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José Álvaro de Lima Cardoso

Economista

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Guerra contra o Irã: a realidade do terreno define os parâmetros do conflito

Escalada expõe limites militares dos EUA e reforça poder econômico e geopolítico do Irã

Estreitode Ormuz / Ilustração Reuters (Foto: Ilustração Reuters)

Como é conhecido, as negociações entre EUA e Irã, no final da semana, em Islamabad, Paquistão, colapsaram. Os dois lados se retiraram, sem falar em voltar à mesa de negociação. O cessar-fogo, que nunca existiu de fato, porque Israel simplesmente o ignorou, pode ser formalmente desfeito a qualquer momento. É importante lembrar que quem pediu o cessar-fogo, já a partir da terceira semana de guerra, foram os EUA.

Na sofisticada estratégia desenvolvida pelo Irã desde o início da guerra, foi fundamental a pressão econômica, via controle do Estreito de Ormuz, cujas consequências são equivalentes às duas grandes crises petrolíferas dos anos de 1970 (em 1973 e 1978). Pelo Estreito de Ormuz não passa só petróleo e gás. Ele também é a rota de 30% do comércio mundial de ureia (fertilizante-chave para produção de alimentos), 20% do amoníaco, 8% do alumínio global e mais de 50% do comércio marítimo de enxofre, além de gás hélio, fundamental para a fabricação de chips e semicondutores, que são o cérebro de dispositivos como telefone, TV e computadores. Ou seja, ao controlar Ormuz, reduzindo significativamente o fluxo de navios, o Irã interrompeu uma das artérias centrais da economia mundial.

Desde a Guerra do Vietnã, os EUA não enfrentavam uma força antiaérea para valer. Os americanos, assim como os sionistas, estão acostumados a despejar bombas de aviões na cabeça de crianças, mulheres e idosos, sem nenhum risco de o inimigo revidar. Para o piloto, é quase como jogar videogame. É o que acontece em Gaza: os soldados israelenses têm medo de encarar o Hamas em solo, mas têm “coragem” para bombardear crianças e idosos a partir de caças, onde não correm nenhum perigo. No Irã, no entanto, a resistência armada começou a abater aviões. Somente no dia 3 de abril, abateram dois, incluindo um F-15E, um avião caça multifunção considerado, até então, imbatível.

Em um total estimado conservador (admitido pelas forças armadas americanas), pelo menos 2 caças tripulados + 12 drones = 14 aeronaves foram abatidas diretamente pelo Irã. Mas os números totais podem chegar a mais de 20 aeronaves, incluindo danos indiretos. É a assimetria da guerra traduzida em dólares: o custo do caça F-15E Strike Eagle está calculado em cerca de US$ 80-100 milhões por unidade. O custo médio dos mísseis iranianos que, provavelmente, foram usados para abater os F-15E está em US$ 1-5 milhões cada, segundo informações disponíveis. O fator financeiro é fundamental, inclusive, para os agressores desejarem uma guerra rápida (falavam no início em vitória em 4 dias), pois, quanto mais o tempo passa, mais insustentável economicamente a guerra se torna.

A guerra contra o Irã segue uma lei férrea: é a realidade do terreno que estabelece todos os parâmetros. Tanto o terreno econômico quanto o bélico propriamente dito levaram ao resultado do conflito até este momento. No início da guerra, quando atacaram à traição, em pleno processo de negociação com o Irã, os americanos acreditavam ser possível impor uma derrota rápida ao inimigo, neutralizando suas capacidades militares e promovendo instabilidade interna no país. Esse cenário não se concretizou diante da resposta regional (o Irã atacou imediatamente as monarquias árabes do Golfo Pérsico) e da consistência e continuidade das operações militares iranianas. Foi essa realidade que levou os EUA a pedirem a trégua da semana passada (que não deu em nada, como se sabe).

A comprovação de que a questão nuclear é apenas uma esfarrapada desculpa para os EUA destruírem o Irã é que os próprios serviços de inteligência americanos continuavam avaliando, mesmo em 2025, que o Irã não estava de fato construindo uma arma nuclear. Os serviços de inteligência sabiam que o aiatolá Ali Khamenei (covardemente assassinado no primeiro dia da guerra, juntamente com sua filha, neta de 14 meses, genro e nora) não havia reautorizado o programa de armamentos que havia sido suspenso em 2003. Ou seja, todo o pressuposto que teria motivado a guerra no ano passado (a de 12 dias) e a deste ano estava fundado sobre uma premissa que a própria inteligência americana contestava internamente. A grande mídia, que mente muito sobre a guerra, não discute esse assunto. É como se as acusações contra o Irã fossem verdadeiras.

