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Julimar Roberto

Comerciário e presidente da Contracs-CUT

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Reconhecer é o mínimo. Reparar é a verdadeira justiça

A escravidão terminou no papel, mas sua lógica nunca deixou de organizar a sociedade.

Protesto contra o racismo (Foto: Rovena Rosa/Ag. Brasil)

Nesta semana, a Organização das Nações Unidas reconheceu o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o mais grave crime contra a humanidade. A decisão, pouco divulgada, trata-se um marco político e moral que confronta uma das bases da formação do mundo moderno. Ao afirmar a necessidade de reparações, a comunidade internacional admite algo que os povos negros denunciam há séculos. A escravidão não foi um desvio histórico. Foi um projeto estruturado de exploração, violência e acumulação de riqueza.

A votação deixou isso evidente. Foram 123 países favoráveis, apenas 3 contrários e 52 abstenções. O Brasil esteve do lado certo ao apoiar a resolução, destacando que ela abre caminho para direitos humanos, dignidade e reparação. Mas o posicionamento de países como Estados Unidos, Israel e Argentina – que votaram contra -, além da abstenção de potências europeias, revela o desconforto de quem, hipocritamente, aceita homenagens à memória, mas resiste em assumir as consequências materiais de tamanha barbárie.

Não falta base histórica para sustentar esse debate. Mais de 10,7 milhões de africanos escravizados sobreviveram à travessia até as Américas, após um processo marcado por sequestro, tortura e morte em massa. O Brasil recebeu quase 5 milhões dessas pessoas, entre homens, mulheres, crianças e idosos, tornando-se o maior território escravista do continente. Esse é um fato que precisa ser dito e nomeá-lo não é exagero ideológico. É reconhecimento da escala de um crime fundacional.

O problema é que a escravidão terminou no papel, mas sua lógica nunca deixou de organizar a sociedade. O racismo estrutural segue operando como engrenagem de desigualdade. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada mostram que, em 2022, a renda média de pessoas brancas era 87% superior à de pessoas negras, enquanto a pobreza extrema entre pessoas negras é mais que o dobro da observada entre pessoas brancas.

No mundo do trabalho, a herança escravista aparece sem disfarces. Em 2025, levantamento do Ipea em parceria com o Ministério da Igualdade Racial apontou que 69,9% das pessoas ocupadas no trabalho doméstico e de cuidados remunerados são mulheres negras. Não se trata de coincidência, mas de continuidade histórica. A mesma lógica que hierarquizou corpos no passado segue determinando quem ocupa os postos mais precarizados no presente.

Essa desigualdade também se expressa na violência. O Atlas da Violência 2025 registrou que 68,2% dos homicídios femininos vitimaram mulheres pretas e pardas. É o retrato de um país que aboliu sem integrar, libertou sem reparar e modernizou sem democratizar o poder.

Diante disso, é preciso dizer que reparação não é sinônimo de indenização isolada. Reparação é transformação estrutural. É política pública consistente, redistribuição de oportunidades e enfrentamento direto das desigualdades produzidas historicamente. Significa investir em educação pública de qualidade, garantir permanência estudantil, ampliar o acesso à universidade, valorizar o trabalho, fortalecer a proteção social, enfrentar a violência contra a juventude negra e consolidar políticas de ação afirmativa.

A resolução da ONU tem um valor que vai além da diplomacia. A iniciativa desloca o debate da zona confortável da homenagem para o terreno incômodo da responsabilidade. E o Brasil, pela sua própria história, não pode se omitir ou fingir que se esqueceu. Não basta votar corretamente em fóruns internacionais enquanto, internamente, a cor da pele continua definindo renda, ocupação, expectativa de vida e futuro.

A verdade é simples, ainda que incômoda. Não existe democracia racial em um país construído com o sangue e o suor de quase cinco milhões de africanos escravizados. Não existe justiça social real sem enfrentar o racismo estrutural. E não existe futuro digno para o trabalho sem reconhecer que a riqueza brasileira foi construída sobre corpos negros tratados como mercadoria.

Sim, a ONU deu um passo importante. Mas reconhecer ainda é muito pouco ou quase nada. Reparar é o que a justiça exige — e o que a história já não permite mais adiar.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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