O voto do ressentido
Ressentimento, machismo e bolsonarismo se cruzam na formação de um voto marcado por frustração, preconceito de classe e recusa à alteridade
As reflexões sobre ressentimento me conduziram à conexão com o machismo e, por sua vez, ao bolsonarismo.
Quase todo taxista, motorista de Uber, como empresário do agro, me revelou "não gostar do Lula". Tentam mudar de assunto quando questiono os motivos. Um fazendeiro bem-sucedido confessou que foi nos governos Lula que mais ganhou dinheiro. Contudo, algo o impede de simpatizar com ele. Considera injusto que um nordestino tenha maior relevância e prestígio do que ele, que trabalhou a vida toda, testemunhando ressentimento, incômodo de classe.
O machismo circula em torno de preconceitos, na lógica da disputa. A dificuldade em aceitar que o outro, o diferente, possa suplantá-lo, é da ordem do insuportável. Como posso me distanciar do tripé: poder, sexo e dinheiro sem me angustiar? O ressentido procura alguém para atacar, derrubar, jorrar sua ira. No fundo, precisa se livrar do sofrimento, transferindo-o a um outro, tipo: sofra no meu lugar, por favor?
O ressentido não consegue se livrar do sentimento de fracassado, humilhado, cultivando apego ao sofrimento, eternizando-se no gozo — dor que se apresenta na antessala do sono, na penumbra do tormento.
Ocorre quando o sujeito se sente oprimido, sufocado e perdido entre práticas sociais que lhe ensinaram e que não funcionam mais. Experiências das quais não consegue se separar subjetivamente. Como bancar o macho sem esconder a frustração? Como submeter sem se envergonhar?
Eis a conexão entre ressentimento, machismo, misoginia e feminicídio.
O homem que cresceu acreditando na superioridade do macho, cultivando a fantasia de que "ser homem bastaria", não está bem dentro da própria pele.
Sofre ao se recusar a rever conceitos e posturas, crenças e valores. Como reconhecer que aceitar fracassos e frustrações não é confissão de humilhação, mas de maturidade emocional, dignidade diante de revisão — retificação subjetiva, contradição que cerca a condição humana.
Acredito que a saída para avançarmos rumo a uma vida amorosa, familiar e cidadã menos violenta, conturbada, com menos feminicídios, esteja na educação que ensine os homens a lidar com os sentimentos, aceitar as frustrações, respeitando os limites impostos pela convivência. Sem noção de alteridade, não há respeito pelo diferente, pelo contraditório.
O ressentido vai sempre votar no candidato que melhor compactue com seu sentimento de fracassado, incentivando-o a apelar, a se impor pela força — atos de covardia e insensatez.
O ressentimento social é sentido como uma injustiça diante da ordem simbólica fundada na meritocracia, quando o melhor nascido merece ser reconhecido e agraciado. O ressentido é um revoltado, um inconformado.
Lugar de nordestino é de porteiro de prédio e não na Presidência da República.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

