O que os lavadores de dinheiro da Faria Lima têm que Deolane nunca terá
“A proteção das corporações de mídia aos parceiros do PCC é exclusiva para os bacanas do centro financeiro de São Paulo”, escreve Moisés Mendes
Prenderam de novo a advogada e influencer Deolane Bezerra por lavagem de dinheiro. Deolane foi presa pela segunda vez e, se for solta, será presa de novo. Mas nunca se ouviu falar de nenhum banqueiro de fintech preso por lavagem de dinheiro do PCC.
Ninguém mais vê manchetes sobre a Faria Lima nos jornalões, porque a grife que cobrava bom senso do governo e arrocho fiscal está baleada. O PCC tirou do mundo liberal o direito de usar Faria Lima como grito de guerra.
Mas ninguém sabe de ninguém da Faria Lima, entre as mais de 40 fintechs investigadas na Operação Carbono Oculto, que tenha sido preso. Poucos devem saber os nomes de algumas dessas dezenas de fintechs.
Ninguém sabe os nomes dos donos e de seus executivos acumpliciados com o PCC. Mas Deolane Bezerra, uma celebridade, está de novo nas manchetes. A Globo, que vem apresentando uma série sobre as organizações criminosas, foca as pautas no PCC.
Mas a referência nas reportagens à Faria Lima, como no capítulo apresentado na quarta-feira, no Jornal Hoje, é um registro de passagem, entre vírgulas, para dizer que o reduto do dinheiro com sobrenome foi citado.
A Operação Carbono Oculto completa um ano em agosto, mas não existe mais na cobertura da grande imprensa. Porque mexer na Faria Lima seria erguer a ponta de um tapete com imundícies disseminadas por quase todo o mercado financeiro. Não são como as relações de Daniel Vorcaro com Ciro Nogueira, o centrão e os Bolsonaros, mas com outros bandidos de outras barras também pesadas.
A Globo pode contar em detalhes como o PCC age na rede de distribuição de combustíveis. Relembrar que o crime organizado atua nos transportes, no tráfico, no contrabando de armas, nas comunidades. A Globo fala que o PCC manda matar, controla territórios e domina setores da polícia.
Mas a Faria Lima é citada como se estivesse à margem, e não no centro da engrenagem do PCC. Continuam dando manchetes para Deolane e para MCs e seus parceiros de morro, porque esses se expõem demais como milionários lavadores de dinheiro do crime organizado.
Mas os donos e executivos das fintechs não aparecem, porque não são celebridades e porque a atividade profissional dessa gente protege as fortunas de gente imexível. Sem cobertura da imprensa, a Carbono Oculto é apenas um nome quase sem sentido.
Ninguém sabe nada do que a Polícia Federal e a Receita conseguiram até agora com investigações que completarão 10 meses. Qualquer servidor público, da polícia ou do MP, sabe que investigações sem visibilidade quase não existem, mesmo que se diga que tramitam em segredo.
Não há segredo para o cerco a Deolane, porque ela não tem a proteção dos bacanas das fintechs. MC Ryan SP e MC Poze do Rodo também não têm proteção. Nem os influencers Chrys Dias e Raphael Souza. Teriam se morassem nos Jardins e adjacências.
Não se discute se todos são ou não criminosos, mas que alguns, de preferência os da Faria Lima, são considerados menos criminosos do que os outros e têm melhores advogados e melhores amigos nas corporações de mídia. Porque são brancos, lidam com dinheiro de brancos e são protegidos pela imprensa dos brancos.
Para os jornalões, sempre foi mais fácil identificar, apontar e atacar delinquentes negros, de preferência os que continuam morando nos morros e nas periferias e que deveriam ter ficado na porta estacionando os carros. A Faria Lima é uma grife que as corporações esconderam, mas estão apenas preservando, porque não consideram morta.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



