Fortaleza amada
Uma das melhores maneiras de conhecer uma cidade é caminhar por ela
Dizer que Fortaleza é uma lindeza é cair na armadilha de uma rima pra lá de pobre. Por outro lado, como dizer de maneira simples e direta que Fortaleza é uma lindeza banhada de sol e mar, que nos abraça com seus ventos e nos acaricia com suas brisas de fim de tarde? Fortaleza é assim, essa cidade-mulher que representa amor e liberdade. Mas como toda cidade, Fortaleza é constituída de paradoxos, belezas e mazelas. Colocar essas contradições no papel foi a maneira que a Universidade Federal do Ceará – UFC encontrou para homenagear a cidade e, como bem disse o reitor da Universidade, professor Custódio Almeida: “Fortaleza é uma cidade que se reconhece nos encontros”.
Assim sendo, a UFC abriu edital e 163 crônicas foram selecionadas e publicadas no livro Fortaleza Amada (2026), com organização de Francisco Silva Cavalcante Júnior. A obra, uma espécie de festschrift para Fortaleza, traz em suas crônicas o olhar de cada autor(a) sobre um detalhe, uma memória, um personagem ou um lugar de afeto da cidade. Ao longo da leitura vamos nos identificando, pelas linhas simples, breves e profundas do gênero crônica, com a história e o cotidiano de uma cidade que completa 300 anos, mas que ainda guarda em si a beleza, as dúvidas e os descontentamentos adolescentes.
E é assim que acompanhamos as memórias de Edmilson Alves Maia Júnior, quando discorre em sua crônica “O descanso do semeador” (p.114-117) sobre o senhor Edenilson que, entre inúmeras ouras coisas, costumava alugar DVDs em uma conhecida locadora da Avenida Antonio Sales (quem nunca?). Com Sarah Silva Ipiranga e sua crônica “Verde-Marinho” (p.391-393) acompanhamos a autora que, vinda de outras plagas, travou uma incansável luta contra o sol da cidade até que, por fim, se rendeu aos seus afagos, e tudo indica que não consegue mais viver sem eles.
Uma das melhores maneiras de conhecer uma cidade é caminhar por ela. Somente assim conseguimos descobrir o que não se mostra, mas que é sempre tão belo quanto o que nos é dado aos olhos. Andar, contudo, dá fome. E é por esse caminho que segue a crônica “Sonhos de padaria” (p. 42-45), de Ana Mary C. Cavalcante, que relembra seu caminhar pela cidade, comendo sonho de padaria. Para a cronista, “Fortaleza é uma metrópole que me serve café com pão, quentinhos. E sonhos de padaria. As coisas mais finas do mundo”. Embora minhas taxas de diabetes batam no teto, quem sou eu para discordar das delicias de um sonho de padaria?
Fortaleza não é apenas sol e mar. Não é apenas Ceará e Fortaleza, pois amamos o Ferroviário. Fortaleza também é periferia, mangue, rock, maracatu, blues e lutas políticas, “tudo junto e misturado”. Sobre o mangue (a Fortaleza-mangue), a crônica de Hermínia Lima (p.191-193) é um grito de socorro pela vida da praia de Sabiaguaba, pois, como diz a cronista: “... há lutas que não podem ser adiadas. Há lugares que não podem ser perdidos”. Do outro lado da cidade, quem diria, roubaram o portão de alumínio e os números de ferro da casa da família do tradutor Odorico Leal, que nos traz os detalhes na crônica “cidade desaparecida” (p.338-339). Ri bastante, pois já tentaram levar o meu também. São todas essas coisas que nos tornam parte dessa cidade que, ao contrário de NY, sempre tira um cochilo depois do almoço e, sim, sempre dorme. A city that doesn’t sleep é para os fracos.
O livro, presente da UFC para Fortaleza, poderia ter 3 volumes e ainda seria pouco para tentar dar conta de tudo que nossa cidade é. Fortaleza sempre foi cantada em prosa e verso. Nesse sentido, a crônica talvez seja um dos gêneros preferidos de muitos daqueles e daquelas que registraram seu orgulho de amanhecer nesta cidade. E é sobre isso que discorre a crônica “Fortaleza, o que tu és?” (p.386-387), de Ronaldo Salgado, quando lista muitos dos nomes que por Fortaleza “clamam, declamam e cantam”. No feriado do aniversário de Fortaleza não sei o que abre e fecha, mas sei que vou ouvir Kátia Freitas e tomar uns bons drinks em agradecimento por ter nascido e continuar vivendo nessa cidade.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
