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Camilo Irineu Quartarollo

Autor de nove livros, químico, professor de química, com formação parcial em teologia e filosofia.

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Quem chora pelo Irã?

Mesmo que você não chore, os vendedores de armas e petróleo estão rindo à toa

Pessoas e equipes de resgate trabalham após um ataque israelense a uma escola em Minab, Irã, em 28 de fevereiro de 2026 (Foto: Abbas Zakeri/Mehr News/WANA (West Asia News Agency) via REUTERS)

Segundo o jornal O Estado de São Paulo, ninguém chora pelo Irã. Como se o país persa fosse um mero detalhe. Como se aqueles que usam turbantes fossem piores dos que usam bonés MAGA. Lamentável. 

Triste é a estratégia, na qual se cria um inimigo comum para líderes livrarem-se de fama ruins e ruidosas, de ditador num país que se diz democrático, à sombra de Epstein, em cujo antro há inúmeras fotos e muitos vídeos comprometedores de chefes de estado. Lá sim o ambiente aterrorizante de crianças expostas ao clima impróprio de machistas caquéticos, predadores sexuais e ávidos por corpos das indefesas, numa tortura moral e física – no silêncio pavoroso da ilha de Epstein, ou ninguém chora por isso? Ora, são crianças!

O que faz alguém deslocar forças bélicas para outro lado do mundo e arquitetar plano de morte contra o seu líder, destruindo num bombardeio tudo a sua volta e matando assessores, filhos e netos deste.

Teve gente, inclusive da terrinha, que levantou a voz de gáudio, como se fosse uma realidade distante. Não se esqueçam do sequestro de Maduro na Venezuela e de outras situações históricas de intervenções americanas. No país de nosso vizinho, os EUA mataram ao menos cem pessoas, inutilizaram sistemas de comunicação, bombardearam a Universidade Nacional das Ciências do país e centros de pesquisas específicas.

Nem os EUA nem Israel queriam a paz, as reuniões foram uma cortina de fumaça e o acordo uma tentativa de desarmar o Irã. Uma das cláusulas era a de que o país persa não usasse seus mísseis. Nada mais estapafúrdio que isso, claro que, havendo guerra o Irã usaria. Os EUA não usaram toda a sua força militar e cibernética?

Os próprios analistas americanos, da imprensa livre e corajosa, estão se posicionando como se essa guerra tenha implicações nitidamente políticas de um governo impopular, odiado, cujas eleições no parlamento americano corre sério risco de ter a maior perda de cadeiras. Por outro lado, ainda se ponderam os analistas de que Epstein não era um mero cafetão ou sádico que fazia filmes e fotos. O pedófilo seria um agente infiltrado, alguém incumbido de chantagear governos e retirar desses eleitos intentos inconfessáveis e antidemocráticos, favoráveis às suas empresas.

Antes devemos chorar por nós mesmos, por acreditar que mortes de líderes estrangeiros sejam a solução de problemas ou seja a liberdade do nosso continente, conforme alguns americanófilos de plantão.

Para situarmos, somente o conhecimento mais aprofundado da cultura persa e do país atacado, onde vivem mais de 3.500 judeus e, admirem-se, foi atacado por Israel. O Irã tem uma cultura diversa, geografia que afronta exércitos, por isso a luta se faz pelo ar. O contra-ataque foi à altura para destruir as bases americanas e fechar o estreito de Ormuz, numa garganta por onde passavam por navios petroleiros vinte por cento deste hidrocarboneto mundial. Certamente, vamos ver o preço da gasolina, gás, alimentos, agora mais altos.

Mesmo que você não chore, os vendedores de armas e petróleo estão rindo à toa, com as burras cheias. Se você não chora, não ria não.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.