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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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Trump avança na América Latina. O Brasil é o próximo alvo

A vitória da extrema direita na Colômbia pode ser muito mais importante do que parece à primeira vista

Abelardo De La Espriella (Foto: REUTERS/Jair Coll)
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Poucas horas após a confirmação da vitória de Abelardo de la Espriella, Donald Trump telefonou para o presidente eleito. O secretário de Estado Marco Rubio divulgou mensagem oficial de congratulações. Javier Milei celebrou o resultado. Lideranças conservadoras de diversos países fizeram o mesmo. 

O episódio sugere que não estejamos diante de uma simples sucessão de eleições nacionais. Talvez estejamos assistindo à reorganização de um campo político continental. 

E, nesse processo, o Brasil ocupa posição central. 

Da Venezuela ao Caribe 

A nova fase começou na Venezuela. O sequestro e prisão de Nicolás Maduro e a derrubado do governo alteraram profundamente o equilíbrio político regional e demonstrou que Washington voltava a exercer protagonismo direto na América Latina. 

Pouco depois, Cuba voltou ao centro das atenções. As declarações de Trump contra Havana e a pressão crescente sobre o regime cubano recolocaram no debate uma velha questão geopolítica: até onde os Estados Unidos pretendem avançar para reafirmar sua influência no hemisfério? 

Cuba continua sendo um ponto sensível porque mantém relações históricas com a Rússia e estratégicas com a China. Pressionar Havana significa também enviar mensagens a Moscou e Pequim. 

Não por acaso, o Caribe voltou a ocupar espaço importante no discurso da administração norte-americana. 

A ultradireita continental 

Ao mesmo tempo, uma nova direita avança pela América Latina: ultradireita continental liderada por Donald Trump.  

Na Argentina, Javier Milei chegou ao poder prometendo demolir o sistema político tradicional. Em El Salvador, Nayib Bukele transformou a segurança pública em sua principal fonte de legitimidade. Construiu mega prisões e ofereceu ao governo Trump para receber presos dos EUA, incluindo migrantes. 

No Chile, José Antonio Kast venceu apresentando-se como alternativa ao ciclo progressista anterior. Agora foi a vez da Colômbia. 

Os contextos nacionais são diferentes. Mas existe um traço comum. Todos esses líderes se apresentam como alternativas ao establishment político tradicional. Todos cultivam uma linguagem de confronto. 

E todos mantêm algum grau de proximidade com o universo político conservador e ultradireitista que gravita em torno de Donald Trump. 

Mar-a-Lago e a reorganização hemisférica 

Foi nesse contexto que ganhou importância o encontro promovido por Trump em Mar-a-Lago, em 7 de março de 2026, no Trump National Doral, em Miami, Flórida.  Foram convidados os governantes da América Latina, com exceção de Luís Inácio Lula da Silva, do Brasi; Gustavo Petro, da Colômbia; e Cláudia Sheinbaum, do Mexico.  

Mais do que uma reunião diplomática, o evento sinalizou a construção de uma rede política transnacional baseada em temas comuns. Segurança. Imigração. Combate ao narcotráfico, rebatizado de narcoterrorismo. Contenção da influência chinesa. 

A rápida celebração da vitória colombiana por Trump, Marco Rubio, Milei e outros dirigentes conservadores reforça essa percepção. 

Talvez ainda seja cedo para falar em uma coordenação continental estruturada. Mas já não parece possível ignorar a existência de uma crescente convergência política entre o governo de Trump e movimentos da extrema-direita latino-americana. 

O Paraguai no centro do continente 

Outro movimento relevante ocorreu no Paraguai. 

O Congresso aprovou um acordo que amplia a presença temporária de militares norte-americanos para exercícios e operações de cooperação. 

O governo insiste que não se trata da instalação de uma base militar permanente. Mas o significado geopolítico do acordo é evidente. 

