Nanjie, a vila maoísta que sobrevive dentro da China reformada
Em Henan, uma pequena comunidade coletiva reúne memória revolucionária, fábricas, turismo vermelho e benefícios sociais restritos aos moradores com hukou local
Durante os três dias do Festival do Barco-Dragão, entre 19 e 21 de junho, fui conhecer um dos lugares mais peculiares da China: Nanjiecun (南街村), ou Vila Nanjie, na província de Henan, no centro do país.
A vila fica no condado de Linying, subordinado à cidade de Luohe. Tem cerca de 1,8 km² e pouco mais de 3 mil habitantes permanentes. Pequena no tamanho, mas enorme no que revela sobre as muitas camadas da China contemporânea.
Viajei acompanhada por camaradas e amigos brasileiros: Caroline; Rafael, que estava com a namorada filipina, Noelyn; e Gabriel, casado com Jiani, uma chinesa. Os dois são pais de Lucas, um menino sino-brasileiro de cinco anos e meio que foi a alegria — e a energia inesgotável — da nossa viagem.
A praça onde “O Oriente é Vermelho”
Nós nos hospedamos no único hotel da vila, bem ao lado da Praça Dongfanghong — ou Praça “O Oriente é Vermelho” —, provavelmente uma das praças mais assumidamente comunistas que eu já conheci.
No centro, ergue-se uma grande estátua branca de Mao Zedong, cercada por bandeiras vermelhas. Ao fundo, retratos gigantes de Karl Marx e Friedrich Engels aparecem de um lado; do outro, os de Vladimir Lênin e Josef Stalin. É uma praça que não apenas homenageia líderes e símbolos do socialismo, mas organiza visualmente toda a narrativa política de Nanjie.
Ao longo de toda a vila, cartazes, murais e outdoors exibem slogans revolucionários e referências constantes ao comunismo, à coletividade e à liderança do Partido Comunista da China. Em alguns pontos, a paisagem sonora também participa dessa construção simbólica: músicas revolucionárias são transmitidas em áreas públicas, como se a memória política do lugar não estivesse apenas nas paredes, mas também no som que atravessa as ruas.
Juventude, sacrifício e pedagogia política
Duas estátuas, em especial, me chamaram a atenção: a de um rapaz e a de uma moça, ambos muito jovens. Elas ajudam a entender a pedagogia política de Nanjie, que não se apoia apenas nos grandes líderes e nos símbolos clássicos do socialismo, mas também em figuras associadas à juventude, ao sacrifício, à disciplina e ao serviço coletivo.
Uma delas homenageia Lei Feng (雷锋, 1940–1962), jovem soldado do Exército de Libertação Popular, nascido na província de Hunan. Depois de morrer aos 22 anos, em um acidente de trabalho, ele se tornou um dos maiores símbolos da ética socialista chinesa. Sua imagem passou a ser associada à dedicação ao povo, à modéstia, ao espírito coletivo e ao serviço desinteressado. Em 1963, Mao Zedong lançou a famosa campanha “Aprender com o camarada Lei Feng” — frase que aparece na base do busto que vi em Nanjie: “向雷锋同志学习”.
A outra estátua é dedicada a Liu Hulan (刘胡兰, 1932–1947), jovem militante comunista da província de Shanxi, lembrada na China como mártir revolucionária. Ela entrou para o Partido Comunista da China ainda adolescente e foi executada em 1947, durante a guerra civil, depois de se recusar a romper sua ligação com o Partido. Em sua homenagem, Mao Zedong escreveu a frase “生的伟大,死的光荣”, geralmente traduzida como “grande em vida, gloriosa na morte” — inscrição que aparece na base da estátua.
Essas duas figuras ajudam a compor a paisagem simbólica de Nanjie. A vila não se organiza apenas em torno de Mao e dos grandes nomes do marxismo internacional. Ela também mobiliza personagens chineses associados ao sacrifício, à disciplina, à juventude, ao serviço coletivo e à ideia de que a revolução se sustenta no cotidiano.
O museu da vila e a memória organizada
O museu da vila, que também visitamos, ajuda a organizar essa narrativa. Ali, Nanjie conta a própria história como uma experiência coletiva que atravessou as reformas econômicas chinesas sem abandonar completamente os símbolos e práticas do maoísmo. O espaço apresenta documentos, fotografias, objetos, painéis e registros sobre a transformação da vila, sua reorganização econômica, suas empresas, seus trabalhadores e o sistema de bem-estar criado para os moradores.
