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Alex Solnik

Alex Solnik, jornalista, é autor de "O dia em que conheci Brilhante Ustra" (Geração Editorial)

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O pagador de promissórias

De Adolpho Bloch a Jânio, Berg conta suas hilárias aventuras

Walterson Sardenberg e Adolpho Bloch segurando a cruz no lugar de Zé do Burro (ator Leonardo Villar) em 'O Pagador de Promessas' (Foto: Reprodução (TV247) I Reprodução)
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De Adolpho Bloch a Jânio, Berg conta suas hilárias aventuras

Conhecido nas redações como Berg, Walterson Sardenberg se consagrou como um dos mais criativos autores de títulos da imprensa brasileira. Nesta entrevista ao programa “Cessar-fogo”, da TV 247, ele recorda alguns deles. Todos excelentes. Mas o mais extraordinário jamais foi publicado.

EU: Você era editor da revista “Contigo!”, uma das campeãs de vendas da Editora Abril. O que aconteceu quando foi lançada uma edição especial de humor, com as “Fotofofocas”?

BERG: Embora fosse uma revista bem popular e muito voltada para o show business e novelas, essa sessão de humor fazia um sucesso imenso. A gente brincava com as personalidades da época. Escolhia fotos de políticos, como Reagan, Margaret Thatcher, ou artistas famosos, e colocava balõezinhos com o que supostamente disseram no momento em que foram fotografados. E um dos grandes fãs era o dono da Abril, o Roberto Civita, que vivia mandando bilhetinhos. “Sensacional essa semana”, “que maravilha” e tal. Fez tanto sucesso que ele encomendou uma edição especial. Só de “fotofofocas”. E então reunimos a equipe para fazer. A equipe era muito boa. Tinha o Edson Aran, que depois virou diretor da Playboy. Tinha o Chagas, que era o pai da Tulipa. Tinha o Décio Piccinini, do júri do Silvio Santos, um cara muito engraçado. Nos reunimos no meu apartamento de solteiro e passamos dois dias à base de vodka, a bebida da moda nos anos oitenta. E claro que na época o Jânio estava num certo ostracismo e a gente brincava muito com a sua predileção pelos destilados. Fermentados também, aliás. E aí... acho que metade das piadas tinha algum viés para esse lado alcoólico do Jânio. amigo do álcool.

EU: Qual era a piada com o Jânio?

BERG: Eram muitas. Uma delas era o Jânio dizendo, com aquele jeito histriônico: “Rabo de galo, sim; briga de galo, não”. Porque ele tinha proibido briga de galo quando foi presidente, em 1961. Proibiu maiô de miss, proibiu briga de galo, proibiu lança-perfume. O modesto professor do Colégio Dante Alighieri se tornou um homem milionário no final da vida, né?

EU: É, mas ninguém sabe onde foi parar a fortuna dele, porque ele não contou nem para a filha a senha da sua conta na Suíça. Mas o que aconteceu quando a edição especial ficou pronta?

BERG: Ninguém esperava, mas ele ganhou a eleição para prefeito de São Paulo! Voltou ao jogo! Não era mais uma carta fora do baralho! E a Abril tinha alguns problemas de alvará. Não sei exatamente o que. O Departamento Jurídico da Abril se deparou com aquelas piadas e falou, “isso aqui não pode sair, o Jânio vai vir atrás da gente”. O Departamento Jurídico barrou. Mas já estava tudo impresso! E aí o que era piada virou uma tragédia! O que fazer? “Dá para cortar essas páginas do Jânio?” Não dava, não dava para cortar, porque não era um sistema de canoa, a edição, não lembro como era exatamente, com cola na ponta, não sei. Eu sei que não dava para cortar. Aí tiveram que jogar fora toda aquela edição.

EU: Quantos exemplares?

BERG: A Contigo vendia muito, vendia, sei lá, trezentos mil exemplares por semana. Vendia muito bem! Cada edição vendia mais. E aí vinha o Roberto Civita com garrafas de champanhe, dessas de pódio da Fórmula Um, para comemorar com a redação.

EU: Acho que o Jânio foi o presidente mais engraçado da história do Brasil. Você lembra o que ele fez com o Carlos Lacerda?

BERG: O Lacerda foi muito mal recebido, né? O Jânio, pô, pisoteou em cima do Lacerda.

EU: Lacerda era um americanófilo doente. Quando ele viu o Jânio condecorar Che Guevara, mandar o Jango para a China, ele ficou louco da vida. E queria falar com o Jânio, dar uma dura nele, para ele parar com isso porque os americanos estavam subindo nas paredes! Aí ele marcou com o Jânio através da dona Eloá, porque a dona Eloá morava no Rio e o Jânio em Brasília.

