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Olímpio Cruz Neto

⁠Jornalista e analista de Risco Institucional e Geopolítica. Foi consultor do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) em Xangai, diretor de Relações Institucionais da GAC Brasil e secretário de Imprensa da Presidência da República

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Pequim, o G2 e o lugar do Brasil

O encontro entre Trump e Xi não foi sobre diplomacia, mas um aviso sobre como o poder começa a se reorganizar — e sobre o que isso exige do Brasil

O presidente chinês, Xi Jinping, e o presidente dos EUA, Donald Trump, têm uma reunião privada em Zhongnanhai, em Pequim, capital da China, em 15 de maio de 2026 (Foto: Xinhua/Yan Yan)
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Quando Richard Nixon pisou em Pequim, em 21 de fevereiro de 1972, a China era um querubim rebelde que não estava na órbita da União Soviética e era dirigida com mão de ferro por Mao Zedong. O país era essencialmente agrário e os Estados Unidos, a superpotência que moldou o século 20. Meio século depois, outro encontro reuniu os comandantes das duas maiores economias do mundo.

A reunião entre Donald Trump e Xi Jinping, em Pequim, concluída na sexta-feira, 15, mantém as duas potências em campos de antagonismo, mas a América parece operar em posição defensiva. O encontro não tratou apenas de aliviar as tensões comerciais ou estabilizar os mercados. O que se viu foi algo profundo: uma demonstração de que o sistema internacional começa a operar sob outra lógica.

A China não se apresentou como desafiante. Apresentou-se como par. Essa é a mudança central. Durante décadas, a política internacional foi organizada a partir da primazia americana. Pequim cresceu dentro desse sistema, testou seus limites e, pouco a pouco, passou a disputar seus termos. Em Pequim, pela primeira vez de forma tão explícita, a mensagem foi outra: não se trata mais de alcançar os Estados Unidos, mas de negociar com eles de igual para igual.

A forma como a mídia global reagiu ajuda a entender o alcance dessa mudança. Nos Estados Unidos, o encontro foi lido com desconforto. A ênfase recaiu sobre o caráter transacional da visita, a busca por acordos comerciais e a dependência americana de resultados imediatos em meio a pressões internas e externas. A guerra no Golfo, o impacto sobre energia e inflação, tudo isso pesou sobre a posição de Trump.

Na Europa, a reação foi mais aguda. Não por acaso. Para muitos analistas europeus, o encontro em Pequim não foi apenas um episódio da rivalidade entre grandes potências. Foi um sinal de deslocamento. A percepção de que Estados Unidos e China podem operar, cada vez mais, como um eixo próprio — tomando decisões que afetam o restante do mundo sem necessariamente levá-lo em conta.

Não se trata de uma aliança. Mas tampouco de uma rivalidade convencional. É algo pragmático. Há o entendimento de que, em determinados momentos, os interesses das duas potências podem convergir — ainda que temporariamente — para estabilizar mercados, evitar escaladas ou reorganizar fluxos.

Para a Europa, isso tem implicações diretas. Acostumada a operar sob o guarda-chuva estratégico americano, o continente começa a perceber que esse arranjo já não oferece o mesmo grau de previsibilidade. A ansiedade europeia não é apenas econômica. É existencial. Os europeus observam um novo desenho do xadrez internacional. Estão temerosos e receiam que a Europa tenha ficado para trás.

O encontro em Pequim sugere que o sistema internacional pode estar entrando em uma fase de bipolaridade funcional, ainda que imperfeita. Um G2 que não precisa ser formalizado para operar. Basta que seus efeitos sejam sentidos. E eles já são sentidos.

Quando Estados Unidos e China conversam, cadeias produtivas se ajustam, os mercados reagem e as decisões industriais são recalibradas. Países terceiros — incluindo o Brasil — passam a ser afetados por escolhas nas quais não têm participação direta.

É aqui que a questão brasileira começa de fato.

O Brasil não está no centro dessa mesa. Mas também já não está fora do jogo. A crise recente no Estreito de Ormuz mostrou que, em um ambiente de instabilidade, países capazes de oferecer previsibilidade passam a ser reavaliados. Energia, logística, minerais críticos — tudo isso recoloca o Brasil no radar de parceiros que buscam reduzir riscos.

O encontro entre Trump e Xi reforça essa tendência por outro caminho. Ao sinalizar uma reorganização do poder global, o G2 em Pequim amplia a necessidade de diversificação. Nenhum ator relevante deseja depender excessivamente de um único polo — seja ele Washington ou Pequim. Isso abre espaço para países que consigam oferecer estabilidade, recursos e alguma capacidade de articulação. Mas essa é apenas a metade da história. A outra metade é mais incômoda.

Ser relevante como fornecedor não é o mesmo que ser relevante como decisor. O risco para o Brasil é claro: tornar-se peça útil em um sistema reorganizado por outros. Exportar energia, minerais e estabilidade enquanto tecnologia, inovação e controle das cadeias continuam concentrados fora. O governo Lula, ao intensificar relações com a China e ao mesmo tempo reaproximar-se da Europa, parece reconhecer essa encruzilhada. Mas só reconhecer não resolve. No passado, Oswaldo Aranha arrancou grandes vantagens para o desenvolvimento num ambiente internacional polarizado. Agora, o que queremos?

A questão central não é com quem o Brasil se alinha. É como o Brasil se posiciona dentro de um sistema que já não é mais unipolar, mas também ainda não é plenamente multipolar. A China oferece escala, financiamento e velocidade. Os Estados Unidos ainda concentram poder tecnológico e influência estratégica. A Europa busca reorganizar sua base industrial em meio a pressões internas e externas. O Brasil, por sua vez, oscila.

O país tem ativos claros — energia, território, base científica, posição geográfica. Mas ainda carece de uma estratégia consistente para transformar esses ativos em poder econômico duradouro. No novo século do G2 que redesenha a rivalidade tecnológica, o que vamos extrair para o desenvolvimento nacional? 

O encontro em Pequim não define o futuro. Mas ajuda a iluminar o terreno. Mostra que o mundo caminha para uma lógica menos previsível, mais fragmentada e, ao mesmo tempo, mais concentrada em alguns poucos polos de decisão. E sugere que o espaço para países intermediários não desapareceu — mas mudou de natureza.

Deixar de ser apenas participante e passar a influenciar exige mais do que presença diplomática. Exige coordenação interna, visão de longo prazo e capacidade de transformar oportunidade em estratégia. O Brasil já foi surpreendido por mudanças dessa magnitude antes. A diferença, agora, é que os sinais estão dados. Resta saber se o país pretende apenas se adaptar — ou decidir, enfim, como quer jogar.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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