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Florestan Fernandes Jr

Florestan Fernandes Júnior é jornalista, escritor e Diretor de Redação do Brasil 247

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PSD, Kassab e o redesenho do tabuleiro eleitoral

Preterido na disputa para ser ou indicar o vice de Tarcísio, Kassab tende a se reposicionar como articulador de uma alternativa entre Lula e o bolsonarismo

O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)

O anúncio da saída de Gilberto Kassab do governo de Tarcísio de Freitas, onde ocupava a Secretaria de Relações Institucionais, longe de ser um movimento trivial, altera significativamente o tabuleiro das eleições de 2026.

E não é por acaso. Como presidente do PSD, Kassab comanda hoje a legenda com o maior número de prefeituras do país: são 885 municípios. Só em São Paulo, o partido administra 208 cidades, o dobro do PL de Jair e Flávio Bolsonaro. Além disso, o PSD reúne seis governadores e ocupa três ministérios no governo Lula, o que o posiciona como uma força decisiva no xadrez político nacional.

Preterido na disputa para ser ou indicar o vice de Tarcísio, Kassab tende agora a se reposicionar como articulador de uma alternativa entre Lula e o bolsonarismo. A chamada “terceira via”, frequentemente evocada por setores da mídia hegemônica, volta ao centro do debate. Com Ratinho Jr. fora do páreo nacional e focado no cenário paranaense, cresce a possibilidade de Eduardo Leite despontar como o nome do PSD à Presidência da República.

Recém-filiado ao partido, Leite reúne atributos que agradam à chamada “direita moderada”, especialmente aos órfãos do PSDB. Para esse campo, o governador gaúcho encarna uma candidatura palatável, capaz de sustentar o discurso de superação da polarização. Nesse cenário, leva vantagem sobre o ruralista Ronaldo Caiado, cuja trajetória recente o aproxima, e muito, do bolsonarismo raiz, sobretudo após sua participação em manifestações em defesa da anistia a Jair Bolsonaro.

Ainda assim, a tentativa de Eduardo Leite de se distanciar do bolsonarismo encontra limites em sua própria história recente. Em 2018, declarou apoio a Jair Bolsonaro no segundo turno, sob a justificativa de que o PT “não era exemplo de democracia”. À época, o “paradigma” democrático escolhido incluía um projeto político que, anos depois, culminaria nos episódios de 8 de janeiro de 2023, marcados por uma tentativa fracassada de ruptura institucional.

Caso seja alçado por Kassab e pelo PSD à condição de candidato presidencial, Leite contará com o respaldo de parcelas expressivas da mídia e da elite econômica, além do apoio simbólico do que restou das antigas bases tucanas. Ainda assim, isso pode ser insuficiente para levá-lo ao segundo turno.

Não parece haver espaço consistente para seu crescimento no chamado centro democrático, hoje amplamente ocupado pela chapa Lula-Alckmin. Mais do que uma polarização simétrica, o cenário atual revela a presença de uma extrema-direita de viés golpista, sustentada por uma parcela relevante, fiel e resiliente do eleitorado, que dificilmente migrará para um perfil considerado “suave”.

Resta saber se Eduardo Leite, caso fique fora de um eventual segundo turno, adotaria uma postura em defesa da democracia semelhante à de candidatas como Simone Tebet e Soraya Thronicke que, derrotadas em 2022, declararam apoio a Lula. É pouco provável. Leite tem um lado bem definido. Seu histórico prestigia os interesses das elites econômicas do país, que defendem uma agenda fiscal em exclusivo benefício próprio, ainda que em detrimento da própria democracia.

No fim das contas, a chamada “terceira via” não passa de uma reedição de velhos compromissos: uma alternativa que se apresenta como novidade, mas que, ao evitar conflitos reais, acaba apenas administrando a mesma lógica que diz combater. Em um país atravessado por disputas profundas e sob a influência de um cenário internacional instável, vide os movimentos de Donald Trump, inclusive nos países vizinhos, a neutralidade soa menos como equilíbrio e mais como omissão calculada.

Em tempos de um novo governo Trump nos EUA, o Brasil se vê entre a defesa de sua soberania e a rendição aos interesses de um imperialismo de caráter colonial. Esse fator torna ainda mais sensível a eleição que se avizinha.

Quanto a Kassab, a flexibilidade ideológica continua sendo seu principal ativo. Fiel ao lema de que “quem ganha não governa sozinho” (ou o clássico “¿Hay gobierno? ¡Soy a favor!”), ele prepara o PSD para influenciar ativamente no xadrez de 2026.

Seja qual for o resultado das urnas, uma coisa é certa: Kassab será governo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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