Mais do que um museu convencional, ele funciona como uma espécie de centro de memória política de Nanjie. A visita mostra como a vila se apresenta ao mundo: não apenas como curiosidade turística ou relíquia ideológica, mas como exemplo de organização coletiva, disciplina social e prosperidade compartilhada. Tudo ali reforça uma mensagem: Nanjie quer ser vista como prova viva de que o modelo coletivo ainda pode produzir pertencimento, estabilidade e desenvolvimento.
Foi também no museu que percebi melhor como a vila constrói sua própria identidade. Nanjie não se apresenta como passado congelado, mas como continuidade. A memória revolucionária, os símbolos maoístas, a economia coletiva, as fábricas, as moradias e o turismo aparecem costurados em uma mesma narrativa: a de uma comunidade pequena, mas muito consciente do papel político que decidiu representar dentro da China contemporânea.
Comunistas brasileiros em Nanjie
E, acredite: no museu da vila há também a foto de um casal de comunistas brasileiros. Gabriel ficou incrédulo quando se deparou com a imagem da nossa camarada Rosanita Campos, hoje integrante do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e da direção da Fundação Maurício Grabois.
O MR-8 surgiu a partir de uma dissidência universitária ligada ao antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB), no Rio de Janeiro, e adotou esse nome em referência ao 8 de outubro de 1967, data da captura de Che Guevara na Bolívia. Com o tempo, depois do período da luta armada, a organização passou a atuar de forma mais ampla na política institucional e nos movimentos populares. Cláudio foi um de seus principais dirigentes e também fundador do jornal Hora do Povo.
Gabriel, que é um grande amigo aqui na China, meu guru de marxismo e também quem organizou a nossa viagem, ficou visivelmente emocionado ao se deparar, em um lugar tão especial, com a foto da camarada e amiga. Ele filmou a imagem e enviou uma mensagem para Rosanita, que respondeu prontamente, também emocionada:
“Caramba, não me lembrava do nome dessa cidade. Agora, com o vídeo, me lembro que estive nessa vila coletiva com o Cláudio. Nós estivemos na província de Henan, em várias cidades. Nessa vila, fomos às casas de vários moradores. Todas tinham fotos do Mao. Foi uma viagem incrível! Que coisa boa você me lembrar que estive em Luohe, na Vila de Nanjie…”, respondeu Rosanita.
Hukou, casamento e proteção social
Na sexta-feira, almoçamos em um restaurante simples, fora da vila, tocado por uma mãe que administrava o lugar enquanto cuidava do filho pequeno. A casa servia macarrão ao estilo de Chongqing. Simplesmente delicioso — e muito barato.
Como Gabriel fala chinês, aproveitei para perguntar o que a dona do restaurante achava da Vila Nanjie. Ela contou que vinha de outra vila da região e disse uma coisa que achei curiosíssima: por ali, os homens solteiros de Nanjie estão entre os mais cobiçados.
A explicação passa pelo hukou, o sistema chinês de registro domiciliar. Em Nanjie, só quem tem o registro local pode acessar plenamente os benefícios sociais da vila, como moradia, educação, saúde e outros serviços coletivos. Por isso, segundo ela, muitas moças solteiras da região querem se casar com homens de Nanjie: o casamento pode abrir uma porta para esse sistema de proteção social.
A dona ainda comentou, rindo, que as mais bonitas acabam conseguindo “fisgar um bom partido”. Achei a cena engraçada e reveladora. No meio de um almoço simples, apareceu uma camada inesperada de Nanjie: a vila não é apenas um símbolo político, mas também um lugar que mexe com desejos, expectativas e estratégias de vida muito concretas.
Restaurante coletivo, fábricas e economia da vila
No sábado pela manhã, assistimos juntos ao jogo da Seleção Brasileira na Copa do Mundo contra o Haiti — e à vitória por 3 a 0. Depois, fomos ao restaurante coletivo da vila, onde os moradores comem de graça (!). A diversidade de pratos é impressionante. Eu escolhi um dos meus preferidos: um macarrão típico de Wuhan, servido com molho de gergelim.