Situado no coração da América do Sul, fazendo fronteira com Brasil, Argentina e Bolívia, o Paraguai ocupa posição estratégica singular. 

Mais importante do que discutir a existência ou não de uma base formal é observar a expansão de uma rede de cooperação militar, inteligência e presença operacional norte-americana na região. 

O dilema brasileiro 

É justamente nesse ponto que o Brasil se torna decisivo. 

A pesquisa Datafolha divulgada neste mês mostra Lula liderando tanto no primeiro quanto no segundo turno. O principal adversário continua sendo Flávio Bolsonaro. 

Mas o dado mais interessante talvez não esteja nos dois líderes. Está na dificuldade da direita tradicional brasileira em encontrar um candidato competitivo. 

Uma parcela expressiva do empresariado, do sistema financeiro e das elites políticas não deseja apoiar Lula. Ao mesmo tempo, demonstra desconforto com o bolsonarismo. 

O problema é que a direita ainda não encontrou uma alternativa capaz de romper essa polarização. Governadores são testados. Novos nomes são lançados. Velhas lideranças reaparecem. Mas nenhum deles consegue desafiar simultaneamente Lula e Flávio Bolsonaro. 

A Colômbia resolveu esse dilema. A Argentina resolveu. O Chile resolveu. O Brasil ainda não. Pode resolver em outubro escolhendo Lula ou o candidato da extrema-direita, o Bolsonaro da vez, que vai tentar impedir a reeleição de Lula. 

O mapa político da América do Sul ajuda a dimensionar o problema. Argentina, Chile, Paraguai, Equador, Bolívia e Colômbia já aparecem sob governos de direita. O Peru ainda não proclamou oficialmente o vencedor, mas Keiko Fujimori permanece à frente. Nesse cenário, o Brasil de Lula surge como a principal exceção continental. 

 A ultradireita avança 

Não é necessário afirmar a existência de um plano explícito contra o Brasil para perceber o que está acontecendo ao seu redor. A ultradireita continental avança. 

Washington recupera protagonismo regional. Governos conservadores ampliam sua articulação. E o Brasil continua sendo a maior economia, a maior população e a principal potência política da América do Sul. 

Se existe um país decisivo para qualquer reorganização continental, esse país é o Brasil. Por isso, a questão central já não é apenas quem vencerá a eleição brasileira de 2026. 

À medida que a ultradireita amplia sua influência na América Latina, o Brasil continuará sendo uma exceção ou acabará incorporado ao mesmo movimento da ultradireita que já transformou parte significativa do continente? A pergunta ganha relevância diante da relação cada vez mais estreita entre o bolsonarismo e o círculo político de Donald Trump.  

Nos últimos meses, o presidente norte-americano declarou apoio ao ultraconservador colombiano Abelardo de la Espriella antes do segundo turno, celebrou sua vitória logo após a votação e recebeu manifestações públicas de alinhamento de lideranças conservadoras da região. 

A peça decisiva   

No Brasil, essa conexão também se tornou visível. Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro participaram recentemente de encontros políticos nos Estados Unidos com Trump e aliados do trumpismo, reforçando uma relação construída ao longo dos últimos anos entre duas famílias políticas de extrema-direita.  

Ainda é cedo para saber qual será o desfecho dessa disputa. Mas uma coisa parece cada vez mais evidente. A batalha política que se aproxima não será apenas brasileira.  

O Brasil deixou de ser mais um país em disputa. Tornou-se a peça decisiva. É o maior país, a maior economia, o centro da Amazônia, membro dos BRICS e o principal governo progressista ainda capaz de conter a reorganização continental da ultradireita.  

Se a América do Sul vive uma nova onda conservadora, o Brasil permanece como a principal exceção. E exatamente por isso se torna a peça mais importante do tabuleiro continental. 

Em outubro, o Brasil decidirá se aceita figurar entre os países que sucumbiram à ultradireita , liderada por Trump, ou entre aqueles que se rebelam contra ela. 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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