Trabalharmos todos, para trabalharmos menos
Diminuir o tempo de trabalho é ampliar o tempo de viver, conviver, descansar e construir novos direitos, analisa o colunista Emir Sader
Com esse lema, o sindicalismo francês encarava a questão da diminuição da jornada de trabalho. Lutar contra o desemprego, também como forma de permitir que se trabalhe menos tempo, com jornadas mais curtas.
Pepe Mujica, o grande humanista do nosso tempo, costumava dizer que o que compramos, o que pagamos pelo que compramos, é tempo de vida. É tempo de trabalho, que é ao mesmo tempo, tempo de vida.
Gastar é gastar tempo de vida. Isso representa a jornada de trabalho. Se nos vai a vida, conforme temos jornadas longas de trabalho, não apenas a formal, mas ainda por cima as horas extras.
A diminuição da jornada de trabalho no Brasil, de 44 para 40 horas, mesmo se implementada mediante um acordo prolongado por um ano, é mais tempo livre. Duas horas, primeiro, quatro depois, para fazer o que bem entendermos. Ou não fazermos absolutamente nada.
Na verdade, até aqui, a jornada não é de 8 horas diárias. Porque o trabalhador acorda às 5 ou 6 da manhã, para tomar dois ou mais transportes, contando a espera para chegar o ônibus, o apertado de ir em pé ao longo dos seus trajetos.
Ele já chega cansado ao trabalho. Não por acaso se contabiliza que a maior parte dos acidentes de trabalho se dão na primeira meia hora ou no começo do dia, quando o trabalhador ainda está cansado ou até mesmo com sono, porque não dormiu as horas suficientes, tendo que acordar muito cedo para se deslocar dos seus bairros distantes aos bairros onde se concentra a maior parte dos lugares de trabalho.
Dessa forma, a disposição do trabalhador para os patrões é muito mais do que as 8 horas atuais. Entre o horário em que ele sai de casa e retorna para o convívio com sua mulher e seus filhos, com seus pais, são algo como 12 horas: 8 horas de jornada de trabalho, mais umas 4 horas de transporte.
A aprovação da diminuição da jornada de trabalho, deixando 4 horas a mais para o trabalhador usar a seu bel prazer, é uma conquista sindical, de direitos e humana, muito importante. Não por acaso se dá quando o presidente do Brasil é um ex-operário, ex-líder sindical, que sabia na sua própria pele – e no próprio dedo que perdeu no acidente de trabalho –, o que significa a dureza da jornada de trabalho.
Menos horas de trabalho faz das condições de trabalho uma jornada menos desumana e das condições de vida algo mais humano. Cada trabalhador pode conviver mais com sua família, com seus amigos, com seus próprios colegas de trabalho, frequentar o sindicato e o partido político.
Trabalhar menos, para viver mais. Trabalhar menos, para viver melhor. Trabalhar menos, para ter uma vida mais gostosa, com mais prazer, com mais lazer.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