De barriga cheia, seguimos para o centro comunitário e contratamos o passeio guiado pelas fábricas da vila. É simplesmente incrível. Nanjiecun é um caso fascinante porque mostra que a China contemporânea não seguiu uma única trajetória econômica. Enquanto cidades como Shenzhen simbolizam a abertura ao mercado, Nanjie representa a permanência de uma experiência coletiva maoísta dentro da própria China reformada.
A vila não cabe facilmente nas categorias prontas. Desde o fim dos anos 1970, a maior parte da China avançou por uma economia socialista de mercado. Nanjie, no entanto, preservou um forte sistema de propriedade coletiva. Suas principais fábricas e empresas pertencem à coletividade local, e não a indivíduos privados. É essa estrutura que sustenta boa parte da organização social do lugar.
Os moradores com registro local — o hukou de Nanjie — têm acesso a benefícios que lembram o antigo sistema socialista: moradia gratuita, educação, assistência médica e distribuição de alguns bens de consumo. A vila, portanto, não é apenas um cenário simbólico do maoísmo. Ela funciona como uma experiência concreta de proteção social coletiva, ainda que restrita a quem pertence formalmente à comunidade.
A base econômica desse modelo não vem apenas da agricultura. Nanjie construiu um grupo industrial coletivo que produz macarrão instantâneo, farinha, cerveja, alimentos processados e outros bens. A renda dessas empresas ajuda a financiar os serviços oferecidos aos moradores e também sustenta a imagem da vila como uma espécie de laboratório vivo de prosperidade compartilhada.
Turismo vermelho e uma “Disney revolucionária”
Hoje, Nanjie também se tornou destino de turismo vermelho — o meu tipo preferido de turismo aqui na China. Visitantes chegam para conhecer uma experiência que preserva práticas, símbolos e narrativas associadas ao período maoísta, mas que existe dentro da China reformada e contemporânea. Dentro da vila, há vários mercados e eu, claro, me esbaldei nos souvenires. Agora tenho uma coleção de fazer inveja de botons do Mao, meu crush revolucionário! Também comprei uma cesta com vários produtos fabricados ali mesmo.
Para finalizar o tour, ainda teve um passeio a um parque temático de memória vermelha, uma espécie de “Disney revolucionária” de Nanjie. O espaço reproduz, em escala cenográfica, marcos históricos associados à revolução chinesa, à Guerra de Libertação e à vitória comunista. Há réplicas de lugares simbólicos da trajetória do Partido Comunista da China, como se a vila tentasse condensar, em um único percurso turístico, uma narrativa inteira da história revolucionária do país.
É muito peculiar. Ao mesmo tempo em que tem algo de parque temático, com cenários, placas, caminhos organizados e uma lógica de visitação, o lugar também funciona como uma aula de história política a céu aberto. Não é apenas entretenimento: é pedagogia, memória e turismo vermelho misturados no mesmo pacote.
Duas Chinas reais, lado a lado
Outro aspecto que me chamou a atenção foi a limpeza e a organização da vila. Nanjie é extremamente cuidada: ruas limpas, espaços públicos bem ordenados, sinalização clara e uma sensação permanente de planejamento.
Mas basta passar pelo portal que marca a entrada e a saída da vila para perceber outro ritmo, outra paisagem, outra forma de ocupação do espaço. Não se trata de uma China “mais real” do que a outra. As duas são reais. A China organizada, coletiva e cenográfica de Nanjie também existe; assim como existe a China cotidiana das vilas vizinhas, com seu comércio de rua, seus restaurantes simples, suas motos, seus ruídos, seus improvisos e sua vida comum.
Talvez seja justamente esse contraste que torne a experiência tão interessante. Em poucos metros, a paisagem muda, o tempo parece mudar, e a China aparece em mais uma de suas muitas camadas: nenhuma delas falsa, nenhuma delas única, nenhuma delas suficiente para explicar o país inteiro.
Essa é, talvez, a parte mais interessante: Nanjie não é uma ruína do passado, nem uma simples curiosidade turística. É uma comunidade real, pequena, organizada em torno de uma ideia política muito clara.
Por isso, a vila provoca leituras tão diferentes. Para alguns, é prova de que a economia coletiva ainda pode funcionar e produzir estabilidade social. Para outros, sua sobrevivência dependeu de condições muito específicas, apoio político, empréstimos e um arranjo difícil de replicar em larga escala.
Para mim, Nanjie interessa justamente por ocupar esse lugar de tensão: entre mercado e coletividade, memória maoísta e modernização chinesa, experiência local e símbolo político.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

