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Moisés Mendes

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

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Flávio pode esperar a PF com a casa bem arrumadinha

“Fazer busca e apreensão agora seria oferecer ao amigão de Vorcaro a chance de dizer que não acharam nada contra ele”, escreve Moisés Mendes

Flávio Bolsonaro, agente da PF, Daniel Vorcaro e, ao fundo, Congresso e Banco Master (Foto: Reprodução I Divulgação )
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Se a Polícia Federal batesse hoje na mansão e em outros endereços de Flávio Bolsonaro, em operação de busca e apreensão, poderia encontrar caixas vazias de chocolates da fantástica loja do senador no Rio. Não acharia mais nada, nem os chocolates da franquia. Só as caixas sem nada dentro.

Seria frustrante para os que perguntam, inclusive na grande imprensa golpista: por que Flávio não sofreu busca e apreensão, como Jaques Wagner e Ciro Nogueira, se confessou que mordia Daniel Vorcaro e admitiu ter recebido dinheiro do banqueiro?

Nesse cenário, a dúvida deixa de ser por que não fizeram busca na casa de Flávio e é trocada por uma interrogação que tem resposta previsível: o que seria achado hoje de relevante e comprometedor na mansão de R$ 6 milhões e em gabinetes de Flávio?

Sabe-se que, sem busca e apreensão, não existiriam os inquéritos do golpe. Nem julgamentos, nem a condenação de Bolsonaro como chefe da organização criminosa que envolvia generais incompetentes até como golpistas.

Mas a busca precisa acontecer na hora certa e ter a sorte de bater na casa de descuidados ou arrogantes, como é o caso de Vorcaro. Porque só a certeza da blindagem e da impunidade permitiu que oito celulares dele fossem apreendidos.

Quantos celulares Flávio tem em seu nome, se é que tem? Quantos celulares usa em nome de ajudantes? Quantos tem em casa? O que a PF encontraria hoje em celulares e computadores de Flávio, se ele sabe o que não deve fazer para ser flagrado com minutas, como aconteceu com seu pai e os cúmplices da extrema direita?

Mauro Cid foi flagrado porque, por ingenuidade, considerava-se protegido e inalcançável, pela proximidade com o chefão. Frederick Wassef, advogado de Bolsonaro, foi surpreendido pela PF num restaurante de Brasília, em agosto de 2023. Tinha quatro celulares.

Dias depois, debochou dos investigadores: nenhum daqueles aparelhos tinha informações que pudessem comprometê-lo. Os celulares que poderiam ter alguma coisa continuavam com ele. Acharam nos quatro celulares informações sobre venda e recompra das joias das Arábias de Bolsonaro. Mas o inquérito foi arquivado pela Procuradoria-Geral da República.

O véio da Havan teve dois celulares apreendidos, em duas operações, em 2020 e em 2022, e também avisou que a PF não encontraria nada contra ele. Como todos os outros, não forneceu as senhas e se transformou em caso único: os aparelhos são considerados impenetráveis e nunca foram devassados.

É um dos grandes mistérios das investigações que envolvem figuras acusadas de golpismo. Por que os peritos da PF não conseguiram entrar nos celulares do véio da Havan, que é investigado em três frentes? Ele está nos inquéritos das fake news, dos tios do zap que tramavam o golpe em 2022 e dos crimes da pandemia. Nenhum inquérito tem desfecho.

Sem a devassa em computadores e celulares, quase nada do que envolve a extrema direita seria destrinchado, em qualquer investigação, e não só na que pegou a quadrilha do golpe.

Esperar que uma operação de busca e apreensão contra Flávio dê resultado agora, com a casa arrumadinha para receber a PF, é torcer por um milagre. Flávio Bolsonaro escapou de todas as investigações e conseguiu anular no Supremo tudo o que foi feito pelo Ministério Público sobre as rachadinhas.

Bolsonaro e seus filhos estão impunes até hoje por crimes comuns dos quais foram ou ainda são acusados. O pai está preso em casa por causa do golpe fracassado. Eduardo foi condenado porque ameaçou o Supremo. Mas não há nenhuma condenação da família por participação em crimes com dinheiro.

Pedir busca e apreensão agora é oferecer ao filho ungido a chance de dizer que não acharam nada. O que resta é esperar que mais provas apareçam nos celulares dos outros, como a maior de todas as provas até agora — aquela do áudio em que Flávio morde Vorcaro e pede mais dinheiro para o filme do pai.

A prova da mordida estava no celular de Vorcaro. Mas sabemos o que andam dizendo, com a ajuda de juristas: que Flávio queria financiar uma obra cultural e que não há indício de que o dinheiro seja propina, como nos casos de Jaques Wagner e Ciro Nogueira. O que seria de nós sem os juristas que explicam tudo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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