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Moisés Mendes

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

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Lula conhece as emboscadas americanas

”Acordo frustrado com o Irã, em 2010, volta a ser lembrado pelo brasileiro como uma sabotagem histórica dos Estados Unidos”, escreve Moisés Mendes

Lula conhece as emboscadas americanas (Foto: Ricardo Stuckert)

Por viralatice, o Brasil pouco sabe até hoje sobre a tentativa de Lula e de Celso Amorim de mediar um acordo de não proliferação de armas nucleares entre os Estados Unidos e o Irã em 2010. Por viralatice, a fala de Lula em Washington depois do encontro com Trump, em que abordou o acordo frustrado, foi ignorada pelos jornalões.

Foi a primeira vez que Lula tratou publicamente e em detalhes daquela empreitada, e falando dentro dos Estados Unidos. Mas Amorim já havia contado os descaminhos da viagem a Teerã em 2018, em palestra no auditório da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.

Por que Lula retomou o caso agora, passados 16 anos? Por ter decidido levar para a reunião no Salão Oval uma cópia do pré-acordo que os iranianos toparam assinar. Lula estava dizendo a Trump: nós conhecemos as emboscadas que vocês prepararam, inclusive para parceiros.

O resumo é o seguinte. Lula havia sido provocado por Barack Obama sobre a possibilidade de mediar o acordo. Recebeu uma minuta do que os Estados Unidos queriam. Decidiu com Amorim que era a hora de fazer História e os dois viajaram para Teerã.

Agora, na entrevista coletiva em Washington, Lula contou que conversou durante um dia todo com o aiatolá Ali Khamenei, com líderes do parlamento iraniano e com o então presidente Mahmoud Ahmadinejad sobre o enriquecimento de urânio para fins pacíficos.

Lula estava levando a sério a missão e indo em frente, mesmo que durante as paradas da viagem até Teerã tenha recebido alertas de Obama e Hillary Clinton, então secretária de Estado, de que deveria voltar pra casa.

No fim, os Estados Unidos e a Europa não aceitaram o acordo mediado também pela Turquia. E o texto era, como disse Lula em Washington, “uma cópia fiel de uma carta que o Obama mandou pra mim”.

Americanos e europeus, com exceção do então presidente francês Nicolas Sarkozy, diziam não confiar nos iranianos nem na mediação do então primeiro-ministro e agora presidente turco Recep Tayyip Erdogan.

Na versão de Lula, o acordo também foi rejeitado porque o Brasil é um país de Terceiro Mundo e não faz parte da elite mundial. O que Lula não pode dizer é que Obama achou que ele e Amorim não levariam a missão a sério. O que Lula nunca dirá é que o governo americano não queria acordo algum.

Ao entregar agora a cópia do pré-acordo de 2010 a Trump, e pela segunda vez segundo Lula, o brasileiro deixou claro: todo esse afeto meio exagerado com o Brasil e comigo, manifestado por você, está publicamente explicitado e é bem acolhido. Mas nós sabemos com quem conversamos.

Lula falou na coletiva com o tom alto de quem havia saído ileso da reunião de três horas. Não se submetera a Trump. Exaltou o poder da paciência, da persuasão, da conversa e do convencimento, usando exatamente essas palavras.

Passou segurança de que não havia sido subjugado pelo americano e deixou claro que Trump não conseguirá surpreendê-lo e fazer com ele o que fez com outros governantes mundiais, como aconteceu na reunião com dirigentes europeus em agosto do ano passado na Casa Branca.

Mas Lula confia mesmo em pelo menos parte dos amores de Trump? O americano pode mesmo colocar seu afeto acima das manobras da geopolítica mundial, num momento em que a China se aproxima cada vez mais do Brasil?

Quase todas as figuras citadas no apoio ou na sabotagem do acordo de 2010 saíram de catálogo. Ali Khamenei foi assassinado pelos americanos em fevereiro. Ahmadinejad, Obama, Hillary, Sarkozy, Angela Merkel – nenhum tem protagonismo algum hoje. Só Erdogan ainda está na ativa.

Mas Lula, com 80 anos, e Celso Amorim, com 83, continuam voando pelo mundo em busca de algum sentido para a conversa de que é possível chegar à paz. Poucos têm tanta paciência quanto os dois brasileiros.

Trump, se não der um golpe, sai do governo em janeiro de 2029, porque ninguém pode ser presidente por três vezes nos Estados Unidos. Lula, se reeleito em outubro, fica no poder até o final de 2030. Os dois teriam apenas mais dois anos e meio de convivência.

Trump tem esse tempo para colocar à prova a imagem que faz de Lula. Um homem bom, inteligente e dinâmico. Tudo isso parece, vindo de quem vem, uma química exagerada. Esperemos até o final de outubro.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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