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Luciano Rezende Moreira

Professor titular do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). Doutor e mestre em Ciências Agrárias, é graduado em Agronomia (UFV), Geografia (UERJ), Administração Pública (UFF) e Letras (UFF)

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“Ócio demais faz mal”: a ideologia fascista por trás da jornada 6x1

Defender o fim da jornada 6x1 não é defender preguiça. É defender dois dias fixos de descanso

Marcos Pereira (Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados)

Em entrevista à Folha de São Paulo nesta semana, o presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, afirmou ser contrário ao debate sobre o fim da jornada 6x1 e, para justificar sua posição, resumiu sua filosofia em uma frase memorável: “ócio demais faz mal”.

Afinal, imaginem o risco de trabalhadores com dois dias fixos de descanso. Pessoas com tempo para recuperar o corpo, conviver com a família, estudar, praticar um esporte ou simplesmente não fazer nada por algumas horas. Que ameaça à ordem! Que instabilidade para a economia! Parece que, no Brasil, o verdadeiro perigo não é o excesso de cansaço, mas o excesso de descanso.

E é nesse clima que floresce um tipo curioso de campeonato espalhado pela extrema direita: o campeonato de quem trabalha mais. Disputam ferozmente quem está no pódio do sacrifício. Estufam o peito para bradar que trabalham sete dias por semana. Vangloriam-se em dizer que não descansam. Se orgulham ao afirmar que não tiram férias. Em síntese, não param nunca. E fazem questão de contar isso com heroísmo, como se estivessem exibindo uma medalha. Quanto menos dormem, mais virtuosos se sentem. Quanto menos descansam, mais moral acreditam ter.

Curioso é que muitos dos que lideram esse campeonato não são exatamente aqueles que acordam às quatro da manhã para pegar ônibus lotado. São aqueles que juram trabalhar mais do que todos, que repetem que “não têm horário”, que vivem “sob pressão”. Mas, quando se olha de perto, seu grande esforço consiste em gerenciar o trabalho dos outros. Não batem ponto, não enfrentam fila no transporte, não passam oito horas em pé numa fábrica ou atrás de um balcão. Decidem a vida dos outros, cobram resultados, assinam papéis e chamam isso de exaustão. Administrar o suor alheio virou sinônimo de sacrifício pessoal. E, ainda assim, apresentam-se como mártires do trabalho, como se carregar uma planilha fosse o mesmo que carregar sacos de cimento nas costas.

Confesso que se essa for a regra do jogo, eu também, como professor com dedicação exclusiva, poderia disputar esse campeonato. Não me lembro de um único domingo em que não tenha lido um livro, escrito algumas páginas ou estudado algum texto. Enquanto milhões de brasileiros usam o único dia de folga para lavar roupa, limpar a casa, resolver problema atrasado ou fazer um bico para completar a renda, eu estou com um caderno aberto. Enquanto muitos tentam recuperar o corpo para sobreviver à próxima semana, eu estou organizando ideias. Trabalho todos os dias. Sete por semana. Mas é justamente aí que a conversa precisa mudar.

Eu faço isso porque posso. Porque gosto. Porque escolho. Porque, depois de uma semana de trabalho, meu corpo não está destruído a ponto de não conseguir manter os olhos abertos diante de uma página. Meu “trabalho extra” não é carregar peso, nem passar o dia inteiro em pé atrás de um balcão, nem cortar carne em câmara fria, nem dirigir ônibus lotado sob pressão constante, nem enfrentar sol e poeira numa obra. Meu esforço adicional consiste, muitas vezes, em virar páginas e pensar.

Que prova de resistência impressionante! Merecia uma estátua!

O problema não é trabalhar muito. O problema é fingir que todo trabalho é igual. O problema é transformar privilégio em lição de moral.

