Frente a uma ameaça existencial, a estratégia do Irã é vencer ou morrer
Escalada militar dos EUA expõe erro estratégico e fortalece a resistência iraniana diante de um conflito com impactos globais
Donald Trump assumiu seu segundo mandato em janeiro de 2025 prometendo que os EUA não entrariam mais em guerras eternas, que o governo dele não iniciaria novas guerras. Na campanha eleitoral, dizia que iria acabar com a guerra entre Rússia e Ucrânia em 24 horas. Muita gente votou em Trump por conta dessa promessa, vendo aí uma boa chance de os EUA reduzirem seus gastos militares, que beiram, em 2026, os US$ 900 bilhões, superiores em muitas vezes aos de qualquer outro país do mundo.
Por uma série de razões, incluindo a influência que os sionistas têm na elite política dos EUA, Trump manteve a direção que a política norte-americana apresentou nas últimas décadas, sustentando o massacre na Faixa de Gaza, financiando a Ucrânia e entrando em uma nova guerra, agora com uma civilização de cultura milenar, que jamais aceitou se curvar a potências imperialistas.
É algo muito impressionante que os EUA tenham caído nesse lodaçal de forma tão infantil. Não me refiro apenas ao presidente dos EUA, sobre o qual pairam dúvidas acerca de sua sanidade mental. Mas como a máquina de guerra norte-americana — com o complexo militar-industrial, instituições governamentais e forças armadas — entrou nessa é algo realmente estarrecedor, que revela o nível das contradições existentes na dominação imperialista. Essa guerra é muito pior para os EUA do que o Afeganistão e o Iraque, conflitos em que foram derrotados. Depois de 20 anos no Afeganistão, os EUA saíram escorraçados por um grupo de guerrilheiros muito pobres, sem armas sofisticadas, infinitamente com menos recursos técnicos, políticos e militares do que o Irã.
O diagnóstico com que o governo americano entrou nessa guerra mostra a incompetência dos serviços de inteligência e a soberba desse país. Imaginaram que, com a decapitação das principais lideranças iranianas, incluindo o líder religioso máximo de 260 milhões de xiitas (em toda a região), e alguns bombardeios ao país, a população fosse se insurgir contra um governo supostamente impopular. Este foi o primeiro grande erro: em resposta à covardia do ataque, traindo novamente um processo de negociações, o povo saiu às ruas, mas para apoiar o governo islâmico.
Em uma mistura de desespero e demência, a linguagem usada pelo primeiro mandatário dos EUA é patética. Mesmo apanhando no campo de batalha, Trump vem usando uma linguagem que sugere que os iranianos imploram por um acordo, apesar de estes deixarem claro que não querem conversa com os agressores neste momento. Uma prova de que o presidente do governo americano está vivendo em um mundo paralelo são as últimas exigências feitas aos iranianos: o plano de 15 pontos, que é, na prática, uma ordem de rendição, de capitulação. Entre essas exigências estão o fim do enriquecimento nuclear, o fim da fabricação de mísseis balísticos, o fim das alianças regionais etc., propostas que os iranianos nem sequer comentam.
Como a estratégia de decapitação e pavor não funcionou, não derrotaram o Irã em “quatro dias”, como anunciado por Trump, e, em face da imediata e dura reação dos persas, bateu o desespero entre os agressores. Todos os especialistas militares com visão técnica independente afirmam desde o início que essa empreitada irá fracassar. Ou seja, não existe uma estratégia de saída da guerra que possa ser positiva para o governo norte-americano. Cometeram um erro e irão pagar por isso. Quanto mais ele adiar a saída, pior ficará, porque o tempo é um fator que está ao lado do Irã.
Trump está ameaçando o tempo todo “subir a escada da escalada”, ou seja, aumentar a agressividade dos ataques se o Irã não se render de forma incondicional. O problema é que, a cada novo ataque dos EUA, ou de seu cachorro de estimação no Oriente Médio, o Irã responde com mais potência, destruindo as bases norte-americanas localizadas nos países fantoches do Golfo Pérsico ou instalações estratégicas em Israel.
A carta mais importante que o Irã tem nas mãos é o poder de arruinar a economia internacional. No Golfo Pérsico, controlado pelo país, passavam 20% do petróleo internacional, cerca de 50% dos insumos para fabricação de fertilizantes e um elevado percentual do gás liquefeito. Todos são elementos fundamentais para o funcionamento da economia internacional. A estimativa é que, depois do início da guerra, esteja passando pelo Golfo entre 5% e 10% do petróleo que costumava passar. Este fato, necessariamente, afetará o funcionamento da economia mundial daqui a algumas semanas. Alguns efeitos já estão em pleno funcionamento: em 27 de fevereiro de 2026 (antes do início da guerra), o preço do barril de petróleo Brent (referência internacional) estava em US$ 71,32. No dia 30 de março de 2026, o preço do barril estava em US$ 115,28, uma alta de 61,64%.
Uma outra carta fundamental é que o Irã pode destruir, de fato, a maioria dos estados do Golfo. Esses estados dependem de plantas de dessalinização e infraestrutura de petróleo. Esses objetivos são muito fáceis para os iranianos alcançarem com seus mísseis. Por exemplo, conseguiria destruir todas as usinas de dessalinização e a infraestrutura de produção de petróleo da Arábia Saudita (22,3% do PIB e 55% das receitas do governo). Isso desmontaria o país, pois ele depende essencialmente dos dois recursos mencionados. As usinas de dessalinização fornecem cerca de 90% de toda a água doce necessária para os seis países do Golfo Pérsico juntos (Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Kuwait, Bahrein e Omã). Esses países têm mais de 62 milhões de habitantes e quase zero recursos hídricos naturais, então dependem dessa tecnologia para consumo humano, agricultura e indústria.
