Komedi, 2007

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Um cristão no trono de Pedro

Aquele homem de origem simples, vindo de Bergamo, tornou-se um dos papas mais marcantes do século XX

Papa João XXIII (Foto: PA Images via Reuters)
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No livro Homens em Tempos Sombrios (Editora Companhia das Letras), traduzido por Denise Bottmann, Hannah Arendt — uma das grandes pensadoras do século XX, de origem judaica e com reconhecida trajetória intelectual ligada ao pensamento crítico — dedica algumas páginas ao Papa João XXIII. É uma passagem especialmente interessante, justamente pela capacidade de Arendt de enxergar, para além das fronteiras religiosas e ideológicas, a grandeza humana de uma personalidade histórica.

Ela apresenta João XXIII como “um cristão no trono de São Pedro”, destacando sua humanidade, sua simplicidade e, sobretudo, sua capacidade de transformar a Igreja Católica em um momento decisivo de sua história.

Arendt relembra que, quando teve início o conclave que o elegeu, João XXIII não figurava entre os favoritos — os chamados papabile. Sua escolha ocorreu em um cenário de dificuldade de consenso entre os cardeais, e muitos o viam como uma solução de transição, uma figura moderadora que não provocaria grandes mudanças.

A história, porém, demonstrou o contrário. Aquele homem de origem simples, vindo de Bergamo, tornou-se um dos papas mais marcantes do século XX. Com coragem, sensibilidade e visão de futuro, convocou o Concílio Vaticano II e promoveu uma profunda renovação no diálogo da Igreja com o mundo moderno.

Recentemente, reli a encíclica Ad Petri Cathedram e encontrei uma reflexão de grande atualidade sobre o papel da imprensa e dos meios de comunicação. João XXIII, com a sabedoria de quem compreendia a força da palavra pública, reconhecia a importância fundamental da imprensa para a sociedade.

Ele não via jornais, revistas, rádio, cinema e televisão como instrumentos a serem temidos, mas como meios capazes de contribuir para a formação das pessoas, para o conhecimento e para o bem comum. Ao mesmo tempo, alertava para a responsabilidade daqueles que trabalham com a informação.

Para João XXIII, a missão da imprensa deveria estar vinculada ao compromisso com a verdade. Ele advertia que a informação perde sua nobreza quando abandona a busca sincera pelos fatos para simplesmente manipular sentimentos, explorar paixões ou moldar opiniões de maneira artificial.

Sua mensagem não era contra a liberdade de imprensa — ao contrário, partia do reconhecimento de sua importância para uma sociedade livre. Era um chamado à responsabilidade ética: quanto maior o poder de comunicar, maior deve ser o compromisso com a verdade, com a dignidade humana e com o respeito ao público.

Ao afirmar que os meios de comunicação poderiam ser usados tanto para o bem quanto para o mal, João XXIII apontava para uma questão permanente: o mesmo instrumento que pode esclarecer também pode confundir; o mesmo veículo que pode educar pode também ser utilizado de forma irresponsável.

Por isso, sua reflexão continua atual. A imprensa livre é essencial à democracia, mas sua força está justamente na credibilidade construída pelo compromisso com a verdade.

Esse talvez seja o grande ensinamento de João XXIII: a verdade não pertence a um lado ou a outro. Ela é um compromisso comum daqueles que têm a responsabilidade de informar e daqueles que desejam construir uma sociedade mais justa e consciente.

Essas são as reflexões.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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