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Joaquim de Carvalho

Colunista do 247, foi subeditor de Veja e repórter do Jornal Nacional, entre outros veículos. Ganhou os prêmios Esso (equipe, 1992), Vladimir Herzog e Jornalismo Social (revista Imprensa). E-mail: [email protected]

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Tito Noleto, o MC de 15 anos que pode ajudar a esquerda a reconquistar a juventude

Rapper afirma que a esquerda perdeu capacidade de dialogar com a nova geração e critica a influência do neoliberalismo e conservadorismo sobre os jovens

Tito Noleto (Foto: @andre.scoelho)
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Num momento em que pesquisas indicam que cerca de 70% dos jovens entre 16 e 24 anos desaprovam o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o rapper e improvisador Tito Noleto surge como uma voz rara capaz de dialogar com essa geração. E, segundo o próprio MC, a rejeição não ocorre necessariamente por causa de Lula, mas pela incapacidade das forças progressistas de se comunicarem com os mais jovens.

Durante entrevista à TV 247, Tito afirmou que a juventude vive hoje entre dois fenômenos principais: a despolitização promovida pelo neoliberalismo e o avanço do conservadorismo nas redes sociais. Nem parece que Tito tem apenas 15 anos de idade.

Segundo ele, muitos jovens passaram a enxergar a política tradicional como algo distante, inacessível e incapaz de oferecer perspectivas reais de transformação.

“O que falta é proximidade, diálogo e contato direto”, afirmou. “As pessoas formam suas opiniões em vídeos de um minuto.”

Aos 15 anos, o jovem brasiliense já se tornou um nome conhecido no circuito nacional das batalhas de rima. Campeão da Batalha da Aldeia — considerada a maior competição de freestyle do país —, Tito surpreende não apenas pela habilidade com as palavras, mas pela densidade política e social de seus versos.

Ao longo da conversa, mostrou um domínio de conceitos filosóficos e sociológicos incomum até mesmo entre adultos.

Logo no início da entrevista, destaquei o impacto causado pelo jovem rapper. “Ele tem 15 anos de idade, mas fala com uma propriedade que muitos que têm 40 e estão na universidade não têm.”

Tito defende que o rap não pode ser separado de sua origem política. Para ele, o hip hop nasceu como expressão de resistência negra e periférica, ligado às lutas por direitos civis nos Estados Unidos durante os anos 1970.

“O rap e o hip hop são movimentos essencialmente pretos, periféricos e políticos”, afirmou. “Não dá para desassociar.”

Segundo o jovem MC, há hoje uma tentativa de esvaziar o conteúdo crítico do rap, transformando-o apenas em entretenimento. Em suas batalhas, ele procura justamente recuperar o papel social da cultura hip hop.

Trechos apresentados durante a entrevista mostram essa postura. Em uma das rimas, Tito critica a desigualdade nas relações de trabalho e a superficialidade das redes sociais: “O que falta no rap de hoje em dia é rima de fato, com argumento, com qualidade.”

Em outro momento, contrapõe violência e diálogo político: “Enquanto você bate em qualquer um, eu dou educação. Seja para petista, Pablo Marçal ou bolsonarista.”

Morador da Asa Norte, área de classe média de Brasília, Tito reconhece que sua formação política começou ainda na infância, dentro de casa. Filho de uma antropóloga e de um indigenista, ambos ligados às causas indígenas, ele cresceu em um ambiente de debate político constante.

“Eu nunca tive essa coisa de ‘isso é conversa de adulto’. Sempre participei dessas discussões”, contou.

Apesar da origem fora da periferia, Tito afirma que encontrou no hip hop uma forma de ampliar sua compreensão sobre o Brasil real. O contato com batalhas de rima em escolas públicas e nas ruas do Distrito Federal foi decisivo.

“O movimento está em todos os lugares, mesmo que não seja noticiado como deveria.”

Aluno de escola pública, Tito atribui parte importante de sua formação ao ambiente escolar. Segundo ele, a convivência com jovens de diferentes origens sociais rompe bolhas típicas de Brasília, cidade marcada por forte segregação socioespacial.

“A escola pública me deu a oportunidade de conhecer, de buscar e de me intrigar com coisas novas”, afirmou.

Ele comparou a realidade de Brasília à de São Paulo, destacando o contraste entre bairros ricos e periferias, como Morumbi e Paraisópolis, local onde também já se apresentou.

“A segregação é muito forte. Às vezes você atravessa a rua e já vê outro contexto social.”

Um dos pontos centrais da entrevista foi a análise de Tito sobre os jovens brasileiros. Para ele, há hoje dois movimentos predominantes entre a juventude: a despolitização neoliberal e o avanço do conservadorismo.

Segundo o MC, muitos jovens cresceram sob a lógica de que “a vida é uma competição” e que o sucesso individual é mais importante do que projetos coletivos.

“O sonho consumista vem antes de tudo”, disse.

Na avaliação dele, isso explica a rejeição de muitos jovens ao trabalho formal e à universidade pública. Tito criticou a ideia de que o trabalhador CLT está condenado a uma vida “medíocre” e apontou como as redes sociais disseminam uma visão distorcida sobre empreendedorismo.

“Fazem os jovens acreditarem que motoboy e Uber são empreendedores.”

Ao mesmo tempo, ele vê o crescimento do conservadorismo como um fenômeno impulsionado pelas redes sociais e pela influência de conteúdos simplificados.

“As pessoas formam suas opiniões em vídeos de um minuto.”

Apesar das críticas à extrema direita, Tito também apontou falhas da esquerda brasileira. Segundo ele, há setores progressistas que tratam a população pobre como incapaz de formular pensamento político.

“Uma das críticas mais enfáticas que eu tenho à esquerda brasileira é tratar o povo pobre como povo burro.”

Para o jovem rapper, o caminho para disputar consciências passa pelo diálogo direto e respeitoso com a juventude.

“A maioria dessas pessoas não pensa assim por maldade. Elas foram influenciadas.”

Ele defende que a esquerda volte às bases e reconstrua vínculos com os jovens fora das redes sociais.

“A gente precisa desse contato mais cara a cara.”

Literatura, Paulo Freire e consciência crítica

Leitor assíduo, Tito considera a formação teórica fundamental para quem deseja intervir politicamente através da arte.

“A leitura é um meio de libertação”, afirmou, citando Paulo Freire.

Ao longo da entrevista, o jovem mencionou autores, filósofos e referências da música brasileira e do rap nacional, combinando improviso com conceitos de linguagem, sociologia e política.

Em uma de suas batalhas mais comentadas, chegou a improvisar explicações sobre figuras de linguagem e gramática dentro da própria disputa de freestyle.

Ao final da conversa, resumi o sentimento provocado pela entrevista. “O futuro da democracia no Brasil depende de pessoas como este jovem”, disse, com convicção.

Entre batalhas de rima, leituras políticas e reflexões sobre o país, Tito Noleto emerge como uma das vozes mais singulares de uma geração atravessada por redes sociais, polarização e crise de perspectivas coletivas.

Com apenas 15 anos, ele já transformou o improviso em instrumento de crítica social — e a batalha de rap em espaço de formação política. Tito Noleto, anotem esse nome. Já brilha, vai brilhar ainda mais.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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