Cabe uma pergunta: por que o Irã não poderia ter bomba atômica? São só os países imperialistas que podem ter a bomba? Por que os EUA podem ter 3.700 ogivas nucleares em estoque militar (prontas para uso), de um total de ~5.177 (incluindo reservas e aposentadas), e Israel pode ter também, inclusive sem controle nenhum da AIEA, e o Irã não pode?

O controle do Estreito de Ormuz pelos iranianos, que o imperialismo não tem como impedir, é fundamental. Sua importância para a economia mundial é enorme, pois é um dos principais “gargalos” do comércio global de energia. Qualquer interrupção causa picos nos preços do petróleo, afetando inflação, transporte e indústrias em todo o mundo. A economia iraniana não é uma economia débil como a de Israel, que tem que receber dinheiro dos EUA para se sustentar. O Irã é uma economia de verdade, com agricultura, indústria e tecnologia desenvolvidas (inclusive tecnologia de guerra). Se fossem retiradas as sanções, a economia do país deslancharia. O crescimento composto do Irã, nos últimos 5 anos até 2025, foi de 18,5%. O crescimento do Brasil, no mesmo período, foi o mesmo (18,6%), sem sanções e sem guerra.

Os EUA impingiram estragos importantes ao Irã nos primeiros 39 dias de guerra. Foram atingidos mais de 13.000 alvos em território iraniano, e a capacidade naval dos Guardiões da Revolução foi seriamente degradada, além de importantes instalações nucleares. Os persas perderam 56 cientistas nucleares, comandantes militares e infraestrutura estratégica (todos crimes de guerra). Não há como enfrentar o maior orçamento militar do mundo sem sofrer dor e danos, e o Irã se preparou para isso. Porém, os objetivos principais dos EUA na guerra não foram atingidos:

1º) Destruir o programa nuclear iraniano: o programa nuclear foi atingido, mas não destruído.

2º) Mudar o regime: o regime continua no poder. E agora com um alto nível de coesão, porque o povo se uniu contra a agressão estrangeira.

3º) Forçar o Irã a renunciar ao programa de mísseis e parar de apoiar grupos aliados na região: isso não será aceito de jeito nenhum pelo Irã.

4º) Garantir o fluxo livre de petróleo pelo Estreito de Ormuz: ora, o Irã continua controlando o estreito com suas forças armadas e cobrando uma taxa. Os navios passam, mas passam sob supervisão iraniana, uma posição de poder que Teerã nunca havia reivindicado formalmente antes desta guerra.

A dimensão mais importante do problema é a econômica. A supremacia do dólar na economia mundial é uma das bases do domínio dos EUA no mundo. Se cai o dólar como moeda de referência mundial, apressa-se a decadência do império. Conhecedor do assunto, o Irã está exigindo no Estreito de Ormuz moedas nacionais ou o yuan chinês. Cada vez que os EUA e Israel subiam na escada da escalada, aumentava a crise dos petrodólares e da economia mundial. Quanto mais os EUA atacavam a infraestrutura do Irã, mais aumentava o preço do petróleo. A guerra Irã x Estados Unidos se tornou, em seis semanas, uma ameaça existencial para a estabilidade da economia global. O verdadeiro poder do Irã nessa guerra não é apenas militar, mas principalmente geopolítico e econômico. Nesse contexto, a guerra pôs por terra, quem sabe em definitivo, a tese de alguns incautos de que o petróleo não tem mais importância para a economia mundial.

Ao atacar o Irã, ao destruir sua infraestrutura, ao matar seus cientistas e comandantes, os Estados Unidos e Israel fortaleceram exatamente o que queriam destruir, que era o apoio da população ao governo. Nada une mais uma população do que um inimigo externo que visa à destruição da nação. China e Rússia, os alvos seguintes dos ataques, por sua vez, ganharam sem ter disparado um único tiro. Ganharam a demonstração prática de que o poder bélico americano tem limites. Por outro lado, estão assistindo a uma perda acelerada de influência dos EUA no Oriente Médio, que pode piorar muito nos próximos lances do tabuleiro da guerra. China e Rússia também ganharam tempo para aprofundar suas estruturas alternativas, especialmente a substituição do dólar nas transações internacionais, onde reside, possivelmente, a maior fragilidade do império americano.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.