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Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

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Quando o império hesita: Trump, Ormuz e os limites da força americana

A própria economia mundial passou a funcionar como limite concreto para a aventura militar.

Donald Trump (Foto: REUTERS/Kevin Lamarque)

Há guerras que começam no campo militar e terminam no econômico. Há outras que sequer conseguem começar porque os custos econômicos se tornam insuportáveis antes mesmo do primeiro grande ataque.

A crise recente em torno do Estreito de Ormuz parece caminhar exatamente nessa direção.

Depois de meses de retórica agressiva, ameaças contra o Irã e alinhamento quase absoluto à estratégia do governo de Benjamin Netanyahu, o presidente Donald Trump acabou revelando algo que talvez seja muito maior do que um simples recuo tático: os limites concretos do poder americano diante de um mundo muito mais vulnerável, interdependente e menos controlável do que foi em outros períodos históricos.

A história do Estreito de Ormuz ajuda a entender por quê.

Desde os anos 1970, a região do Golfo Pérsico ocupa posição central na geopolítica global. Não apenas pelas reservas gigantescas de petróleo, mas porque dali sai parte decisiva da energia que alimenta as economias industriais do planeta.

O Estreito de Ormuz — uma estreita passagem marítima entre o Irã e Omã — tornou-se o principal gargalo energético do mundo contemporâneo. Cerca de um quinto do petróleo comercializado internacionalmente atravessa diariamente aquele corredor marítimo. Em alguns momentos, a proporção envolvendo petróleo e gás liquefeito destinados à Ásia é ainda maior.

Isso significa que qualquer ameaça à navegação na região provoca ondas imediatas nos mercados globais.

Não se trata apenas de petróleo mais caro. O impacto rapidamente se espalha para fertilizantes, alimentos, fretes marítimos, inflação, juros e crescimento econômico. Em um mundo profundamente financeirizado e dependente de cadeias logísticas globais, Ormuz funciona como uma espécie de artéria vital do capitalismo contemporâneo.

Foi exatamente isso que transformou o confronto com o Irã em algo muito mais delicado do que parte da retórica política americana sugeria.

Durante anos, Washington acostumou-se a operar militarmente em regiões periféricas sem enfrentar custos sistêmicos imediatos. As guerras do Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria produziram enorme devastação humana, mas não chegaram a ameaçar diretamente o funcionamento cotidiano da economia mundial.

O caso iraniano é diferente.

O Irã não é apenas um país isolado ou um inimigo regional. Trata-se de uma potência regional profundamente integrada às dinâmicas energéticas e estratégicas da Eurásia. Sua posição geográfica transforma qualquer confronto em potencial crise global.

E foi justamente essa realidade que começou a emergir quando Trump elevou o tom.

As ameaças de ataques mais amplos, o endurecimento contra Teerã e o apoio irrestrito às ações israelenses rapidamente produziram reações nos mercados financeiros e energéticos. O preço do petróleo disparou. Seguradoras elevaram prêmios de risco no transporte marítimo. Países asiáticos passaram a pressionar discretamente por contenção. Grandes importadores de energia perceberam que uma escalada prolongada poderia produzir um choque global de enormes proporções.

A China acompanhou tudo com enorme atenção.

Não por acaso. A economia chinesa depende profundamente da estabilidade das rotas energéticas do Golfo. Japão, Coreia do Sul, Índia e diversos países asiáticos também. Um conflito de larga escala em Ormuz significaria não apenas inflação energética, mas ameaça concreta às cadeias industriais que sustentam boa parte da economia mundial.

É nesse ponto que a narrativa começa a mudar.

Trump construiu sua imagem política com base na ideia de força permanente, imprevisibilidade e disposição para ir até o limite. Durante anos, apresentou-se como o líder que jamais recua.

Mas o problema das políticas baseadas em demonstrações contínuas de força é que elas criam armadilhas para quem as utiliza.

Quando o custo real da escalada aparece, o recuo passa a ser interpretado politicamente como fraqueza.

E é exatamente isso que começa a surgir no debate americano.

A expressão “chickens out”, amplamente utilizada na linguagem política anglo-saxã, significa algo próximo de “amarelou” ou “recuou por medo”. Não é apenas prudência estratégica. Carrega a ideia de alguém que ameaçou muito, elevou a aposta ao máximo, mas hesitou diante das consequências reais.

Parte da imprensa internacional e setores conservadores americanos já começam a utilizar essa leitura.

E há razões para isso.

Trump percebeu que os Estados Unidos poderiam iniciar facilmente uma escalada militar contra o Irã. A dificuldade real estaria no dia seguinte: conter as consequências econômicas, energéticas e geopolíticas de um conflito capaz de desorganizar parte importante da economia mundial.

Diferentemente de conflitos anteriores, uma guerra envolvendo diretamente o Irã não produziria impactos localizados. Ela atingiria imediatamente o coração do sistema energético mundial.

Mais do que isso: poderia empurrar a economia global para uma combinação explosiva de inflação, desaceleração econômica, alta de juros e insegurança alimentar.

O mundo já vive forte pressão sobre fertilizantes, combustíveis e cadeias logísticas desde os conflitos recentes. Um bloqueio efetivo — ou mesmo uma instabilidade prolongada — em Ormuz teria potencial de aprofundar dramaticamente esse cenário.

Para os próprios Estados Unidos, o custo político também seria elevado.

Trump tenta retornar ao centro da política americana como símbolo de força e recuperação econômica. Uma crise energética global provocada por uma escalada militar poderia atingir exatamente o eleitorado que ele busca mobilizar: consumidores pressionados por inflação, combustíveis caros e perda de renda.

Foi aí que surgiu o limite.

Não necessariamente um limite militar. Mas um limite sistêmico.

Mas talvez o aspecto mais revelador de toda a crise seja outro.

O episódio expôs os limites de uma política externa baseada na arrogância, na intimidação permanente e na crença de que demonstrações de força bastam para dobrar adversários e disciplinar o mundo.

Trump parece ter acreditado que poderia repetir, contra o Irã, a lógica de pressão extrema que marcou outros momentos da política americana recente: ameaçar, escalar, intimidar e esperar que o adversário recue primeiro.

Mas o mundo que emerge no século XXI já não responde automaticamente dessa maneira.

O quadro, evidentemente, não transforma o regime iraniano em vítima inocente da história. O governo de Teerã enfrenta críticas internacionais persistentes por repressão política, perseguição a dissidentes e violações de direitos humanos. 

Assim, a limitação do apoio internacional ao Irã não decorre apenas da pressão ocidental ou da geopolítica, mas também do desgaste produzido pelo próprio regime iraniano em temas de direitos humanos.

O caso da ativista e prêmio Narges Mohammadihá e, também, de Nasrin Sotoudeh, advogada e defensora histórica dos direitos das mulheres no Irã,  presas em Teerã, e mantidas sob condições alarmantes de detenção, ajudam a explicar por que o Irã encontra dificuldades para construir apoio político mais amplo no Ocidente.

Casos como

Narges Mohammadi, prêmio Nobel da Paz

Nasrin Sotoudeh, advogada e defensora histórica dos direitos das mulheres no Irã, e

Mahsa Amini, presas em Teerã, e mantidas sob condições alarmantes de detenção, expôs internacionalmente a violência do aparato moral iraniano.

A repressão às mulheres tornou-se uma das faces mais visíveis do autoritarismo iraniano contemporâneo.

A natureza profundamente patriarcal e repressiva do regime iraniano — especialmente em relação às mulheres — ajuda a explicar parte de seu isolamento político internacional.

Mas reconhecer o autoritarismo interno e o caráter sanguinário do regime iraniano não elimina outra realidade: uma escalada militar no Golfo continuaria representando enorme risco para a estabilidade econômica e política do mundo. 

O Irã não cedeu. Os mercados reagiram. A Ásia pressionou silenciosamente por contenção. O sistema energético global revelou sua fragilidade. E a própria economia mundial passou a funcionar como limite concreto para a aventura militar.

Foi nesse ponto que a retórica encontrou a realidade.

A arrogância estratégica de Trump esbarrou num fato simples: já não é possível incendiar uma região central do sistema mundial sem correr o risco de provocar uma crise econômica, energética e geopolítica de dimensões incontroláveis.

E talvez seja exatamente isso que tenha produzido o recuo.

Não uma súbita conversão à prudência.

Mas a percepção tardia de que transformar ameaças em guerra real poderia lançar o próprio mundo — inclusive os Estados Unidos — numa crise grande demais até mesmo para Washington controlar.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.