O crescimento em crise: América Latina e Caribe em seu labirinto
O crescimento real médio do Produto Interno Bruto (PIB) cairá em 24 de seus 33 países da América Lastina e Caribe este ano, segundo dados atuais da CEPAL
Por Sergio Ferrari - Além de seus problemas estruturais históricos, a América Latina e o Caribe agora enfrentam a incerteza gerada pela instabilidade geopolítica internacional. Em meio a essa conjuntura, ambas as regiões veem suas expectativas de crescimento para 2026 diminuírem.
Embora as marcantes disparidades entre os países não permitam tirar uma única conclusão, o crescimento real médio do Produto Interno Bruto (PIB) cairá em 24 de seus 33 países este ano, segundo dados atuais da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL). Regionalmente, o crescimento na América do Sul será de 2,4% (2,9% em 2025). Na América Central, 2,2% (2,3% em 2025). Talvez, o México e o Caribe sejam a única exceção: o primeiro, com um salto de 1,5% em comparação com os 0,8% anteriores; e o segundo, com 5,6% em comparação com os 5,5% anteriores. No caso específico do Caribe, os números são bastante enganosos devido à contribuição da Guiana. Se esse país for excluído, estaríamos falando de apenas 1,2%, bem abaixo dos 2,0% em 2025. (https://www.cepal.org/sites/default/files/pr/files/tabla_proyecciones_abril-2026-esp.pdf).
Crise crônica: “crescimento preguiçoso”
Com essa projeção, a CEPAL está corrigindo suas previsões anteriores de um crescimento ligeiramente maior. Após quatro anos consecutivos com taxas percentuais em torno de 2% ao ano, algo como um "crescimento preguiçoso", conclui que é "um teto baixo que indica uma incapacidade estrutural de decolar, inserido em um contexto internacional que pesa como um tijolo". (https://news.un.org/es/story/2026/04/1541379).
A análise da CEPAL ressalta o impacto significativo da nova situação mundial: de dezembro de 2025 até o final de abril de 2026, "o cenário externo se endureceu, especialmente como resultado da guerra no Oriente Médio, que desencadeou a volatilidade dos mercados e o preço do petróleo". Assim, por exemplo, nos primeiros quatro meses de 2026, os combustíveis essenciais aumentaram 74% em comparação ao ano anterior.
Junto com essa crise, agravada pelo duplo bloqueio imposto ao Estreito de Ormuz, nas costas iranianas –por onde transita mais de 20% do combustível mundial–, alimentação e serviços também se tornaram mais caros, um freio inevitável ao crescimento do comércio mundial. Assim, organizações internacionais especializadas prognosticam que, este ano, o teto de crescimento comercial será de 2,7%, muito inferior aos 4,7% de 2025.
Além disso, vários parceiros relevantes da América Latina e do Caribe, como a China, a União Europeia e a Índia, desaceleraram em um momento em que os bancos centrais do mundo, assustados com a inflação, têm se tornado cautelosos e estão impondo condições financeiras menos favoráveis do que as projetadas há apenas alguns meses.
Resumindo: o consumo regional esfria e o investimento não decola, a economia desacelera, os preços sobem e os empregos são escassos. Uma realidade macro que se manifesta na queda da capacidade econômica familiar devido ao fato de que o consumo privado perdeu energia. Ainda mais preocupante, insiste a CEPAL, é a média da inflação na região, que este ano ultrapassará 3% (foi 2,4% em 2025), embora "ela seja sentida especialmente na América do Sul devido à volatilidade da taxa de câmbio e ao aumento dos custos de importação".
Para a CEPAL, 2,2% "não é uma catástrofe isolada, mas a expressão de um sintoma crônico", que descreve de forma eloquente: a região leva anos na armadilha do baixo crescimento, da grande exposição a altos e baixos globais e à pouca capacidade para ligar seus próprios motores, com riscos que não desaparecem, como condições financeiras restritivas, inflação de alimentos e de energia e volatilidade das taxas de câmbio. Além disso, alguns países estão sobrecarregados por problemas estruturais mais profundos, como restrições externas, margem de manobra política esgotada e instituições frágeis. Portanto, sua mensagem não é apenas econômica, mas também política: "Expandir a mobilização de recursos internos e externos e fortalecer a governança são fatores fundamentais na promoção de políticas que dinamizem investimentos, aumentem a produtividade e fortaleçam a resiliência macroeconômica em um ambiente global cada vez mais incerto".
A guerra e o impacto mundial
Por sua vez, o Fundo Monetário Internacional (FMI) publicou no final de abril seu relatório A economia mundial sob a sombra da guerra, que projeta em nível macroeconômico tendências semelhantes às radiografadas pela CEPAL para a América Latina e o Caribe.Mesmo assumindo que o conflito no Oriente Médio tivesse duração e alcance limitados, o FMI ainda projeta uma desaceleração de 3,1% no crescimento até 2026 e um leve aumento da inflação. No caso das economias de mercados emergentes e em desenvolvimento, essa tendência será muito mais pronunciada. (https://www.imf.org/es/publications/weo/issues/2026/04/14/world-economic-outlook-april-2026).Quem se beneficia com as novas guerras? Sem dúvida uma questão crítica nessa conjuntura complexa e alterada. De qualquer forma, e tanto à luz dos custos humanos brutais quanto dos indicadores econômicos, pode-se dizer que praticamente nenhuma economia nacional poderá lucrar com esses conflitos, com exceção da grande indústria armamentista.O raio-X do FMI, que ninguém pode chamar de progressista, é eloquente: os gastos com defesa nos próximos dois anos e meio aumentarão de tal forma que representarão cerca de 2,7 pontos percentuais do PIB e, aproximadamente, dois terços deles serão financiados por novos endividamentos, ou seja, por déficits maiores. Em termos concretos, em três anos esse aumento nos gastos militares se traduzirá em um aumento da dívida pública de aproximadamente 7%, com a consequente redução dos gastos sociais.
