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Emir Sader

Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

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O sigiloso sucessor do capitalismo

No tecnofeudalismo, uma nova classe dominante obteria seu poder da propriedade de um capital na nuvem, cujos tentáculos enredam todo o mundo

O sigiloso sucessor do capitalismo (Foto: Gerada por IA)

Com esse subtítulo, o ex-ministro da economia da Grécia, Yanis Varoufakis, publicou seu principal livro: Tecnofeudalismo.

Na sua concepção, o capitalismo estaria morto, no sentido de que sua dinâmica já não dirige as economias atuais. Esse papel passou a ser desempenhado, na sua concepção, por algo fundamentalmente diferente, que chama de “tecnofeudalismo”.

No centro da sua visão há uma ironia que pode parecer confusa: a de que o que teria matado o capitalismo seria o próprio capital. Não o capitalismo como o compreendemos desde o início da era industrial, mas o que seria uma nova forma de capital, uma mutação surgida nas duas últimas décadas, muito mais poderosa que sua predecessora.

Duas causas são as primordiais: 1) a privatização da internet, levada a cabo pelas grandes tecnológicas norte-americanas e chinesas; e 2) a maneira como os governos ocidentais e os bancos centrais responderam à grande crise financeira de 2008.

Seu livro aborda o que o capitalismo faz de si mesmo. A mutação do capital, que ele chama de “capital na nuvem”, demoliu os dois pilares do capitalismo: os mercados e os lucros. Ambos continuam onipresentes, mas já não exercem o controle de antes.

O que aconteceu nas duas últimas décadas é que o lucro e os mercados teriam sido expulsos do epicentro do sistema econômico e social, foram deslocados para as suas margens e foram substituídos. Os mercados, o meio do capitalismo, foram substituídos, na sua visão, por plataformas de comércio digital, que parecem mercados, mas que não o são, e que podem ser melhor entendidas se forem consideradas feudos.

E o lucro, o motor do capitalismo, teria sido substituído por seu predecessor feudal, a renda. Em concreto, uma forma de renda que deve ser paga para ter acesso a essas plataformas e, em geral, à nuvem, o que ele chama de “renda da nuvem”.

Dessa forma, o poder real, na sua concepção, não seria ostentado pelos proprietários do capital tradicional, isto é, a maquinaria, os edifícios, as redes ferroviárias e telefônicas, os robôs industriais. Estes continuam extraindo lucros dos trabalhadores, pela via da mão de obra assalariada, mas já não mandariam como antes.

Teriam se convertido em vassalos de uma nova classe feudal, os proprietários do capital na nuvem. Isto tem alguma relevância na nossa forma de viver e experimentar a vida? Seria necessário reconhecer que o nosso mundo teria se tornado tecnofeudal ajudaria a resolver questões grandes e pequenas, desde a esquiva revolução da energia verde até a nova guerra fria entre os Estados Unidos e a China, da morte do indivíduo liberal e a impossibilidade da social-democracia de realizar a falsa promessa das criptomoedas até a urgente questão de como recuperar nossa autonomia e também nossa liberdade.

Esta realidade social substituiu o capitalismo por algo que ele considera muito mais desagradável, o tecnofeudalismo. Para descrever o tecnofeudalismo, ele primeiro tem que explicar o que chama de assombrosas metamorfoses que viveu o capitalismo nas últimas décadas.

No feudalismo, o poder da classe dominante procedia da propriedade de terras que a maioria não poderia ter, mas às quais estava vinculada. No capitalismo, o poder derivava de um capital que a maioria não possuía, mas com o qual tinha que trabalhar para sobreviver.

No tecnofeudalismo, uma nova classe dominante obteria seu poder da propriedade de um capital na nuvem, cujos tentáculos enredam todo o mundo.

O capital na nuvem se define, fisicamente, como a acumulação de maquinaria conectada em rede, software, algoritmos baseados em IA e hardware de comunicações que percorrem todo o planeta e realizam uma ampla variedade de tarefas, novas e antigas.

Por exemplo: incitar milhões de pessoas não assalariadas (servos da nuvem) a trabalhar grátis (e frequentemente de maneira inconsciente) para repor o estoque de capital na nuvem (por exemplo, subir fotos e vídeos no Instagram ou no TikTok, ou colocar críticas de filmes, restaurantes e livros).

Apagar as luzes enquanto nos recomendam livros, filmes, férias etc., que estão tão impressionantemente em sintonia com nossos interesses que, no futuro, estaremos predispostos a adquirir outros bens que se vendam nos feudos ou plataformas na nuvem (por exemplo, amazon.com), que funcionam com a mesma rede digital que nos ajuda a apagar as luzes enquanto nos recomenda livros, filmes, férias etc.

Utilizar a IA e o big data para dirigir o labor dos trabalhadores (os proletários na nuvem) na fábrica, ao mesmo tempo que impulsionam as redes de energia, os robôs, os caminhões, as linhas de produção automatizadas e as impressoras 3D que superam a fabricação convencional.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.