BERG: Em Brasília ele ficava mais à vontade… (risos).

EU: E aí o Lacerda ligou para o Jânio, e marcaram o encontro pelo telefone, intermediado pela dona Eloá. O Jânio foi muito gentil: “Venha sim, vamos jantar, e você ficará hospedado no palácio!”

Lacerda estranhou tanta gentileza, eram desafetos. Mas ele era governador do Estado da Guanabara! O Jânio não podia deixar de receber! Marcaram no Palácio da Alvorada naquela noite mesmo. Lacerda foi recebido na porta do palácio pelo mordomo, e o mordomo disse, “olha, o senhor Jânio Quadros está assistindo um filme, não posso interrompê-lo de jeito nenhum”.

BERG: Ele gostava de bang-bangs ordinários.

EU: Aí o Lacerda ficou lá esperando o Jânio terminar o filme. Louco para falar com o Jânio. Aí espera o Jânio, espera o Jânio. E o Lacerda pensava, “tudo bem, daqui a pouco vou jantar com ele e tal”. Daí o Jânio sai do cinema, abraça o desafeto, já morto de fome e diz: “Infelizmente, o cozinheiro já foi embora. Mas tem uns sanduíches aí”.

BERG: Mandiopã? O senhor aceita mandiopã? (risos)

EU: Enquanto Lacerda mandava ver o sanduíche, Jânio entrou numa sala e ligou para Pedroso Horta, seu braço direito. “O Lacerda veio aqui me aporrinhar. Convide-o para a sua casa e o entretenha até de madrugada!” Dito e feito. Daí a instantes, o mordomo traz o telefone e avisa a Lacerda: “O senhor Pedroso Horta quer falar com o senhor”. Seguindo o script, ele diz pro Lacerda que tem um assunto urgente para tratar com ele e o convida para a sua casa. Lacerda tenta recusar: “estou em visita ao presidente, se eu sair será uma desfeita!” “Não, peça licença a ele, ele vai concordar”. Enfim, Lacerda vai à casa do Pedroso Horta. E o Pedroso faz aquele jogo de cena, mil afagos, elogios, e segura o Lacerda até umas onze da noite, sem dizer absolutamente nada. Lacerda volta ao palácio, certo de que finalmente vai tratar com Jânio daquele assunto importante. Quem o recebe na porta é o mordomo. “O senhor presidente já se recolheu. E avisou para o senhor ir para o hotel Nacional, onde reservou um quarto para o senhor”. E entregou a mala a Lacerda.

BERG: O dono do Nacional era o José Tjurs. Mas eu já ouvi uma versão de que o Jânio queria tirar o Lacerda do palácio porque teria um encontro amoroso clandestino.

EU: Ah, isso é possível.

BERG: É a história que eu ouvi.

EU: Mas aí, quando o Lacerda chegou no hotel, aí já estava puto da vida, ligou para o Pedro Horta, chamou o Pedro Horta de moleque e tal e no dia seguinte anunciou na TV que tinha sido convidado pelo Jânio para dar um golpe de Estado! Foi a vingança dele! E aí o Jânio renunciou! Então, a versão mais factível é que quem derrubou o Jânio foi o Lacerda.

BERG: É verdade.

EU: Circularam versões de que o Jânio renunciou porque estava bêbado… não estava bêbado de manhã, porque ele foi lá na cerimônia do Dia do Soldado. Sóbrio. Ele renunciou por causa dessa denúncia do Lacerda de que ele ia dar um golpe, fechar o Congresso.

BERG: Eu ouvi várias histórias de jornalistas que foram entrevistar o Jânio na casa dele, no Guarujá. Muitos anos depois da renúncia. E que ele começava a entrevista com... “O senhor aceita um uisquezinho?” Começava com o uísque, e aí dizia: “Eloá exige que o senhor almoce comigo”. Aí no almoço, vinhos, mais vinhos, mais vinhos. Aí terminava assim... “Ô, o senhor aceita um licorzinho aí?” Entrava o licor, quer dizer, a terceira fase do negócio... E dava porre no jornalista. Os jornalistas, em geral, não tinham a resistência dele.

EU: Quem contou muito essa história foi o Augusto Nunes.

BERG: Sim, mas acho que tem outros jornalistas também, além do Augusto.

EU: Eu nunca tomei um porre com o Jânio. Você também não, né?

BERG: Não. Eu entrevistei o Jânio só uma vez. A Bandeirantes produziu uma novela chamada “Os imigrantes”. E num dos capítulos se passava nos anos 50, quando o Jânio era governador do estado de São Paulo. Ele topou participar da novela no papel dele mesmo.

