Trump avança na América Latina. O Brasil é o próximo alvo
A vitória da extrema direita na Colômbia pode ser muito mais importante do que parece à primeira vista
Poucas horas após a confirmação da vitória de Abelardo de la Espriella, Donald Trump telefonou para o presidente eleito. O secretário de Estado Marco Rubio divulgou mensagem oficial de congratulações. Javier Milei celebrou o resultado. Lideranças conservadoras de diversos países fizeram o mesmo.
O episódio sugere que não estejamos diante de uma simples sucessão de eleições nacionais. Talvez estejamos assistindo à reorganização de um campo político continental.
E, nesse processo, o Brasil ocupa posição central.
Da Venezuela ao Caribe
A nova fase começou na Venezuela. O sequestro e prisão de Nicolás Maduro e a derrubado do governo alteraram profundamente o equilíbrio político regional e demonstrou que Washington voltava a exercer protagonismo direto na América Latina.
Pouco depois, Cuba voltou ao centro das atenções. As declarações de Trump contra Havana e a pressão crescente sobre o regime cubano recolocaram no debate uma velha questão geopolítica: até onde os Estados Unidos pretendem avançar para reafirmar sua influência no hemisfério?
Cuba continua sendo um ponto sensível porque mantém relações históricas com a Rússia e estratégicas com a China. Pressionar Havana significa também enviar mensagens a Moscou e Pequim.
Não por acaso, o Caribe voltou a ocupar espaço importante no discurso da administração norte-americana.
A ultradireita continental
Ao mesmo tempo, uma nova direita avança pela América Latina: ultradireita continental liderada por Donald Trump.
Na Argentina, Javier Milei chegou ao poder prometendo demolir o sistema político tradicional. Em El Salvador, Nayib Bukele transformou a segurança pública em sua principal fonte de legitimidade. Construiu mega prisões e ofereceu ao governo Trump para receber presos dos EUA, incluindo migrantes.
No Chile, José Antonio Kast venceu apresentando-se como alternativa ao ciclo progressista anterior. Agora foi a vez da Colômbia.
Os contextos nacionais são diferentes. Mas existe um traço comum. Todos esses líderes se apresentam como alternativas ao establishment político tradicional. Todos cultivam uma linguagem de confronto.
E todos mantêm algum grau de proximidade com o universo político conservador e ultradireitista que gravita em torno de Donald Trump.
Mar-a-Lago e a reorganização hemisférica
Foi nesse contexto que ganhou importância o encontro promovido por Trump em Mar-a-Lago, em 7 de março de 2026, no Trump National Doral, em Miami, Flórida. Foram convidados os governantes da América Latina, com exceção de Luís Inácio Lula da Silva, do Brasi; Gustavo Petro, da Colômbia; e Cláudia Sheinbaum, do Mexico.
Mais do que uma reunião diplomática, o evento sinalizou a construção de uma rede política transnacional baseada em temas comuns. Segurança. Imigração. Combate ao narcotráfico, rebatizado de narcoterrorismo. Contenção da influência chinesa.
A rápida celebração da vitória colombiana por Trump, Marco Rubio, Milei e outros dirigentes conservadores reforça essa percepção.
Talvez ainda seja cedo para falar em uma coordenação continental estruturada. Mas já não parece possível ignorar a existência de uma crescente convergência política entre o governo de Trump e movimentos da extrema-direita latino-americana.
O Paraguai no centro do continente
Outro movimento relevante ocorreu no Paraguai.
O Congresso aprovou um acordo que amplia a presença temporária de militares norte-americanos para exercícios e operações de cooperação.
O governo insiste que não se trata da instalação de uma base militar permanente. Mas o significado geopolítico do acordo é evidente.
Situado no coração da América do Sul, fazendo fronteira com Brasil, Argentina e Bolívia, o Paraguai ocupa posição estratégica singular.
Mais importante do que discutir a existência ou não de uma base formal é observar a expansão de uma rede de cooperação militar, inteligência e presença operacional norte-americana na região.
O dilema brasileiro
É justamente nesse ponto que o Brasil se torna decisivo.
A pesquisa Datafolha divulgada neste mês mostra Lula liderando tanto no primeiro quanto no segundo turno. O principal adversário continua sendo Flávio Bolsonaro.
Mas o dado mais interessante talvez não esteja nos dois líderes. Está na dificuldade da direita tradicional brasileira em encontrar um candidato competitivo.
Uma parcela expressiva do empresariado, do sistema financeiro e das elites políticas não deseja apoiar Lula. Ao mesmo tempo, demonstra desconforto com o bolsonarismo.
O problema é que a direita ainda não encontrou uma alternativa capaz de romper essa polarização. Governadores são testados. Novos nomes são lançados. Velhas lideranças reaparecem. Mas nenhum deles consegue desafiar simultaneamente Lula e Flávio Bolsonaro.
A Colômbia resolveu esse dilema. A Argentina resolveu. O Chile resolveu. O Brasil ainda não. Pode resolver em outubro escolhendo Lula ou o candidato da extrema-direita, o Bolsonaro da vez, que vai tentar impedir a reeleição de Lula.
O mapa político da América do Sul ajuda a dimensionar o problema. Argentina, Chile, Paraguai, Equador, Bolívia e Colômbia já aparecem sob governos de direita. O Peru ainda não proclamou oficialmente o vencedor, mas Keiko Fujimori permanece à frente. Nesse cenário, o Brasil de Lula surge como a principal exceção continental.
A ultradireita avança
Não é necessário afirmar a existência de um plano explícito contra o Brasil para perceber o que está acontecendo ao seu redor. A ultradireita continental avança.
Washington recupera protagonismo regional. Governos conservadores ampliam sua articulação. E o Brasil continua sendo a maior economia, a maior população e a principal potência política da América do Sul.
Se existe um país decisivo para qualquer reorganização continental, esse país é o Brasil. Por isso, a questão central já não é apenas quem vencerá a eleição brasileira de 2026.
À medida que a ultradireita amplia sua influência na América Latina, o Brasil continuará sendo uma exceção ou acabará incorporado ao mesmo movimento da ultradireita que já transformou parte significativa do continente? A pergunta ganha relevância diante da relação cada vez mais estreita entre o bolsonarismo e o círculo político de Donald Trump.
Nos últimos meses, o presidente norte-americano declarou apoio ao ultraconservador colombiano Abelardo de la Espriella antes do segundo turno, celebrou sua vitória logo após a votação e recebeu manifestações públicas de alinhamento de lideranças conservadoras da região.
A peça decisiva
No Brasil, essa conexão também se tornou visível. Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro participaram recentemente de encontros políticos nos Estados Unidos com Trump e aliados do trumpismo, reforçando uma relação construída ao longo dos últimos anos entre duas famílias políticas de extrema-direita.
Ainda é cedo para saber qual será o desfecho dessa disputa. Mas uma coisa parece cada vez mais evidente. A batalha política que se aproxima não será apenas brasileira.
O Brasil deixou de ser mais um país em disputa. Tornou-se a peça decisiva. É o maior país, a maior economia, o centro da Amazônia, membro dos BRICS e o principal governo progressista ainda capaz de conter a reorganização continental da ultradireita.
Se a América do Sul vive uma nova onda conservadora, o Brasil permanece como a principal exceção. E exatamente por isso se torna a peça mais importante do tabuleiro continental.
Em outubro, o Brasil decidirá se aceita figurar entre os países que sucumbiram à ultradireita , liderada por Trump, ou entre aqueles que se rebelam contra ela.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




