Mundo vive a terceira corrida armamentista da era moderna
Escalada militar reacende rivalidades entre potências e amplia riscos de um conflito de proporções imprevisíveis no século XXI
O presidente da França, Emmanuel Macron, anunciou que irá determinar o aumento do arsenal nuclear francês. Outros mandatários seguem pelo mesmo caminho – até o Brasil já começou a estudar o incremento de seus artefatos militares. Algo esperado, em face da crescente onda de tensão global ocasionada pela insanidade e pela imprevisibilidade do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O novo armamentismo tem como corresponsáveis o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e o líder russo Vladimir Putin. Os três – Trump, Netanyahu e Putin – são grandes violadores de terras alheias desta quadra histórica. Se não os únicos, são os maiores responsáveis pela insegurança global atual, que se turbina pela ação de grupos terroristas, como os financiados pelo Irã. A relativa paz esperada para o século XXI era apenas um sonho dos estertores do século XX.
Vive-se a terceira onda armamentista da era moderna. A primeira aconteceu no fim do século XIX / início do século XX, antecedendo a Primeira Guerra Mundial e envolvendo especialmente Reino Unido, Alemanha, França, Rússia e Império Austro-Húngaro. O contexto era o seguinte.
As potências europeias disputavam colônias na África e na Ásia. O crescimento industrial exigia mercados, matérias-primas e rotas marítimas. Após sua unificação, em 1871, a Alemanha tornou-se potência industrial e militar. O imperador Guilherme II adotou uma política externa agressiva (“Weltpolitik”), buscando rivalizar com o Reino Unido. O marco mais emblemático foi a disputa naval entre Reino Unido e Alemanha. Em 1906, os britânicos lançaram o encouraçado HMS Dreadnought, revolucionando a tecnologia naval. A Alemanha respondeu acelerando sua própria produção de grandes navios de guerra, o que gerou um efeito dominó: cada avanço de um lado obrigava o outro a responder.
A militarização criou um ambiente explosivo. Quando ocorreu o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, em 1914, a estrutura já estava pronta para o conflito generalizado que se tornou a Primeira Guerra Mundial.
A segunda grande onda armamentista global é associada à Guerra Fria, tendo acontecido principalmente entre o fim da Segunda Guerra Mundial e a dissolução da União Soviética, em 1991. Nesse caso, o protagonismo sempre coube a Estados Unidos e União Soviética.
O conflito “frio” começou com uma ação de altíssima temperatura e crueldade: as bombas atômicas lançadas pelos EUA sobre o Japão, em 1945. Em 1949, a União Soviética também testou sua bomba atômica. A partir de então, desenvolveram-se bombas de hidrogênio (muito mais potentes), mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs) e submarinos nucleares. É o nascimento da chamada “destruição mútua assegurada” (MAD) — o equilíbrio pelo medo.
A disputa tecnológica extrapolou o campo militar em 1957, com o lançamento do satélite Sputnik 1 pela União Soviética, ato seguido pela chegada do homem à Lua com a missão Apollo 11, dos Estados Unidos, em 1969. Espaço e armamentos estavam diretamente ligados – era a tecnologia de foguetes.
Em vez de confronto direto EUA-URSS, houve conflitos indiretos, como a Guerra da Coreia, a Guerra do Vietnã e a Guerra do Afeganistão. Nos anos 1980, a intensificação da corrida – inclusive com o programa “Guerra nas Estrelas”, do presidente Ronald Reagan – pressionou economicamente, e sobremaneira, a União Soviética. A crise econômica soviética levou ao colapso do regime e ao fim da Guerra Fria, em 1991.
O mundo espera, assustado, para saber aonde esta terceira corrida armamentista irá nos levar.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
