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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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Noah Eckstein, 22 anos, e uma mesa de café

Cristãos, judeus e muçulmanos podem conviver numa família; por que o mundo desaprendeu essa lição elementar?

Manifestação pró-Palestina (Foto: Reuters/Piroschka van de Wouw)
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Antes de entrar no mercado de trabalho, os formandos da Universidade Harvard ouviram, em maio deste ano, uma das reflexões mais lúcidas e perturbadoras produzidas por um jovem de 22 anos em muito tempo. Não veio de um chefe de Estado, de um prêmio Nobel ou de um grande intelectual consagrado. Veio de Noah Eckstein, estudante da turma de 2026, que escolheu falar não sobre sucesso, liderança ou riqueza, mas sobre algo que parece estar desaparecendo do mundo contemporâneo: a capacidade de compreender.

Seu discurso começou como uma piada.

“Um cristão, um muçulmano e um judeu entram em um bar".

Mas a piada era, na verdade, a história de sua própria família.

Noah é judeu. Sua avó era cristã. Seu avô materno, muçulmano. Sua própria existência representa a convergência de tradições religiosas, memórias históricas e experiências humanas que, pela lógica simplificadora do nosso tempo, deveriam permanecer separadas. Para ele, porém, não existe contradição. Existe apenas humanidade.

Foi então que pronunciou a frase mais importante de todo o discurso:

“O oposto da divisão não é necessariamente o acordo. É a compreensão".

Tenho a convicção de que Noah Eckstein tocou numa das maiores doenças intelectuais destes tempos.

Fomos levados a acreditar que compreender alguém significa concordar com essa pessoa. Não significa. Compreender não é capitular. Não é abandonar convicções. Muito menos relativizar valores. Compreender significa reconhecer que nenhum ser humano cabe inteiramente dentro dos rótulos que lhe atribuímos.

A experiência de seus avós talvez seja a parte mais poderosa de toda a narrativa.

Um deles era um muçulmano paquistanês que cresceu em meio às feridas da Partição da Índia de 1947. O outro era um judeu marcado pela memória do Holocausto. Pertenciam a universos históricos distintos e carregavam consigo visões diferentes sobre inúmeras questões.

Discordavam. E continuaram discordando durante toda a vida. Mas permaneceram amigos.

Noah recorda que ambos passavam horas conversando à mesa. Discutiam política, religião e acontecimentos do mundo. Quando estavam distantes, telefonavam para a família e, antes de desligar, sempre perguntavam um pelo outro. Nenhum deles abandonou suas crenças. Nenhum renunciou à própria identidade. O respeito mútuo jamais exigiu uniformidade.

Concordo integralmente com Noah quando ele afirma que, em algum ponto entre a geração de seus avós e a nossa, a conversa mudou. Os debates ficaram mais barulhentos. A escuta desapareceu. As pessoas passaram a discutir não para compreender, mas para vencer.

A busca da verdade foi substituída pela obsessão em derrotar o adversário. Em algum momento da caminhada, a pessoa sentada do outro lado da mesa deixou de ser uma pessoa e passou a ser percebida como um obstáculo.

Eis uma das tragédias morais do nosso tempo.

Somos constantemente empurrados para os binarismos. Direita ou esquerda. Conservador ou progressista. Capitalismo ou socialismo. Rússia ou Ucrânia. Israel ou Palestina. Como se a experiência humana pudesse ser reduzida à lógica primitiva das torcidas organizadas.

Tenho dificuldade em aceitar uma visão tão empobrecida da realidade. Ela traduz uma impressionante petição de miséria intelectual, incapaz de reconhecer que a vida humana sempre foi maior e mais complexa do que os binarismos que tentamos lhe impor.

A vida humana é mais complexa do que as caricaturas ideológicas que construímos. O mundo não é composto por heróis de um lado e monstros do outro. A História é infinitamente mais complicada.

No trecho mais corajoso de seu discurso, Noah faz uma observação que merece ser levada a sério. Seus avós conheciam as atrocidades humanas. Sabiam que homens são capazes de praticar horrores indescritíveis. Mas também sabiam algo ainda mais perturbador: aqueles que cometeram atrocidades continuavam sendo humanos.

Não necessariamente perdoáveis. Nem sempre redimíveis. Mas humanos.

E é precisamente por isso que a compreensão continua sendo importante. Não para justificar o mal, mas para responder à pergunta que a humanidade tantas vezes se recusa a fazer: como chegamos até aqui? Sem essa pergunta, não existe aprendizado histórico.

A paz baseada na concordância é frágil. Ela dura apenas enquanto todos concordam. A compreensão, ao contrário, é mais resistente. Ela sobrevive às diferenças porque nasce do reconhecimento de uma humanidade compartilhada.

Essa é uma ideia que considero absolutamente correta.

Existe algo de profundamente inquietante numa civilização que considera mais fácil cancelar do que conversar, mais fácil romper do que compreender e mais fácil desumanizar do que conviver.

Os avós de Noah morreram preservando suas próprias tradições. O muçulmano foi enterrado voltado para Meca. O judeu recebeu os ritos de sua fé. A avó cristã foi sepultada sob o símbolo da cruz.

A piada nunca teve desfecho. Ninguém convenceu ninguém. Mas todos permaneceram uma família.

Talvez esteja aí uma metáfora poderosa para o século XXI. Civilizações não entram em colapso porque as pessoas discordam. Elas começam a ruir quando deixam de reconhecer humanidade naqueles de quem discordam.

E uma espécie que já não consegue se enxergar como uma única família humana corre o risco de transformar suas diferenças em instrumentos de autodestruição. A sobrevivência da humanidade jamais dependerá da unanimidade. As diferenças jamais destruirão a humanidade.

O que poderá destruí-la é algo muito mais grave: esquecermos que, apesar de tudo, continuamos sendo uma única família humana.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.