São Pedro culpado
São Pedro não tem culpa nenhuma no cartório sobre o que vem ocorrendo em vários municípios brasileiros por falta de uma ação política eficaz
“Ribeirão Preto acaba de bater o recorde de chuvas para o mês de Janeiro e novos recordes devem ser ultrapassados nos próximos meses. Ela está entre as várias cidades brasileiras que enfrentam problemas relacionados às enchentes e aos deslizamentos de terra, que já causaram mais de uma centena de vítimas só neste ano.
De um modo geral, as pessoas mais atingidas são as de baixa renda, porque acabam ocupando as áreas inundáveis e as encostas íngremes por falta de opção de moradia. Os terrenos geologicamente e naturalmente instáveis, as chuvas de verão (previsíveis) e a construção de casas sem orientação técnica alguma, se encarregam dos trágicos acidentes. O descumprimento das diretrizes de ocupação do solo (plano diretor) e as vistas grossas ao Código Florestal vigente, por parte do poder público, facilitam a desordem dos assentamentos no espaço urbano.
Está mais do que passando da hora de realizar uma reforma urbana para valer no âmbito dos municípios e resolver essa situação. Nessa reforma seriam re-alocadas as comunidades que vivem em situações de risco geológico. Se esta medida pode ter um custo aos cofres públicos e envolve interesses políticos distintos num mesmo espaço urbano é o mínimo que se espera de um governo democrático, voltado para atender as reais necessidades da maioria da população.
O cenário em que ocorrem esses tipos de acidentes naturais e/ou induzidos pela atividade humana chega a ser monótono e repetitivo em vários municípios. A falta de infraestrutura urbana, representada pela precariedade de saneamento básico, produz o acúmulo de lixo e entulho nos taludes dos morros e nas várzeas dos córregos, que acelera os processos de deslizamentos e de inundações.
O poder público não pode se furtar e deve enfrentar o problema de frente, empenhando seu corpo técnico no atendimento da população, que inclui planejamento, trabalho de campo e fiscalização permanente. Assim, sem a vontade política por parte dos governantes para atuar nessa área, todo ano vai ser a mesma ladainha: a culpa é de São Pedro. Vale lembrar que São Pedro não tem controle sobre o fenômeno El Niño, que provoca o aumento da temperatura das águas do Oceano Pacífico deslocando a umidade da Amazônia para o sul do país, e nem sobre as mazelas causadas pelo aquecimento global.” [1]
O texto acima, publicado 16 anos atrás, relatando as chuvas de verão que caíram no município de Ribeirão Preto, localizado no nordeste do Estado de São Paulo, poderia ter sido escrito na época, também, por outros colegas que trabalham no campo da geologia e em áreas de riscos geológicos espalhadas pelo país afora. Atualmente, as áreas de riscos geológicos em Juiz de Fora [2] e na região da Zona da Mata Mineira são os exemplos mais recentes com os problemas relacionados às enchentes e aos deslizamentos de terra.
Mas, afinal, São Pedro, culpado? Lembremos que, segundo a religião católica, ele foi um dos dozes apóstolos de Jesus, o primeiro papa da igreja e não tem culpa nenhuma no cartório sobre o que vem ocorrendo em vários municípios brasileiros por falta de uma ação política eficaz e que atenda os mais necessitados nesse cenário de injustiça social. Para encerrar cabe aqui uma frase do educador Paulo Freire: “É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática.”
Fontes
[1] “A culpa é de São Pedro”. Artigo de Heraldo Campos de 02/02/2010 publicado originalmente no Jornal Gazeta de Ribeirão. Ribeirão Preto (SP). “Por onde a água passa [recurso eletrônico]: coletânea de artigos”. Publicação de e-book pela UNICAMP/IG 2019.
https://acervus.unicamp.br/Resultado/Listar?guid=1772532635110
[2] “Riscos geológicos em Juiz de Fora”. Artigo de Heraldo Campos de 26/02/2026.
https://www.ihu.unisinos.br/662736-riscos-geologicos-em-juiz-de-fora-artigo-de-heraldo-campos
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
