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Henrique Pinheiro

Henrique Pinheiro é economista e executivo do mercado financeiro com mais de quatro décadas de atuação no Brasil e no exterior. Trabalhou em instituições como Merrill Lynch e Wells Fargo, e atualmente atua na Bolton Global Capital, em Miami. É autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor e produtor do documentário Terra Revolta: João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária.

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Real forte alivia o câmbio, mas o Brasil continua refém das commodities

"A crise no Oriente Médio, agravada pelo conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, mantém petróleo e derivados em patamares elevados"

Notas de dólar e de real (Foto: REUTERS/Amanda Perobelli)

A valorização recente do real diante do dólar deveria, em tese, produzir um alívio imediato sobre a economia brasileira. Em condições normais, dólar mais fraco significa menor pressão sobre combustíveis, fertilizantes, remédios importados e insumos industriais. Mas o Brasil vive uma contradição típica de países dependentes das exportações de commodities: mesmo com o real ganhando força, os preços internos continuam pressionados porque o mercado internacional segue dominado pela guerra e pela volatilidade energética.

A crise no Oriente Médio, agravada pelo conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, mantém petróleo e derivados em patamares elevados. O bloqueio no Estreito de Ormuz e o risco de interrupção no fluxo global de energia ainda pesam sobre os preços internacionais. Resultado: o dólar cai, mas gasolina e diesel não recuam na mesma velocidade.

O mesmo ocorre com fertilizantes. O Brasil importa cerca de 85% do que consome, e grande parte desses insumos depende diretamente do mercado externo, fortemente afetado pela geopolítica. Mesmo com o real valorizado, os preços seguem altos porque a pressão internacional continua.

Esse fenômeno expõe uma fragilidade estrutural da economia brasileira. Somos grandes exportadores de commodities, mas continuamos importadores dependentes de insumos estratégicos. Vendemos soja, minério, petróleo bruto e carnes, mas importamos fertilizantes, tecnologia, máquinas, semicondutores e derivados refinados.

É o retrato de uma economia primarizada.

Quando o dólar sobe, o país sofre porque tudo encarece.

Quando o dólar cai, o benefício é parcial porque os preços externos continuam mandando.

Ou seja, nem o câmbio favorável basta para blindar o consumidor brasileiro.

A dependência excessiva das exportações de commodities cria uma armadilha. O Brasil lucra quando o mundo compra bem nossos produtos primários, mas continua vulnerável porque não controla os preços dos insumos essenciais que importa. É uma balança desequilibrada.

O agronegócio exportador ganha com dólar alto e reclama quando o real se valoriza. Mas até o próprio campo depende de insumos dolarizados. Fertilizantes caros anulam parte do ganho cambial. O setor exporta muito, mas também importa muito para produzir.

Enquanto isso, a população enfrenta inflação persistente em itens básicos, mesmo quando o câmbio melhora.

Esse é o problema central: um país excessivamente dependente de commodities fica sempre subordinado a choques externos. Cresce quando os preços internacionais favorecem suas exportações, mas continua exposto à inflação global e à instabilidade geopolítica.

A valorização do real é positiva, sim. Ela reduz parte da pressão inflacionária e melhora expectativas. Mas não resolve a raiz do problema: a vulnerabilidade estrutural de uma economia que exporta produtos primários e importa insumos estratégicos.

Sem reindustrialização, autonomia tecnológica e menor dependência externa, o Brasil continuará preso a essa equação perversa:

vende barato o que extrai,

compra caro o que precisa.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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