EU: Ele participou da novela?

BERG: Não só participou como deu uma entrevista pintando os cabelos de preto na sala de maquiagem!

EU: Quando era prefeito, nessa época que deu o problema com a “Contigo!”, ele tinha um programa semanal na TV Gazeta. Uma repórter ia ao seu gabinete fazer a entrevista. Essa moça, cujo nome não vou mencionar… não podemos correr esses riscos na nossa idade, né, Berg?...

BERG: … melhor ser prudente.

EU: Então, a moça ia lá no gabinete do Jânio entrevistar, fazer aquela média, né? “Entrevista com o prefeito”, o nome era mais ou menos esse.

BERG: Chapa branca…

EU: Ela me contou que, um dia, o Jânio botou a mão na coxa dela, esticou a palma da mão e falou: “A senhora tem umas coxas compridas, hein?”

BERG: Era um bom vivant o Jânio!

EU: Você era um especialista em títulos, né, Berg? Teus títulos eram brilhantes! Títulos de revista, é claro!

BERG: Até hoje gosto muito de fazer títulos. Eu acho que é uma arte fazer título de matéria. Lembro de alguns que fiz. O Júlio Saraiva, um repórter de polícia muito bom, foi à zona do Meretrício, em Campinas. E descobriu que aquilo tinha dado uma, digamos assim, avacalhada, tinha muito caso de suadouro, tinha uma área, uma parte que tinha até, tinha muitos travestis, e tinha uma outra, tinha outros problemas policiais com drogas, eu não sei mais o que. E aí o título que dei foi: “A Zona Virou Uma Zona”. (risos)

EU: O chato é que você não assinava o título!

BERG: Título não se assina, mas é muito bom. Eu trabalhei duas vezes na revista Manchete. E a Manchete tinha uma tradição de grandes títulos. Eu lembro de um que ficou famoso. Uma época que diziam que o Mao Tse Tung estava passando mal, que não sei o que mais, que estaria à morte, sei lá o quê. Muita especulação sobre isso. E aí o governo da China divulgou umas fotos dele nadando. A Manchete deu a foto, e eu fiz o título: “Nada bem o velho Mao”. (risos)

EU: Muito bom!

BERG: Outro título muito bom da Manchete… você lembra que teve uma época em que médiuns, como Zé Arigó, que incorporava um ex-cirurgião, dr. Fritz, estavam na crista da onda… tá lembrado?

EU: Sim, lembro.

BERG: A Manchete descobriu um médium que era anão. E que era milagroso e tal. Título da matéria: “O pequeno grande médium”. (risos) Mas o melhor título de todos... Eu vou ser politicamente incorreto agora, mas o melhor título da Manchete não saiu. Não saiu.

EU: Por que?

BERG: Foi nos anos 70. A Manchete fez uma foto exclusiva: Pelé com Roberto Carlos. Seria a grande atração daquela edição! O Adolfo Bloch veio pessoalmente à redação e advertiu: “Olha, não quero nada com realeza, tipo ‘os reis do Brasil’, ‘o rei da música e o rei do futebol’. Não quero! Isso aí é batido, é clichê. Isso eu não quero. Isso é um lixo. Então, vocês parem e pensem numa boa chamada”. Aí tinha o Alberto Carvalho, que era um faz-tudo na redação, e carioquíssimo do subúrbio, sentou ali na sua Olivetti, e bolou o melhor título, infelizmente, impublicável: “O Craque e o Perna-de-Pau”.

EU: Ainda bem que vocês não mostraram pro Adolpho Bloch! Ele demitiria na hora! Com ele não tinha conversa! Tem grandes histórias dele! Certa vez, e isso foi contado pelo sobrinho dele no livro “Os Irmãos Karamabloch”, ele pegou o dinheiro do caixa do português do boteco para pagar os funcionários da Manchete!

BERG: Sabe como ele chamava a ronda para pedir empréstimo? Trotuar bancário. Ele era um pândego também. O Teatro Adolfo Bloch seria inaugurado com a mais famosa peça de Dias Gomes. Com Tony Ramos no papel principal. Todo mundo na Manchete estava animado. Menos seu Adolpho. Ele queria uma coisa mais grandiloquente. Uma ópera dirigida por Franco Zefirelli. E aí os mais chegados foram tentar convencê-lo. Disseram pra ele que o filme tinha ganho a Palma de Ouro! Tinha tudo pra ser um grande sucesso! Era “O Pagador de Promessas”! E ele: “Eu não quero saber de pagador de promessas, eu quero saber do pagador de promissórias!”

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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