Ultimato dos EUA ao Irã eleva petróleo e reacende temores inflacionários globais
Escalada geopolítica pressiona energia, acelera inflação e pode encerrar ciclo de queda dos juros no Brasil
O principal destaque desta terça-feira, 7 de abril, é o aumento das tensões geopolíticas após o ultimato do governo Trump ao Irã, previsto para esta noite. O movimento já provoca reações relevantes nos mercados, com o preço do petróleo Brent voltando a superar os US$ 110 por barril.
As consequências inflacionárias desse choque começam a se espalhar rapidamente. Nos Estados Unidos, o preço da gasolina já se aproxima de US$ 4 por galão, ante cerca de US$ 2,80 anteriormente. Trata-se de uma alta expressiva que impacta diretamente o custo de vida das famílias e tende a pressionar os índices de inflação.
Nesse contexto, os dados de inflação referentes a março — que começam a ser divulgados ao longo desta semana, tanto no Brasil (IPCA) quanto nos Estados Unidos — devem refletir uma deterioração relevante. O processo inflacionário, que já era perceptível em tempo real para analistas e economistas, tende agora a se tornar evidente também para a população em geral.
A percepção de alta de preços já está disseminada, especialmente em itens sensíveis como combustíveis. Nos Estados Unidos, o custo para encher o tanque de um veículo praticamente dobrou, reforçando o impacto direto desse choque sobre o consumo das famílias.
O cenário segue altamente incerto. Existe a possibilidade de recuo por parte do governo americano, mas, no momento, o ambiente é marcado por forte instabilidade e ausência de resolução clara para o conflito.
No Brasil, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, fez ontem uma defesa da política monetária durante evento na Fundação Getulio Vargas. Em sua fala, destacou o caráter impopular da inflação e seus efeitos negativos sobre governos, especialmente em contextos eleitorais.
Galípolo relembrou episódios históricos, como o impacto da inflação elevada no final do governo Biden, apesar de indicadores sólidos de atividade e emprego. Também mencionou o caso brasileiro recente: após a taxa Selic atingir mínima histórica de 2%, houve um ciclo agressivo de alta até 14%, que ainda assim não foi suficiente para conter rapidamente a inflação pós-pandemia.
Entre 2021 e 2023, o Brasil registrou inflação elevada, com o IPCA superando 10% em determinado momento. Esse processo teve impactos relevantes, inclusive no ambiente político e eleitoral. Como destacado pelo presidente do Banco Central, o problema da inflação é cumulativo: mesmo com desaceleração recente — como o IPCA de 4,2% no último ano — a percepção de preços elevados persiste devido ao acúmulo inflacionário dos anos anteriores.
De fato, considerando o período pós-pandemia, a inflação acumulada no Brasil supera com folga 20%, o que reforça a sensação de perda de poder de compra por parte da população.
A fala de Galípolo reforça a importância do combate à inflação não apenas do ponto de vista econômico, mas também político. Ele também citou episódios históricos, como a eleição de Ronald Reagan após o período inflacionário do final dos anos 1970 nos Estados Unidos, quando o Federal Reserve demorou a reagir de forma mais contundente.
Diante desse cenário, cresce a percepção de que o ciclo de cortes da taxa Selic no Brasil pode estar próximo do fim. Parte dos economistas já defende uma pausa no afrouxamento monetário, em função do novo choque de preços provocado pelo petróleo.
Ainda há espaço para ajustes marginais, possivelmente com cortes residuais de 0,25 ponto percentual. No entanto, o cenário aponta para um ciclo de flexibilização mais curto e limitado do que o anteriormente esperado.
Os próximos dias serão decisivos. O desfecho das tensões no Oriente Médio e a divulgação dos dados de inflação no Brasil e nos Estados Unidos devem definir o rumo da política monetária e das expectativas econômicas no curto prazo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



