Quebradeira Master - Do banco imobiliário ao banco dos réus
A relação do clã Bolsonaro com os bancos se tornou um pesadelo depois da ascensão das ações políticas e piorou depois do despejo dos palácios oficiais
A trupe Bolsonaro tem contratos e contatos conflitantes com bancos. É muito agressiva no banco imobiliário, ignora os bancos comerciais na compra de imóveis e o senador Flávio Bolsonaro cobrou um pix milionário de R$ 134 milhões de Daniel Vorcaro, controlador do Master, para fazer uma fita em exaltação ao pai.
A maioria do clã já frequenta o banco dos réus, e o banco da escola pouco frequentou. Condenado a 27 anos, após tentar um golpe, o capo dos saltimbancos esquentou por anos a insignificância no banco de reservas. O saldo político no baixo clero foi de inadimplente. Nos saques a descoberto, atacava mulheres, a democracia, o pagamento de impostos, mas inflacionava elogios a ditadores sanguinários e rupturas institucionais.
Após o resgate da indigência para a presidência, revelaram-se aplicações sistêmicas do grupo no banco imobiliário. A família é um fenômeno no investimento em imóveis, sempre evitando os bancos comerciais e preferindo os elevados riscos de pagamentos em dinheiro vivo. Altos valores despejados em qualquer banco de praça no Rio de Janeiro, Brasília e alhures. Foram mais de 50 imóveis para estruturar a maior carteira de habitação familiar, a Casa Nostra, com rachaduras e fissuras estruturais.
No portfólio da Casa Nostra reluz a mansão de R$ 6 milhões do 01 em Brasília. O palacete de Flávio Bolsonaro, adquirido em 2021, custou R$ 5,97 milhões. O investimento representava mais do que o triplo dos bens declarados por ele em 2018. Ao TSE, o patrimônio informado foi de R$ 1,7 milhão. A escritura pública da mansão atestava o desembolso de R$ 2,8 mi a título de entrada e o financiamento bancário de outros R$ 3,1 mi. “La garantia soy yo”.
O crédito generoso foi um bônus de um banco público. O BRB — afundado no pântano do Master — era comandado por um aliado dos Bolsonaros, Ibaneis Rocha, ex-governador do DF. Flávio Bolsonaro e sua esposa informaram renda de R$ 36,9 mil mensais para beliscar o empréstimo de R$ 3,1 mi. Para tomadores comuns, a renda mínima exigida seria de R$ 46,4 mil/mês. A dívida de 30 anos, com prestação mensal de R$ 18,7 mil, comprometia 51% da renda do casal. Mas foi quitada antecipadamente, em julho de 2024. A banca agradeceu.
Botando banca no mercado presidencial, apostando em um ativo político muito volátil, Flávio Bolsonaro assistiu seu capital eleitoral derreter depois de ser flagrado pedindo uma fortuna ao banqueiro que comandou a maior fraude do país. Flávio dizia antes que Vorcaro era da conta petista, mas o cadastro no Master está em nome dos Bolsonaros. Aliás, quem colocou o crachá de banqueiro em Vorcaro foi o Banco Central da gestão Bolsonaro.
“Apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá? Mas, enfim, é porque está num momento muito decisivo aqui do filme. E como tem muita parcela para trás, cara, está todo mundo tenso, e eu fico preocupado aqui com o efeito ao contrário do que a gente sonhou para o filme, né? Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus, uns caras, pô, renomadíssimos lá no cinema americano, mundial. Pô, ia ser muito ruim”, cobrou Flávio a Vorcaro. Depois insistiu:
“Então, se você puder me dar um toque, uma posição aí, Daniel, porque a gente precisa saber o que faz, cara, da vida, porque eu já tenho muita conta para pagar este mês e o mês seguinte também. E agora que é a reta final, que a gente não pode vacilar. Não pode não honrar os compromissos aqui, porque senão a gente perde tudo, cara, todo o contrato, perde ator, perde diretor, perde equipe, perde tudo. Pode me dar um toque aí, irmão”, completou, referindo-se ao filme “Dark Horse”. Uma adaptação do Jumento de Troia, onde os inimigos eram íntimos, não conquistaram cidadela alguma e caíram do cavalo.
O áudio é de 8 de setembro de 2025. Dias antes, em 3 de setembro, a venda do Master para o BRB foi vetada no BC. Em 16 de novembro, Flávio voltou a exibir a fraternidade promíscua com o criminoso: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”. Um dia após a mensagem de Flávio, Daniel Vorcaro foi preso. O escândalo já era público, mas Flávio fez mais fita. Desmoralizado por sucessivas mentiras, o senador confessou, gaguejando, que visitou Vorcaro — já com a tornozeleira — e que seria para botar um “ponto final” no negócio. O BC liquidou o Master por falcatruas em 18 de novembro. Dias depois, Flávio visitou o vigarista. A legenda traduz tudo, e os argumentos de Flávio Bolsonaro têm lastros tão confiáveis quanto uma duplicata falsa. A mentira é curta no longa da ambição.
Outro membro do clã que mantém relações ambíguas com bancos é Eduardo Bolsonaro, deputado cassado. Ele pagou R$ 1 milhão em 2016 por um apartamento em Botafogo, Zona Sul do Rio. A escritura mostra que ele deu um sinal de R$ 81 mil e estava pagando, no ato, mais R$ 100 mil em “moeda corrente do país, contada e achada certa”. A maior parte, R$ 800 mil, foi financiada em um banco público, a CEF. Em 2011, Eduardo Bolsonaro comprou por R$ 160 mil outro imóvel; R$ 50 mil foram honrados em grana viva. Os jornais anotaram que Eduardo Bolsonaro adaptou versões e teria atuado como produtor e investidor da tal fita do cavalo paraguaio, e o advogado dele, Paulo Calixto, recebeu dinheiro do filme.
Carlos Bolsonaro é outro aplicado investidor do banco imobiliário da Casa Nostra, mas coadjuvante na fita delinquente. O jornal “O Estado de S. Paulo” mostrou que, em 2003, no primeiro mandato como vereador, pagou R$ 150 mil em dinheiro vivo por um imóvel na Tijuca. Um dos três imóveis comprados pelo vereador durante a vida pública foi adquirido por preço 70% abaixo do avaliado pela Prefeitura. O apart-hotel custou R$ 70 mil ao filho 02, quando o valor venal era de R$ 236 mil, estipulado pela prefeitura para cobrança de impostos.
A relação do clã com os bancos se tornou um pesadelo depois da ascensão das ações políticas e piorou depois do despejo dos palácios oficiais de Brasília. O pai, após curta temporada no presídio da Papuda, alegando problemas de saúde, voltou para prisão domiciliar e de lá assiste à casa cair. Os demais estão enfileirados no banco dos réus como protagonistas de um thriller de terror com indicadores de insolvência política, pelo excesso de passivos éticos. Com o escândalo Master, as ações do grupo apodreceram rapidamente e entraram em queda livre.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




