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Paulo Gala

Paulo Gala é economista e professor da FGV

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Mercados sob pressão: real despenca, juros explodem e cenário externo deteriora

Petróleo e crise geopolítica aumentam incerteza

Mercados sob pressão: real despenca, juros explodem e cenário externo deteriora (Foto: Reuters)
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Os mercados encerraram a semana em clima de acentuada turbulência. O real registrou desvalorização brutal frente ao dólar, com o câmbio futuro flertando com a marca de R$ 5,10 — um salto expressivo que pegou de surpresa investidores posicionados vendidos em dólar e comprados em real, forçando o desmonte generalizado de posições. A curva de juros brasileira acompanhou o movimento e explodiu, com todos os vértices superando a barreira dos 14% ao ano. O juro longo, que havia encostado em 13,30%, saltou abruptamente para 14,30%, machucando carteiras e liquidando apostas otimistas construídas nas últimas semanas.

O principal vetor da pressão vem de fora. Os títulos do Tesouro americano estão operando em níveis que não se viam há anos. O juro de 10 anos dos Estados Unidos alcançou 4,56% — máxima em 24 meses —, enquanto o papel de 30 anos atingiu 5,11%, namorando as máximas desde 2008, o que representa a maior taxa em mais de uma década. Esses são os juros que balizam o preço das hipotecas e de todo o mercado imobiliário americano, tornando o movimento especialmente relevante para a economia real.

O gatilho para esse estresse foi uma sequência de dados americanos robustos demais para o conforto dos mercados. O índice de preços ao produtor veio acima do esperado, o varejo surpreendeu positivamente, e a produção industrial divulgada nesta manhã também superou as projeções — sinalizando que a economia americana segue resiliente apesar de todos os apertos monetários já realizados. Na prática, isso alimenta o temor de que o Federal Reserve possa não apenas manter os juros elevados por mais tempo, mas eventualmente promover novas altas ainda neste ano. O mercado começa a precificar esse cenário com crescente convicção. A tensão geopolítica no Estreito de Ormuz adiciona mais uma camada de incerteza, com o preço do petróleo pressionado para cima — um complicador adicional para as expectativas inflacionárias globais.

No âmbito doméstico, o quadro externo adverso encontrou terreno fértil num evento político de grande impacto. A candidatura de Flávio Bolsonaro foi colocada em xeque pelo mercado após revelações relacionadas ao financiamento do filme do ex-presidente Bolsonaro. Investidores que apostavam numa recuperação desse projeto político viram suas posições desmoronarem, contribuindo de forma relevante para a pressão sobre o câmbio e os juros. O dólar saindo de R$ 4,90 para quase R$ 5,10 em poucos pregões é um movimento impressionante que reflete tanto o estresse externo quanto esse reposicionamento doméstico forçado.

Para completar uma semana difícil, o setor de serviços no Brasil registrou queda nesta manhã, contrariando as expectativas. O número, que era aguardado em torno de 1,2%, veio abaixo do projetado — um resultado que deverá prejudicar os números do PIB brasileiro no primeiro trimestre. Vale notar que o setor de serviços representa aproximadamente 50% do PIB nacional, o que amplifica o impacto dessa leitura negativa. O índice segue próximo de suas máximas históricas, reflexo de uma recuperação robusta ao longo dos últimos anos, mas o dado desta sexta-feira sinalizou uma desaceleração mais pronunciada do que o esperado. A bolsa chegou a cair próximo de 2% durante o pregão, amenizando as perdas para cerca de 1% ao longo da tarde. Uma semana para ser esquecida pelos mercados — e lembrada como alerta sobre a fragilidade do atual equilíbrio global.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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