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Manoel Severino

Ex-presidente da Casa da Moeda, ex-secretário de Governo do Rio de Janeiro e fundador do PT/RJ

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O fim da escala 6×1 é uma questão de respeito à dignidade humana

Fim da escala 6×1: avanço para garantir dignidade, saúde e mais qualidade de vida aos trabalhadores brasileiros

Ato pelo fim da escala 6x1 (Foto: José Cruz/Agência Brasil)
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A aprovação da PEC 221/2019, na Câmara dos Deputados, foi um sopro de esperança para os trabalhadores brasileiros em nossa luta histórica por justiça social. Cumprir 44 horas semanais em seis dias corridos é indigno, cruel e pouco produtivo.

Ao longo de sua existência, a humanidade ampliou continuamente sua capacidade produtiva: precisamos de cada vez menos tempo para produzir o necessário à nossa vida. A cada avanço tecnológico, e foram muitos desde o domínio do fogo por nossos antepassados, surge a mesma escolha: ou distribuímos esses ganhos entre todos, reduzindo o tempo de trabalho, ou apenas uma minoria deles se beneficia.

Desde a Revolução Industrial, a classe trabalhadora coloca no centro de suas reivindicações a redução da jornada e a maior participação na riqueza produzida. É uma questão de equidade e de qualidade de vida para quem produz tudo o que a sociedade consome.

A bandeira das oito horas diárias dominou o movimento sindical por décadas, sintetizada no mote: "oito horas para o trabalho, oito horas para o descanso e oito horas para a educação e o lazer". Ao lutarmos, hoje, pelo fim da escala 6×1, retomamos esse mesmo questionamento: de que precisamos para viver bem? Um expediente de seis dias seguidos é um impeditivo ao convívio familiar, ao descanso e ao pleno desenvolvimento pessoal.

O movimento "Vida Além do Trabalho" deu voz a essa justa reivindicação e obteve grande êxito ao expor a crueldade à qual muitos trabalhadores brasileiros estão submetidos. É, na verdade, uma atualização precisa da luta pelo direito à vida do povo trabalhador.

Como ocorre desde a campanha pelo fim da escravidão, vozes se levantam contra esses avanços. Os escravocratas previam uma suposta ruína do país e chegaram a pedir indenização, não para os escravizados, mas para si próprios, que durante séculos haviam explorado outros seres humanos. O episódio revela como parte da elite brasileira age em defesa de interesses próprios, indiferente ao bem comum. Hoje não é diferente: infelizmente, ainda tem gente disposta a cumprir esse papel, inclusive no Senado.

Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 7 em cada 10 trabalhadores cumprem 44 horas semanais. A mudança afetaria diretamente 37 milhões de pessoas. Estamos falando de impacto concreto no cuidado e na rotina das famílias brasileiras.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) associa jornadas mais longas ao aumento do risco de acidente vascular cerebral e doenças cardíacas, por exemplo. O custo para a saúde mental também é alto: cresce o número de afastamentos por licença médica, com reflexos no sofrimento individual e na produtividade coletiva.

Experiências em vários países e empresas mostram que reduzir a jornada traz resultados consistentes: mais produtividade, menor absenteísmo, menor rotatividade e profissionais mais satisfeitos em ambientes mais saudáveis e criativos.

Reduzir a jornada sem cortar salários e acabar com a escala 6×1 não é desvalorizar o trabalho; muito pelo contrário, é reconhecer que a vida exige tempo para a família, o descanso, a cultura e a formação. Enfim, estamos diante de mais um passo essencial rumo à plena realização humana no Brasil.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.