Oliveiros Marques avatar

Oliveiros Marques

Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

299 artigos

HOME > blog

Trump declarou Sergio Moro terrorista?

Moro, Flávio e sua turma, mais uma vez, jogam contra o Brasil

Flávio Bolsonaro e Sergio Moro (Foto: Reprodução/YouTube/Sergio Moro)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

Na última sexta-feira, 29 de maio, Sergio Moro lançou sua pré-candidatura ao governo do Paraná em Curitiba, ao lado de Flávio Bolsonaro. No palco, Flávio exibiu com orgulho sua participação nas articulações que levaram o governo Trump a classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras. Para ele, trata-se de uma vitória política. Para quem acompanha o cenário político-eleitoral com um pouco mais de atenção, a cena lembra um mágico que pede aplausos por encontrar um problema depois de anos ajudando a ignorá-lo.

Moro foi ministro da Justiça de Jair Bolsonaro entre janeiro de 2019 e abril de 2020. Foram 16 meses à frente da principal estrutura de combate ao crime organizado do país, com Polícia Federal, orçamento, inteligência e autoridade institucional. O PCC e o Comando Vermelho não surgiram ontem. Eram, à época, organizações amplamente conhecidas e monitoradas. Ainda assim, não houve nenhuma estratégia estrutural capaz de alterar significativamente seu poder econômico, territorial ou financeiro. Moro deixou o cargo acusando Bolsonaro de interferir na Polícia Federal. As facções, porém, permaneceram onde estavam.

A ironia ganha contornos ainda mais interessantes quando se observa a companhia escolhida por Moro para essa cruzada moral. Flávio Bolsonaro declarou publicamente que Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, é seu “irmão para todo o sempre”. Não parceiro. Não aliado. Irmão. Trata-se do mesmo Vorcaro que se tornou personagem central de investigações da Polícia Federal e de um escândalo que envolve suspeitas de relações financeiras com estruturas utilizadas para movimentação de recursos ligados ao crime organizado.

Curiosamente, quando o assunto é proximidade com pessoas investigadas por possíveis conexões com organizações criminosas, alguns setores da direita parecem defender uma interpretação bastante flexível do conceito de segurança pública. A régua que serve para adversários políticos frequentemente desaparece quando se aproxima dos próprios aliados.

O caso não se limita a Vorcaro. Em outro episódio que passou quase despercebido pelos paladinos da moralidade, veio à tona a relação entre integrantes do clã Bolsonaro e figuras como TH Joias, apontado em investigações como operador ligado ao Comando Vermelho. É curioso observar como aqueles que agora defendem a ampliação do conceito de terrorismo para enquadrar facções criminosas raramente demonstram o mesmo entusiasmo quando surgem questionamentos envolvendo pessoas de seu círculo político.

Mas o aspecto mais preocupante dessa discussão talvez não esteja na política eleitoral. Está na economia e na imagem externa do Brasil.

Classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas pode parecer uma medida dura e eficaz em um primeiro momento. O problema é que facções criminosas e grupos terroristas não são a mesma coisa. Organizações terroristas possuem motivação política, ideológica ou religiosa e buscam alterar a ordem institucional por meio do terror. PCC e CV são organizações criminosas voltadas fundamentalmente ao lucro. Traficam drogas, armas, dinheiro e influência. Não reivindicam revoluções, não apresentam manifestos ideológicos globais e não possuem objetivos políticos comparáveis aos de grupos tradicionalmente enquadrados como terroristas.

Essa distinção não é mero preciosismo acadêmico. Ela produz efeitos concretos.

Ao associar o Brasil ao vocabulário do terrorismo, abre-se espaço para riscos econômicos relevantes. Fundos estrangeiros, bancos e investidores institucionais costumam reagir de forma extremamente sensível a classificações dessa natureza. O aumento da percepção de risco pode elevar custos de financiamento, gerar barreiras adicionais para investimentos estrangeiros e reforçar narrativas de instabilidade institucional. Em um momento em que o país busca atrair capital produtivo, indústria e infraestrutura, a rotulagem simplista de um problema complexo pode acabar produzindo efeitos colaterais que atingem toda a economia nacional.

Ou seja, Moro, Flávio e sua turma, mais uma vez, jogam contra o Brasil.

Além disso, cria-se um precedente delicado. A legislação antiterrorismo norte-americana foi utilizada historicamente para justificar sanções extraterritoriais, intervenções e operações em diferentes regiões do mundo. Ainda que uma ação desse tipo contra o Brasil seja pouco provável, o debate não deveria ser tratado com a leviandade de um slogan eleitoral.

Diante disso, a pergunta que fica é inevitável: como alguém que ocupou o Ministério da Justiça sem apresentar resultados estruturais capazes de enfraquecer PCC e Comando Vermelho, e que hoje se alia a políticos cercados de personagens investigados por possíveis relações com estruturas financeiras ligadas ao crime organizado, pode se apresentar como a grande novidade no combate à criminalidade?

Trump não declarou Sergio Moro terrorista. Mas, sem querer, lançou luz sobre uma contradição difícil de ignorar: os mesmos atores políticos que mais gostam de discursar sobre combate ao crime parecem conviver com notável conforto quando os suspeitos estão ao seu lado no palco.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados