Quando inclusão se torna política de Estado
Trata-se de permitir que filhos da classe trabalhadora tenham acesso às mesmas ferramentas que, durante décadas, foram exclusivas das camadas mais privilegiadas
Talvez um dos abismos mais profundos da desigualdade brasileira tenha sido o do acesso ao saber. Aprender um segundo idioma, ler bons livros ou consumir produções audiovisuais de qualidade eram oportunidades historicamente reservadas às famílias da elite. Por muito tempo - muito mais do que deveria -, o acesso ao conhecimento, à cultura e à formação de qualidade foi tratado como privilégio no Brasil.
É por isso que resolvemos chamar a atenção para iniciativas do governo federal, como o MEC Idiomas, o MEC Livros e a plataforma Tela Brasil, que merecem ser analisadas para além de sua utilidade imediata. Elas representam uma concepção de Estado que entende o conhecimento e a cultura como direitos, e não como mercadorias.
O MEC Idiomas é um exemplo eloquente dessa visão. A plataforma oferece gratuitamente cursos de inglês e espanhol, do nível básico ao avançado, com cerca de 800 aulas, certificação e recursos de inteligência artificial para auxiliar na aprendizagem. Em poucos dias, já ultrapassou a marca de 212 mil usuários ativos em todo o país. Mais do que ensinar idiomas, a iniciativa rompe uma barreira histórica que separava milhões de brasileiros das oportunidades acadêmicas, profissionais e culturais proporcionadas pelo domínio de uma língua estrangeira.
Não se trata apenas de aprender inglês ou espanhol. Trata-se de permitir que filhos da classe trabalhadora tenham acesso às mesmas ferramentas que, durante décadas, foram praticamente exclusivas das camadas mais privilegiadas da sociedade. Trata-se de ampliar horizontes, abrir portas e reduzir desigualdades.
O mesmo raciocínio vale para o MEC Livros. Ao disponibilizar gratuitamente milhares de obras em formato digital, reunindo clássicos em domínio público e obras contemporâneas licenciadas, a plataforma ajuda a construir uma verdadeira biblioteca nacional acessível a qualquer cidadão com acesso à internet. O projeto já reúne dezenas de milhares de títulos e centenas de milhares de usuários cadastrados.
Pode parecer algo simples, mas não é. O preço dos livros ainda representa um obstáculo para grande parte da população brasileira. Ao transformar a leitura em um direito efetivamente acessível, o Estado contribui para formar leitores, estimular o pensamento crítico e ampliar o repertório cultural da população.
Que maravilhoso viver em um país que democratiza livros ao invés de armas. É sobre isso.
A Tela Brasil - ou LulaFlix -, por sua vez, talvez seja uma das iniciativas mais simbólicas desse novo momento. O primeiro serviço público de streaming audiovisual do país já disponibiliza mais de 500 obras nacionais gratuitamente, sem publicidade, sem mensalidade e sem exploração comercial dos dados dos usuários. O catálogo reúne filmes, séries, documentários e produções que atravessam mais de um século da história cultural brasileira.
Num mundo em que algoritmos privados determinam o que vemos, ouvimos e consumimos, oferecer acesso gratuito à produção cultural brasileira é também um ato de soberania. Um povo que conhece sua própria história, sua diversidade e suas manifestações artísticas é um povo mais consciente de si mesmo.
Há quem banalize essas políticas. Quem não compreenda o valor de um livro, a força edificante de “poder, se quiser”, e é justamente sobre isso. Na realidade, essas ferramentas são investimentos em capital humano, cidadania e desenvolvimento nacional. Países que alcançaram altos níveis de desenvolvimento não o fizeram restringindo o acesso ao conhecimento, mas ampliando-o. A educação, a ciência e a cultura sempre foram instrumentos de mobilidade social e fortalecimento democrático.
O Brasil convive há séculos com estruturas que reproduzem privilégios. Durante gerações, o acesso à cultura, à formação intelectual e aos idiomas estrangeiros funcionou como uma espécie de fronteira invisível entre os que podiam e os que não podiam. Entre os que tinham acesso às oportunidades e os que eram condenados a observá-las à distância.
Com essas iniciativas, o governo Lula está derrubando muros. Está reduzindo distâncias sociais. Está afirmando que o conhecimento não deve ser um patrimônio de castas, mas um bem comum.
A democratização do acesso ao saber é uma das formas mais profundas de distribuição de riqueza que uma sociedade pode realizar. Porque conhecimento gera autonomia. Cultura gera identidade. Educação gera liberdade.
Um país só será verdadeiramente democrático quando aquilo que antes era privilégio de poucos se transformar em direito de todos. E quando isso acontece, não estamos diante de um gasto público, mas de um projeto de país. Que golaço, presidente Lula!
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