O pedreiro que acorda às quatro da manhã não está disputando campeonato nenhum; ele está tentando pagar as contas. A operadora de caixa que passa seis dias por semana em pé não está colecionando medalhas; está sobrevivendo. O entregador que pedala quilômetros sob sol e chuva não quer troféu; quer tempo para descansar sem culpa.

Essas pessoas não chegam em casa com energia para escrever um artigo ou estudar filosofia. Chegam querendo tirar o sapato e aliviar a coluna. Chegam lutando contra o sono. Chegam contando as horas para recomeçar tudo outra vez.

E é nesse ponto que entra a jornada 6x1, esse arranjo que parece normal apenas porque nos acostumamos com ele. Trabalha-se seis dias. Descansa-se um. Um único dia que deveria ser de repouso, mas vira o dia de lavar roupa, limpar a casa, resolver pendência, visitar parentes, fazer compra, consertar o que quebrou durante a semana. Quando sobra tempo, sobra cansaço. E quando sobra cansaço, não sobra leitura, não sobra estudo, não sobra esporte, não sobra cultura, não sobra sonho.

Mesmo assim, do alto de nossas cadeiras confortáveis, ainda há quem diga que o problema do país é falta de esforço. Talvez o problema não seja falta de esforço. Talvez seja excesso dele, sempre concentrado nos mesmos corpos.

Bertrand Russell já alertava, há quase um século, que a humanidade produzia o suficiente para trabalhar menos. O obstáculo não era técnico, era moral. Criamos uma religião do trabalho. E toda religião cria seus fiéis mais fervorosos, especialmente aqueles que transformam o próprio privilégio em sermão contra os outros.

Defender o fim da jornada 6x1 não é defender preguiça. É defender dois dias fixos de descanso. Dois dias para que o trabalhador possa recuperar o corpo e, se quiser, ampliar a mente. Dois dias para que o domingo não seja apenas intervalo fisiológico, mas possibilidade humana. Tempo livre não é luxo. Tempo livre é dignidade.

Sem tempo livre, a vida vira um ciclo apertado: acordar, trabalhar, voltar exausto, dormir, repetir. Dorme-se para aguentar o próximo turno. Come-se para não desmaiar. Descansa-se apenas o suficiente para continuar produzindo. É uma engrenagem que gira sem perguntar se quem gira dentro dela gostaria de algo mais.

E talvez seja justamente isso que incomode, ou seja, um povo com tempo para estudar e adquirir senso crítico. Um povo que tenha tempo para se organizar coletivamente. Um povo que tem dois dias seguidos para respirar começa a imaginar que pode viver mais do que apenas sobreviver.

Eu continuarei lendo aos domingos. Continuarei escrevendo. Provavelmente continuarei trabalhando sete dias por semana porque gosto e porque posso. Mas me recuso a transformar essa escolha em chicote moral contra quem não tem as mesmas condições.

Precisamos defender que milhões de trabalhadores brasileiros tenham a chance real de transformar um dia de descanso em algo além de recuperação física. Que possam estudar sem estar mortos de cansaço. Que possam praticar um esporte, participar de um curso, tocar um instrumento musical, ou simplesmente sentar e ler sem sentir que estão roubando horas do próprio sono.

Daí surge a velha pergunta: quem vai pagar por isso? A classe trabalhadora já pagou, com juros e correção monetária. Essa conta deveria ser apresentada, por exemplo, aos oito multimilionários que, sozinhos, detêm mais riqueza do que quatro bilhões de trabalhadores no mundo inteiro. Riqueza que não brotou da genialidade isolada, mas do trabalho coletivo de milhões. Tributar grandes fortunas, lucros e dividendos não é radicalismo; é justiça elementar. É uma forma concreta de financiar a redução da jornada, garantir dois dias reais de descanso e devolver ao trabalhador o tempo livre que lhe é roubado pela extração da mais-valia. Mas sempre que essa proposta aparece, a extrema direita corre para defendê-los, como se proteger bilionário fosse dever cívico e garantir descanso ao trabalhador fosse ameaça à civilização.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.