"Crescimento": um conceito também em crise
A teoria do crescimento econômico, intimamente ligado ao crescimento do PIB, que organizações internacionais utilizam sistematicamente para suas estatísticas, para as suas tabelas comparativas e projeções, pode ajudar a projetar tendências econômicas gerais em uma região ou continente, e até mesmo no mundo. No entanto, suas limitações estão se tornando cada vez mais evidentes. Prova disso é o questionamento não apenas de especialistas e teóricos altamente especializados, movimentos sociais e importantes organizações não governamentais (ONGs), mas também, e de forma muito significativa, vindas de dentro das próprias Nações Unidas.
Na última semana de abril, Olivier De Schutter, Relator Especial sobre Extrema Pobreza e Direitos Humanos da ONU, propôs uma mudança radical nas políticas de desenvolvimento. Como já havia afirmado, em julho de 2024, em seu polêmico e questionado relatório, Erradicar a pobreza além do crescimento, De Schutter novamente defende medidas inovadoras, como a renda básica universal, a redução da jornada de trabalho e o cancelamento de dívidas soberanas insustentáveis. (https://docs.un.org/es/A/HRC/56/61).
A proposta de De Schutter implica uma mudança decisiva para que as estratégias de desenvolvimento deixem de depender do fator de "crescimento", e passem a ser reorientadas para uma agenda de "direitos humanos" que coloque o bem-estar das pessoas e do planeta no centro da transformação econômica. Suas recomendações são estruturadas em torno de cinco pilares: transformação dos sistemas econômicos; políticas do mercado de trabalho e economia do cuidado; proteção social universal e serviços essenciais; clima, meio ambiente e gestão de recursos, e comércio, finanças, dívida e solidariedade global. Todos eles são apoiados por uma abordagem transversal de boa governança e democracia participativa.
É um roteiro que visa apoiar esforços internacionais para reduzir desigualdades e erradicar a pobreza em nível global, baseado em um conceito de desenvolvimento desenvolvido em consenso com atores da sociedade civil internacional. Um conceito que afirma a plena realização dos direitos humanos, mas que já não reconhece o PIB como o principal indicador de progresso. Claramente, um instrumento importante para orientar os debates antes da adoção da próxima geração de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável na Cúpula das Nações Unidas, em setembro de 2027 (https://www.neep-poverty.org/).
De outra perspectiva, La Via Campesina, uma organização que reúne 180 grupos locais e nacionais representando mais de 200 milhões de pequenos e médios produtores agrícolas e trabalhadores rurais em 81 países, também aponta para uma mudança radical na lógica do crescimento e do desenvolvimento humano. Em seu caso, começando por uma redefinição do direito à alimentação.
Em um manifesto de outubro do ano passado, atualizado em abril deste ano, La Via Campesina afirma que a agroecologia camponesa é a resposta para o sério problema de uma dieta muito desigual. E propõe soluções reais que reconheçam soberania alimentar, a dignidade e a justiça para os povos do mundo, como um "novo paradigma financeiro baseado não em empréstimos, mas em subsídios públicos incondicionais". Segundo La Via Campesina, esses fundos devem ser "controlados democraticamente para promover transições justas e soberanas". Não menos importante, que os países do Sul Global possam "agir em seus próprios termos, com reparações financeiras, transferência de tecnologia e autonomia para definir seus próprios caminhos de desenvolvimento". Por outro lado, promove a "construção de uma solidariedade global que também apoie transições justas e soberanas para os povos do Norte Global, cujo controle sobre suas próprias economias é crucial para acabar com o imperialismo e a exploração da classe trabalhadora e da Mãe Terra" (https://viacampesina.org/es/cop-30-manifiesto-de-la-via-campesina-tierra-y-derechos-para-quienes-enfrian-el-planeta/).
A proposta de La Via Campesina não é algo recente. Na verdade, em momentos muito diversos, desde seu nascimento, em 1993, criticou diretamente o modelo de crescimento econômico neoliberal e o agronegócio, pois ambos priorizam a lucratividade corporativa e a especulação financeira em detrimento do bem-estar social, saúde humana e sustentabilidade ambiental. Sem dúvida, um modelo que gera pobreza, expulsa pequenos agricultores de suas terras e destrói a biodiversidade.
Claramente, a América Latina e o Caribe, como grande parte do resto do mundo, estão na encruzilhada de um estágio planetário, histórico complexo caracterizado por uma dupla crise: a do crescimento global e a do próprio conceito usado como indicador para medir e interpretar esse crescimento. Guerras não ajudam; o emergente Sul Global está pagando o preço mais alto, o da pobreza extrema crescente.
Tradução: Rose Lima
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