Além disso, os iranianos estão causando enorme dano à infraestrutura de Israel. Os israelenses, nos últimos dias, ficaram sem mísseis defensivos. Tudo indica que o Irã ainda dispõe de muitos mísseis. Claro, ninguém sabe o número ao certo, porque é informação de guerra. Esses mísseis podem causar enormes danos a Israel. Há também a possibilidade de exaustão das forças armadas de Israel. No dia 26 de março, o Gen. Eyal Zamir, chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel (IDF), durante reunião do gabinete israelense, alertou que o exército "colapsará em si mesmo" devido à escassez crítica de pessoal (cerca de 20 mil soldados em falta), agravada pela guerra contra o Irã. Sugeriu também a necessidade do recrutamento de judeus ultraortodoxos (haredim) e a extensão do serviço militar. Os haredim têm isenção tradicional do serviço militar obrigatório desde 1948, via status de "estudantes da Torá" em escolas religiosas. Isso cria tensões políticas no país e déficit de tropas nas forças armadas.
Para evitar uma grande crise econômica internacional, os EUA precisam garantir que haja oferta suficiente de petróleo na economia mundial. Por isso, foram suspensas parcialmente as sanções contra a Rússia e o próprio Irã. O Irã, que planejou meticulosamente esse enfrentamento, conta também com a possibilidade de bloqueio do Mar Vermelho pelo Iêmen do Sul. Com o Estreito de Ormuz parcialmente fechado desde o início da guerra, um bloqueio no Mar Vermelho pelo Iêmen do Sul, via Houthis, criaria um bloqueio duplo catastrófico. Essa ação cortaria rotas para Ásia, Europa e Américas, forçando desvios via Cabo da Boa Esperança (África) ou Pacífico, adicionando de 2 a 4 semanas de viagem e custos de transporte 30% a 50% maiores. Uma coisa é certa: mesmo que a guerra fosse encerrada hoje, uma recessão mundial é praticamente inevitável.
Os países do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC) — Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos (EAU), Qatar, Kuwait, Bahrein e Omã — têm altos percentuais de estrangeiros (principalmente trabalhadores migrantes da Ásia e África), devido à economia baseada em petróleo. Em média, 56% da população total é estrangeira (35 milhões de 62 milhões em 2026). No Qatar, 88% da população é formada por estrangeiros. Se os ataques se aprofundarem, especialmente a fontes de água e energia, o risco de esses países perderem rapidamente população é muito grande.
Enquanto os EUA têm pressa, o Irã só precisa resistir aos ataques e conservar sua capacidade de revidar os golpes. Quanto mais a guerra se arrastar, mais o Irã tem vantagem, em função da crise econômica que se agrava inexoravelmente à medida que cai a oferta de petróleo. Se a guerra continuar, inclusive com a destruição das estruturas de produção e armazenamento de petróleo nos países do Golfo e no Irã, poderá chegar o momento em que não precisará nem restringir a passagem no Estreito de Ormuz, pois não haverá riquezas para exportar. A tendência é que, quanto mais a guerra se prolongar, mais desesperado o imperialismo vai ficar.
A estratégia de Trump parece ser a de ganhar tempo, já que não sabe o que fazer. Lá pelo dia 23 de março, deu 48 horas para o Irã se render, ou atacaria a estrutura de energia elétrica. Quando esgotou o prazo, cancelou o ataque e estabeleceu um novo prazo de 5 dias. Passado o segundo prazo, estabeleceu outro de 10 dias. É uma política de desmoralização, típica de quem ingressou em uma guerra sem planejamento.
Uma das hipóteses para a postura do governo americano é a de que estaria ganhando tempo para a chegada de tropas, para um possível ataque terrestre. Menciona-se entre 5.000 e 10.000 soldados. Os especialistas bélicos afirmam que, para invadir um país como o Irã, com um milhão de militares, 93 milhões de habitantes e 1/5 do território brasileiro, os imperialistas precisariam de 2 a 3 milhões de soldados, além de uma preparação de cerca de dois anos. Ou seja, se o governo norte-americano tentar tomar território iraniano com 10.000 militares, essa força corre o risco de ser simplesmente esmagada.
Talvez Trump não saiba, mas seus conselheiros têm consciência de que ele está em apuros. Ele tem conselheiros econômicos que percebem que a economia está indo para o abismo. Tentam ganhar tempo, procurando uma saída. A alternativa de declarar vitória e ir embora, que Trump usou na guerra de 12 dias, em junho passado, não vai convencer ninguém. Ninguém vai acreditar nisso, especialmente os eleitores norte-americanos. Além disso, a saída dos EUA da guerra não significa que o Irã irá parar de atacar Israel e as estruturas militares e petrolíferas nas “petromonarquias”, que são fantoches dos EUA.
Pesa decisivamente em qualquer guerra o aspecto da motivação das tropas. Para norte-americanos e israelenses, lutar no Golfo Pérsico decorre de obrigatoriedade legal ou de ganhar dinheiro. Para os iranianos, trata-se de lutar — e morrer, se preciso for — pela defesa de seu país e de seu povo. Trata-se de uma luta de vida ou morte contra potências nucleares em busca de petróleo, que não hesitaram em assassinar friamente 180 meninas de 7 a 12 anos com o intuito de apavorar a população. Essas táticas até agora não deram certo, e o imperialismo terá que pagar o preço de milhares de crimes de guerra. O Irã, além de estar jogando muito bem suas cartas, permanece disposto a suportar uma imensa dor para vencer uma guerra que sabe que coloca em risco sua existência enquanto nação.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
